Bioma típico do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, o Pampa é caracterizado por vegetação baixa e pouca área de floresta. Apesar de pequeno, – sua área corresponde a menos de 3% do território nacional – ele foi o bioma brasileiro mais devastado no primeiro semestre de 2020. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento este ano cresceu 343% em comparação ao mesmo período de 2019, à frente do Pantanal (154%) e da Amazônia (4%).

O Pampa tem pelo menos 2.400 tipos de gramíneas e ervas, que abrigam aves, pequenos lagartos e roedores exclusivos da região. “Elas garantem o equilíbrio do ecossistema, polinização, controle da erosão e fertilização do solo”, lista o professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Eduardo Vélez-Martin.

Além disso, no ano passado, o Inpe apontou que 43,7% da vegetação nativa do Pampa havia sido erradicada até 2016. “A porção Sul do estado sofre com o avanço da monocultura de soja sobre a vegetação nativa. Há ainda a exploração de eucalipto e o uso de agrotóxicos nessas atividades, que contaminam outras áreas”, contextualiza.
Segundo o pesquisador, estima-se uma devastação anual de 1,2 mil km², o equivalente a 2,5 vezes o município de Porto Alegre. Além disso, mesmo a área ainda preservada é tida como descaracterizada. “Houve a introdução de espécies que não são naturais do bioma, como o capim annoni, para alimentação do gado, e criação de javalis”, destaca Vélez-Martin.

Pecuária ecológica em risco

Outro desafio é frear a pecuária intensiva e preservar as pequenas propriedades familiares. Ao contrário das outras regiões do país, a criação do gado em menor escala não acarreta problemas ambientais. “Como a vegetação típica é campestre, não é necessário desmatar ou derrubar floresta: a pastagem já está aqui e é adaptada ao pisoteio do animal. Motivo pelo qual o bioma também não tem queimada: ao se alimentar, o gado controla o crescimento das plantas nativas”, descreve Vélez-Martin.

As características da região motivaram os jesuítas a introduzirem o gado no Rio Grande do Sul por volta de 1608. Segundo o professor da Pós-Graduação em Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Rafael Cabral Cruz, o gado era criado solto até a demarcação das propriedades, no Império. “A partir disso, é introduzida a figura dos gaúchos, diferentes tipos de homem campesino que vivem do pastoreio do gado e da ovelha”, explica.

Pedras Altas no Pampa gaúcho
Pedras Altas no Pampa gaúcho (crédito: Eduardo Vélez)

“Os primeiros estudiosos do Pampa já diziam: não faz sentido derrubar a Floresta Amazônica e o Cerrado para criar gado, com um bioma que atende a essas características”, lembra o professor. Contudo, os latifundiários não respeitam a legislação local de reservar 20% das propriedades para a vegetação nativa. “Aumentam a população de gado, o que interfere no bioma, não adaptado para isso”, esclarece Velez.

De acordo com Cruz, políticas de assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) trouxeram problemas para o bioma nas décadas de 70 e 80. “Houve a necessidade de assentar agricultores que foram deslocados para a construção de barragens. Com medo das suas terras serem classificadas como improdutivas, latifundiários começaram a lotar os espaços com gado”, relembra Cruz. Ainda hoje, o gado confinado exige maior uso de energia fóssil, responsável por emitir gás carbônico na atmosfera. “Isso provoca uma pecuária sem ganho ecológico, como a do Sudeste”, compara Cruz.

Escassez de água

A mineração é outro fantasma que ronda o Pampa, já usado, no passado, para exploração de calcário e cobre. Atualmente, Velez explica que há projetos de captação de metais pesados para uso em fertilizantes. “A oposição é grande, porque tal essa atividade é poluidora, de alto impacto ambiental e com fiscalização insatisfatória”, assinala. Outra proposta é explorar carvão nas proximidades de Porto Alegre. “Debate-se qual seria o impacto disso no ar da capital”, pontua o professor.

Em relação aos recursos hídricos, a região, atravessada pelo Aquífero Guarani, também está em risco. “A característica do bioma é ter menos disponibilidade de água no solo em diferentes momentos do verão e do inverno. Respectivamente, devido ao calor intenso e ao congelamento da água pelo frio”, afirma Cruz.

“Hoje, 98% das bacias são usadas para irrigação de arroz. Como resultado, o verão no sudeste do estado já exige caminhões-pipa para abastecimento da população”, acrescenta. Todos esses problemas afetam os povos tradicionais da região que, além dos gaúchos campesinos, é composta por indígenas, quilombolas e pescadores artesanais. “Grupos com pouca representatividade nos Comitês de Bacias Hidrográficas ”, lamenta Cruz.
Para ele, fiscalizações e políticas públicas ajudariam a frear a devastação do bioma. “Em relação à disponibilidade da água, por exemplo, a tendência é a situação se agravar em um futuro próximo”, adianta.

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