Em 2014, Johnatha de Oliveira Lima, de 19 anos, foi assassinado com um tiro nas costas por um policial militar da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da favela de Manguinhos ao retornar da casa da namorada. No dia de sua morte já se iniciou a luta da mãe, Ana Paula Oliveira, por justiça. “Para a polícia, não basta apenas matar o corpo: ela tenta criminalizar e desumanizar a vítima. Com meu filho não foi diferente. Ele foi chamado de traficante. Precisei tirar forças para registrar o homicídio na delegacia e denunciar os policiais”, relembra.

Na missa de sétimo dia do jovem, ela foi apresentada a Fátima Pinho, que também havia perdido seu filho, Paulo Roberto, após ser espancado por policiais da UPP. “Fátima carregava a mesma dor, entendia o que eu dizia e igualmente queria justiça”, conta Oliveira. Juntas, elas fundaram o Movimento de Mães de Manguinhos para apoiar outras mulheres da comunidade na mesma situação.

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“Acolhemos essas mães, vamos à porta do Ministério Público (MP), comparecemos nas audiências de seus filhos, fazemos encaminhamentos à ouvidoria da polícia e psicólogos e distribuímos cestas básicas – pois muitos desses jovens sustentavam a família. Ainda oferecemos formação política, para elas entenderem porque essa violência nos atinge”, conta Ana Paula Oliveira.

30 anos sem respostas

A união de mães após o assassinato dos filhos pelas forças policias não é recente. Em 1990, foi formado o grupo “Mães de Acari” (RN), após a morte de 11 jovens e menores de idade, em um caso encerrado sem indiciados. Em 2003, quatro jovens foram mortos no Morro do Borel (RJ), chacina que rendeu uma condenação. Já em maio de 2006, pelo menos 505 civis foram mortos com participação policial ou indícios da mesma, em São Paulo. Os atos seriam uma resposta aos ataques da facção Primeiro Comando da Capital (PCC). Entre eles, estava o gari Edson Rogério Silva dos Santos, de 29 anos, morto ao sair da casa da mãe, Débora Maria da Silva, que viria a fundar o Mães de Maio.

mães de maio
Manifestação das Mães de Maio (crédito: divulgação)

“Palestro em cursos de direito, assistência social e psicologia e pergunto ao estudantes: ‘vocês estão preparados para lidar com o sofrimento dessas mães negras, que são milhares por ano?”, questiona. Débora também se tornou pesquisadora do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF/Unifesp). Um estudo do CAAF trouxe indícios que os ataques de maio de 2006 foram consequência da violência de Estado e que faltaram investigações.

Para completar, ela ajudou a formar a Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado – que se reúne anualmente — e a construir a Rede Global de Mães de Resistência. “É necessário se aquilombar para resistir. Porém, o crescimento desses grupos no Brasil é triste. Significa que o Estado continua fazendo vítimas”, pondera Silva.

Criminalização da pobreza

Para essas mães, o genocídio de jovens negros nas favelas e periferias é fruto da criminalização da pobreza e do racismo estrutural. “Justificar a morte de trabalhadores pobres pela ‘guerra às drogas’ é mentira. Caso contrário, a polícia iria às fronteiras, condomínios fechados, investigaria jatinhos que transportam essas substâncias”, acredita Ana Paula Oliveira. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020 apontou 6.416 vítimas da polícia, sendo 79% negras. O aumento foi de 190% em relação aos dados de 2013.

“Não somos reformistas, mas abolicionistas. Esse modelo de insegurança e que não garante o estado democrático de direito nas favelas não deu certo. Somos o alvo a ser abatido por conta do lugar onde fomos colocados para morar e pela cor da nossa pele”, diz Débora Maria da Silva. “É naturalizado, por exemplo, a polícia militar treinar em locais e situações que simulam favelas”, questiona.

“Nesse projeto de matar e encarcerar pessoas pretas, temos uma justiça que não foi feita para nós. A responsabilidade não está apenas em quem aperta o gatilho, mas no Ministério Público que não investiga e no judiciário que absolve”, completa.

Rute Fiuza é mãe de Davi, de 16 anos, que desapareceu, em 2014, após abordagem policial em Salvador (BA). Ela conta que não espera que os responsáveis sejam punidos. “O desfecho provável é que os assassinos serão julgados por seus pares na vara militar, o caso retorne ao MP e haja absolvição. Ainda assim, luto pelo meu filho e pelos outros jovens que continuam sendo mortos. É preciso dizer ‘basta’”.

“Meu adoecimento é a impunidade”

A deterioração da saúde física e psíquica das mães após a morte dos filhos é outro problema enfrentado nos coletivos. “As mães desenvolvem depressão, pânico, dores crônicas, entre outros. Eu mesma nunca mais dormi à noite”, relata a fundadora do Mães de Curió e do Mães da Periferia de Vítimas por Violência Policial do Estado do Ceará, Edna Carla Souza Cavalcante.

Seu filho Alef, de 17 anos, foi uma das onze vítimas de ataques de policiais nas adjacências do bairro de Curió, Fortaleza, em 2015. “O estado não oferece suporte de saúde e atendimento psicológico. Deixa nossa cova aberta para nos entupirmos de remédio controlado e morrermos com o descaso. Minha doença, porém, é a impunidade”, desabafa.

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