Ocupar espaços, lutar por direitos e combater estereótipos são lutas da juventude cigana atual, que vive desafios e possibilidades diferentes das gerações passadas.

“Houve flexibilização em pontos como poder se assumir cigano. Antigamente, o medo da violência era maior, ainda que ele exista”, descreve a cigana da etnia sinti Larissa Coutinho, de 30 anos.

Larissa Coutinho (crédito: acervo pessoal)

“Esconder quem somos causa sofrimento. Se houver uma pessoa preconceituosa, quero mais é distância dela”, enfatiza a advogada da etnia calon, Sara Macedo Kali, de 26 anos.   

As cicatrizes da violência, porém, ainda marcam as novas gerações. “Toda família cigana carrega pelo menos uma história de violência”, resume o jornalista calón de tradição circense, Roy Rogeres Fernandes Filho, de 34 anos. Seu pai foi assassinado enquanto trabalhava no circo. 

“Sempre existiu um receio de me assumir como cigano fora da comunidade. Abrir detalhes da minha vida e cultura aconteceu a passos lentos”, acrescenta.

Sara Macedo Kali (crédito: acervo pessoal)

Para Coutinho, assumir-se como jovem cigana é uma forma de combater a invisibilidade e estereótipos que marcam essa população tradicional. O primeiro é incentivado pela falta de dados oficiais sobre ciganos no país, pela exclusão do tema nas escolas e pela necessidade do próprio povo de se proteger. Já o segundo foi estimulado por representações equivocadas de ciganos no entretenimento —  geralmente, contadas por não-ciganos — e religiões como a umbanda, que cultuam entidades associadas a esse povo. 

“Tudo isso tudo cria uma confusão: acham que cigano é fantasia ou religião. Por isso, a necessidade de falarmos por nós mesmos, não de termos nossas histórias contadas por não-ciganos”, explica Kali.

Danillo Calon (crédito: acervo pessoal)

Cigano “de verdade”

Em relação a estereótipos, Coutinho explica que o reconhecimento de “ser cigano” ficou restrito à personagem Esmeralda, do desenho “O Corcunda de Notre-Dame”. 

“Ou seja, se você não estiver de saia longa, cabelo cumprido e lendo a mão, não é tida como uma cigana ‘de verdade’. Assim, sempre brinco com não-ciganos: ‘entendo a decepção de vocês, eu uso jeans e cabelo curto’”, diz Coutinho.

“Basicamente, não-ciganos tentam em legislar o que é ser cigano ou não, como se nossas tradições não fossem preservadas por morarmos em casas e estudarmos.  Vejo isso como uma tentativa de nos descredibilizarem quando buscamos direitos e ocupamos espaços fora das nossas comunidades”, opina Kali. 

Para a produtora cultural da etnia Rom, Carolina Guimarães,  de 25 anos, outro problema é o desconhecimento sobre a diversidade do povo cigano. 

“Sinti, Rom e Calon possuem trajetórias e imigrações para o Brasil em momentos distintos. Além disso, os costumes culturais variam de acordo com cada família, clã e regiões do país”, ensina. 

Há também diversidade de fenótipos. “Há de ruivos a negros retintos. Os sinti, por exemplo, incentivam a adoção de crianças por entenderem que elas são sagradas”, contextualiza Coutinho.  

“Sou filha de pai cigano e mãe preta. Fui socializada como preta e vivi opressões por isso. Somente me descobrem cigana quando me autodeclaro, o que gera estranheza”, destaca Guimarães. 

Os jovens ainda sofrem com a antiga associação de ciganos a roubos e crimes. “Em uma formação de tatuador, não me deixavam sozinho com os materiais”, lembra o artista plástico e tatuador, Danillo Calon, de 30 anos.

“Meu pai evitava ir à minha escola para que eu não sofresse preconceito. Realmente, das poucas vezes que foi, o tratamento comigo mudou”, relembra Coutinho. 

Roy Rogeres Fernandes Filho (crédito: Barbara Jardim/Divulgação)

Ocupando a universidade

Outra mudança geracional foi a maior oportunidade de estudos. Kali e Guimarães cursaram faculdade, o que é motivo de orgulho para a família.

“O trabalho cuidando da comunidade também é lindo e, mesmo gostando do nosso estilo de vida, ter estudado e conhecido outras coisas do mundo foi gratificante”, afirma Kali. 

“Não aconteceu com a minha família pelo acúmulo de outros fatores sociais, além do fato de serem ciganos. Hoje posso exercer minha cidadania de forma diferente que meu pai e tias”, complementa Guimarães. 

Filho também viveu mudanças em comparação às gerações anteriores da sua família. Ele e mãe deixaram o nomadismo para trabalhar em um circo da família e ele cursou jornalismo e artes cênicas via Programa Universidade para Todos (Prouni). Hoje, é mestrando da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

“É possível ocupar a universidade sem deixar de lado as tradições e levar o conhecimento adquirido às nossas comunidades”, defende ele, que luta por mais ações afirmativas de acesso à universidade para ciganos. 

Sair da proteção da comunidade para estudar e trabalhar, porém, nem sempre é fácil para o jovem cigano. 

“Estamos sempre juntos e a sociedade não-cigana é individualista. Converso diariamente com a família para diminuir a solidão”, destaca Kali.

União e acolhimento

Jovens ciganos também se mostram mais abertos a discutir a presença LGBTQIA+ em suas comunidades e temas como igualdade de gênero e direitos reprodutivos. 

 “A diversidade não foi problema na minha família, que teve como liderança uma tia-avó que possuía uma companheira. Porém, já ouvi até ‘não existe cigano gay’ em grupos mais tradicionalistas”, relata Coutinho, que é bissexual. 

“Os mais velhos costumam entender essas questões como de foro privado ou como não-prioridades”, analisa Guimarães. 

Carolina Guimarães (crédito: acervo pessoal)

No campo do gênero, direitos contraceptivos são um tema difícil por questões históricas, como relata Coutinho. “Os sinti foram dizimados por nazistas na Segunda Guerra Mundial e ter filhos é visto como resistência”.

 “Eu defendo o direito ao aborto e à maternidade na mesma intensidade, pois é comum tentarem retirar a guarda de crianças ciganas por não entenderem o nomadismo ou acharem que a mãe ler mão acompanhada dos filhos é mendicância”, acrescenta.

Para eles, a criação de coletivos de jovens ajuda a dar acolhimento à diversidade e evitar adoecimento mental. Além disso, permitem criar narrativas contadas por eles próprios e promover ativismo anti-racista e decolonial. 

Kali, Calon e Filho são do coletivo Ciganagens; Guimarães e Coutinho compõem o Juventude Cigana Presente.

Os grupos foram criados via redes sociais e permitiram que jovens de distâncias geográficas, etnias e clãs diferentes pudessem se conectar e se organizar politicamente. 

“Eu me via sozinha e sem poder discutir determinadas questões com as lideranças históricas. Ao conversar com jovens ciganos de outas etnias, clãs e regiões, percebi termos muito em comum”, comemora Coutinho.

“Temos hoje uma percepção mais ampla do que nossos pais e avós por não estarmos fechados somente à família e comunidade, mas interagindo com outros jovens”, opina Calon. 

Para Coutinho, as redes sociais promoveram união. “Há dez anos, um encontro de ciganos teria briga entre grupos diferentes. Ainda que diferenças existam, a gente se entende e se gosta”, finaliza ela. 

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