Aos 20 anos, Lorena Eltz é uma influencer e produtora de conteúdo para redes sociais bastante comunicativa e criativa. O diferencial da jovem de Gravataí (RS), porém, é não ter medo de se assumir lésbica e pessoa ostomizada. O termo faz referência à colostomia, cirurgia que cria uma comunicação entre o intestino grosso e o abdômen. O orifício recebe uma bolsa destinada a coletar as fezes.

Tal procedimento pode ser recomendado para pessoas com doenças inflamatórias intestinais ou no caso de acidentes que atinjam o órgão. Ele pode ser usado de forma temporária ou permanente. Eltz teve parte do intestino retirada para conter uma inflamação provocada pela Doença de Chron – enfermidade autoimune que pode acometer diferentes partes do aparelho gastro-intestinal.

“Na época, havia a possibilidade da bolsa ser retirada, então, eu sonhava com a reversão. Com o tempo, entendi que não poderia mais viver sem ela e precisava aceitar isso”, revela. A jovem se sentiu sozinha ao procurar pelo assunto online e não encontrar outras pessoas como ela. Foi quando passou a publicar vídeos informativos e divertidos sobre sua bolsa de colostomia no Instagram. “Percebi que tudo que eu busquei lá no passado e não encontrei poderia ser feito por mim”, resume ela, que hoje conta com mais de 390 mil seguidores.

Lorena Eltz começou a produzir o conteúdo que não encontrava online (crédito: divulgação)

Nas redes, ela tira dúvidas sobre como funciona a bolsa, sua higienização e mitos relacionados ao acessório. Também explica que quem passa pelo procedimento de forma permanente se enquadra na categoria de pessoa com deficiência (PCD). “Ao final, a bolsa se tornou minha amiga”, comemora.

Como foi a experiência de viver com a Doença de Chron na infância e adolescência?

Lorena Eltz: Muito diferente. Houve momentos em que acredito que não tive uma infância muito livre. Enfrentei sintomas intestinais desde bebê, correndo entre hospitais. Vivia em um quarto de hospital ou na minha cama, sem conseguir ter muita força ou vontade de fazer as coisas. Era na escola onde me distraía.

Em que contexto você passou pela colostomia?

Eltz: Era 2012 e estava com 12 anos. Enfrentava uma crise, com o intestino inflamado e usando muitos medicamentos. Passei praticamente o ano no hospital até que, em dezembro, os médicos decidiram pela cirurgia para retirar a inflamação do meu corpo e colocar a bolsa de colostomia.

Quais foram os maiores desafios desse processo?

Eltz: Como adolescente, queria outro corpo. Tinha medo e vergonha de falar disso na escola, para amigos e até familiares. Criei barreiras e deixei de fazer coisas que desejava. Na época, havia a possibilidade da bolsa ser retirada, então, eu sonhava com a reversão. Com o tempo, porém, entendi que não poderia mais viver sem ela e precisava aceitar isso. Foi quando comecei a procurar representatividade e pessoas falando sobre o assunto. Como não encontrei, sentia-me sozinha em um pesadelo.

Como você enxerga a visibilidade da pessoa ostomizada?

Eltz: Como transformação de vida. A maioria das pessoas não entende o valor que a gente atribui à cirurgia e à nossa bolsa. É um sentimento de que a vida nunca mais será a mesma. Mas é difícil falar de algo tão profundo quando a maioria da população nem sabe que isso existe. A visibilidade muda esse cenário, ajudando tanto individualmente quanto a sociedade como um todo.

Lorena Eltz compartilha sua rotina nas redes sociais (crédito: divulgação)

Quais os principais preconceitos que a pessoa ostomizada ainda enfrenta?

Eltz: Começa quando se tem uma doença intestinal. Muitos fazem piada, acham que somos fracos ou estamos inventando algo para não estudar e trabalhar. Só entende mesmo quem passa por isso ou acompanha de muito perto. Com relação à colostomia, percebi um tabu por se tratar de uma bolsa para fezes. Ninguém quer falar sobre como se faz cocô. Há piadas sobre isso também e acabamos nos escondendo. Para completar, há os que acham a ostomia algo horrível, sujo e que escolhemos essa situação. São estranhamentos.

Como se deu o uso das redes sociais para falar sobre o tema?

Eltz: Eu decidi fazer um post como um sinal de liberdade para mim mesma, na verdade. Quando postei as primeiras fotos, o que eu queria era ver a reação das pessoas, saber até onde achavam aquilo ruim, nojento ou bonito. Tive medo de perder amigos ou das pessoas criarem algum receio na hora de falar comigo. A reação foi oposta, muitos se identificaram, no sentido de se libertar de algo que gerava medo. Percebi que não existia conteúdo sobre o assunto e que tudo que eu busquei lá no passado e não encontrei poderia ser feito por mim.

Quais são os feedbacks que você recebe no Instagram?

Eltz: Recebo mensagens de pessoas que tem alguma doença ou que precisam usar a bolsa por algum motivo. São histórias de vida, de desafios e superação individuais. A maioria cita a felicidade de finalmente ver alguém tratando de assuntos que, por serem mais complicados e desconhecidos, ninguém falava. Isso me ajuda a perceber que estou chegando em pessoas como eu, mas que hoje podem encontrar um cenário diferente do que eu encontrei lá no passado.

O que mudou em você quando começou a dialogar sobre a ostomização com um publico tão grande?

Eltz: Comecei a estudar mais e entender sobre mim. Antes eu não me olhava, não colocava roupas curtas, e muito menos falaria disso em uma roda de conversa. Hoje falo com todo mundo sobre a bolsa, todos já sabem sobre meu dia a dia e me sinto livre pra usar ela como eu quiser. Foi uma descoberta de uma parte minha que eu encarava como um desafio e que hoje vejo como uma amiga. A minha bolsa hoje me traz felicidade. Ela me faz perceber o quanto preciso continuar com os conteúdos até que todas as pessoas ostomizadas também possam sentir essa leveza vivendo com sua deficiência ou doença.

O que é fundamental a sociedade saber sobre a pessoa ostomizada?

Eltz: Entender que, apesar de parecer algo muito diferente, não é tanto assim. Além disso, qualquer pessoa pode acabar precisando da bolsa em algum momento da vida. Por vários motivos. Até um acidente inesperado pode trazer a situação e a necessidade de lidar com isso. E compreender que é algo que ajuda muitos a continuarem vivos, uma nova oportunidade na vida.

Quais seus sonhos para o futuro?

Eltz: Continuar me sentindo livre do jeito que estou agora e ouvir mais relatos de pessoas que conseguiram sentir o mesmo. Quero visualizar um lugar onde a saúde e a ciência sejam mais valorizadas e que a gente possa dar mais importância para o nosso corpo.

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