Historicamente, o Brasil optou por um modelo de locomoção baseado em rodovias. Dados do Banco Mundial de 2013 mostram que cerca de 58% do transporte realizado no país é feito dessa forma, contra 8% de nações como o Canadá. Para dar conta da manutenção de tantos caminhões, carros, motos e bicicletas, a produção nacional de pneus é alta. E o descarte incorreto desses materiais pode causar danos ambientais graves.

Segundo o Relatório de Pneumáticos 2020, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o país produziu mais de 73 milhões de pneus em 2019, o equivalente a mais de 1 milhão de toneladas de material. Porém, apenas a metade, cerca 585 mil toneladas, de peças usadas foram recolhidas e tiveram destino ambientalmente correto. O restante, provavelmente, terminou seus dias queimado, abandonado em vias e terrenos ou encaminhado a aterros sanitários.

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“A queima dos pneus libera substâncias tóxicas como monóxido de carbono; óxidos de enxofre e de nitrogênio; metais pesados como chumbo e cádmio; e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAH)”, lista a engenheira ambiental e coordenadora do curso na Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) Leila Maria Sotocorno e Silva.

“Assim, esse material pode contaminar a atmosfera e também solo e água, por meio das cinzas geradas. Sem contar os impactos na saúde da população exposta à queima”, avalia. Quando estão expostos a intempéries, os pneus liberam gases e líquidos nos ecossistemas. E ao acumular água em seu interior, podem se tornar viveiros de mosquitos causadores de doenças como dengue, malária e febre amarela. “Em aterros sanitários, diminuem a vida útil dos mesmos”, enfatiza Silva.

Política reversa

De acordo com o Conselho Nacional do Meio Ambiente, para cada pneu novo comercializado, empresas fabricantes e importadoras devem destinar adequadamente um pneu usado e com dano irreparável (chamado ‘inservível’). Isso é realizado por meio da implantação de pontos de coleta em municípios com população igual ou superior a 100 mil habitantes. Tais peças são recicladas e processadas, de modo que seus materiais possam originar outros objetos.

“No Brasil, os principais destinos dos pneus são o co-processamento em fornos de cimento e na usina de xisto betuminoso. Tornam-se asfalto para pavimentação de vias e artefatos de borracha como solados de sapatos, borrachas de vedação, dutos pluviais, pisos de quadras poliesportivas, tapetes para automóveis, entre outros”, esclarece Silva.

Mão na massa

Outra possibilidade é aproveitá-los na produção de artesanatos e peças decorativas. Há um ano e meio, o artesão Luiz Carlos da Natividade Pereira decidiu estudar na internet formas de transformar os pneus que encontrava em terrenos e borracharias em peças como poltronas, cadeiras, balanço, pula-pula, vasos, comedouros e camas para animais de estimação e esculturas de jacaré, papagaio e pavão. “Para isso, o primeiro passo é lavar o pneu com água e sabão, escovando com afinco para retirar toda a sujeira. Depois, deixe-o secar ao sol”, ensina.

Luiz Carlos da Natividade Pereira reaproveita pneus e transforma em novos objetos (crédito: acervo pessoal)

Os cortes da peça são realizados com estilete, faca, lixadeira e serras do tipo tico-tico. “Uso um pouco de detergente para o instrumento deslizar melhor, contudo, todo corte em pneu requer cuidado para evitar acidentes. É uma peça traiçoeira e eu me machuquei algumas vezes ao manuseá-la”, alerta.

pneus reutilizados
Objetos feitos por Luiz Carlos da Natividade Pereira a partir de pneus velhos (crédito: acervo pessoal)

As junções da borracha são realizadas com prego e parafuso. A pintura é feita com tintas à base de óleo ou água. “Costumo usar pneu de caminhão para fazer pula-pula, de motos e carros para balanços e de bicicleta – que são flexíveis – para elaborar pescoços e patas de animais decorativos”, revela. “Atualmente, também me dedico a pesquisar formas de utilizar sua borracha para produzir chinelos e sandálias artesanais”, adianta.

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