“Esse é o Estado feito com cadáveres do povo Guarani Kaiowá”, denuncia o grupo de rap indígena Brô Mc’s sobre o Mato Grosso do Sul na recém-lançada música Cemitério, prevista no segundo álbum.Em outro trecho, eles lembram a situação de parentes que, expulsos de suas terras pelo agronegócio, acabam morando nas rodovias. “Com barraca de lona na beira de estrada, com barriga roncando, sem força para ajudar, sem terra para plantar”, relatam.

Com 13 anos de carreira, o Brô Mc’s é formado pela dupla de irmãos Kelvin Mbaretê e Ch (Charlie Peixoto), além dos também irmãos Bruno VN e Tio Creb (Clemersom Batista), moradores das aldeias de Jaguapiru e Boróró, em Dourados (MS). A região é marcada por conflitos de terras com o agronegócio e o assassinato de lideranças indígenas.

“A importância do rap indígena é levar ao Brasil a situação dos povos originários em geral e especificamente do nosso estado, onde as demarcações de terra e os ataques nas retomadas – processo em que os indígenas retornam aos locais onde estavam suas antigas aldeias antes da expulsão por latifundiários – fazem com que nossos irmãos percam suas vidas. Há muito derramamento de sangue”, lamenta Mbaretê.

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Brô MCs no Rock in Rio 2022 (crédito: divulgação)

Retomada, aliás, foi a palavra escolhida para batizar o novo álbum e que também faz analogia a um novo passo na carreira deles. “O jeito que a gente escreve as rimas é para retratar o que acontece nas aldeias, a realidade que vivemos e levar a questão do movimento indígena para quem desconhece. Também falamos sobre a importância da preservação da natureza”, completa VN.

Além do problema da demarcação das terras, outra pauta do grupo é denunciar o abandono pelo poder público das aldeias em áreas já demarcadas.“A falta de boas estradas faz com que os jovens não consigam sair para estudar ou acessar o mercado de trabalho”, destacam.

Eles também relatam que não há opções de lazer, cultura e esportes. “A primeira Vila Olímpica Indígena, em Jaguapiru, está completamente esquecida”, conta Mbaretê. “Acho que é um jeito de falarmos ‘nós, indígenas do Mato Grosso do Sul, somos assim. Somos diferentes do que vocês imaginavam ou do que conheceram dos livros’”, reflete VN.

“Nosso trabalho cura feridas”

Foi por meio de uma oficina de rap nas suas aldeias que os então quatro jovens do Brô Mc’s puderam se aproximar da cultura hip hop. “Havia um programa na rádio da cidade chamado ‘Ritmo das Batidas’ que tocava as músicas dos Racionais MC’s e Facção Central. A gente reunia a molecada da cidade para jogar bola, tomar tererê e ouvir. Não tínhamos aparelho de som, mas só um radinho de pilha com K7 que gravávamos para escutar depois”, relembra Mbaretê.

“Pelas músicas, percebíamos que não havia muita diferença entre o que o povo negro passava e o povo indígena em termos de opressão. Isso nos motivou a escrever também”, diz VN. As duas duplas de irmãos começaram a apresentar as primeiras canções na escola da aldeia antes de gravar seu primeiro álbum demo – ainda hoje o único da banda. “Escolhemos Brô porque vinha de brother (irmão) e era também a gíria como a molecada do hip hop se chamava na época”, conta Mbaretê.

“Na ocasião, chegamos a pesquisar se havia outros grupos indígenas e encontramos algo similar apenas no México. Mas mais importante do que ser ou não os primeiros é poder fortalecer a luta dos povos aqui no Brasil. Nossa luta é no palco”, destaca VN.

As letras do Brô são escritas em português e em guarani. Para quem ainda desconhece a banda, Bruno indica as canções “Eju Orendive” e “Terra Vermelha”. Mais recentemente, a banda gravou a música “Jarahá”, em parceria com o DJ Alok, e tocou ao lado do rapper Xamã no Rock in Rio 2022. “Fomos os primeiros indígenas a pisar nesse palco. É importante mostrar que o rap indígena é diferente da quebrada”, diz VN.

“Para o nosso povo, penso que nosso trabalho cura a ferida de algumas pessoas e também serve de inspiração para outros fazerem música. Nossa flecha é a rima”, finaliza Mbaretê.

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