Rita Louzeiro tem 35 anos é pedagoga e irmã de um autista de grau severo. Apesar de também se sentir diferente dos colegas da escola e da faculdade, foi no mercado de trabalho que sua dificuldade de interação social ficou perceptível.

“Trabalhava em uma sala com 60 pessoas e minha forma de agir irritava colegas, chefia, era alvo de piadas ou observações não amigáveis”, conta.

Um exemplo era a repetição. “Eu não percebia que chegava diariamente no mesmo horário, colocava a bolsa exatamente no mesmo lugar, trazia a mesma bebida e bebia da mesma forma. Isso irritou uma colega, que certo dia comentou”, relembra.

Além de seus rituais, a pedagoga ainda apresentava hiperfoco – capacidade de manter a atenção constante em uma mesma tarefa ou interesse. “Enfrentava problemas em entender sarcasmo, manter laços sociais e sempre me expressei de forma direta, que podia soar ofensiva”, descreve.

Rita Louzeiro foi diagnosticada com autismo já adulta (crédito: arquivo pessoal)

O diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA), contudo, demoraria anos.

“O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento que traz prejuízos em habilidades comunicacionais e sociais”, resume a doutora em psiquiatria e colaboradora do ambulatório de autismo da Universidade Federal Paulista (Unifesp), Sabrina Helena Bandini Ribeiro.

O autista é entendido como uma pessoa com deficiência (PCD). “Falamos em espectro porque o transtorno abrange dos casos mais leves, que passam despercebidos, aos severos”, pontua.

Segundo a especialista, a pessoa autista possui pouca capacidade social de entender a linguagem não verbal e comportamento. “Aquilo que não é dito, que está nas entrelinhas e que ajuda a compreender o entorno”, descreve.

Pode ainda haver deficiências sensoriais, como sensibilidade ao barulho ou dificuldade em entender se está com fome ou frio, e introspecção.

Pressão social

 Assim como aconteceu com Louzeiro, o diagnóstico do TEA em adultos – principalmente mulheres – é algo comum. O transtorno é geralmente associado a crianças e aos meninos. “Antigamente, acreditava-se que, para quatro homens, havia uma mulher autista. Tanto que o símbolo da luta é o laço azul”, explica a especialista.

“Hoje, percebemos que casos mais graves são identificados precocemente e que mulheres parecem ter mais habilidades de criar estratégias sociais. Geralmente, passam despercebidas ou recebem diagnóstico errado de outro transtorno mental”, alerta.

Como socialmente as mulheres tendem a ser classificadas como “mais introspectivas”, tais estereótipos e exigências sociais podem camuflar sintomas do TEA.

“Uma menina quieta não chama a mesma atenção que um menino quieto. Os hiperfocos são mais ‘aceitáveis’ do que os de meninos também”, opina a consultora em marketing digital e com diagnóstico de TEA tardio, Débora Brandão, de 33 anos.

Questões econômicas e raciais também atrapalham “Quanto menor acesso ao serviço de saúde, mais tarde o diagnóstico”, decreta Ribeiro.

Mesmo entre crianças, o diagnóstico hoje está longe do ideal. Este é feito por psiquiatra ou neurologista.

“Em São Paulo, que é um grande centro, os pais demoram aproximadamente dois anos para notarem que há algo diferente com seu filho e, cinco, para um médico avaliar corretamente”, informa a especialista.

A complexidade do problema faz com que faltem dados sobre o diagnóstico do TEA em adultos e o quanto questões de gênero influenciam nessa avalição.

Estratégia de adaptação 

Adultos dentro do TEA costumam exercer uma atividade com perfeição, serem detalhistas, perfeccionistas, considerados excêntricos e até ingênuos.

Em julho de 2020, a artista especializada em colorir fotos históricas, Marina Amaral, compartilhou em seu Twitter o diagnóstico recente de autismo.

“Explica meu hiperfoco, provavelmente a maior razão pela qual desenvolvi a minha técnica de colorização e ouvi muitas vezes que ‘tenho um olho diferente para o detalhe’”, compartilhou.

De acordo com Ribeiro, o adulto procura um especialista quando se identifica com algum sintoma clássico do autismo ou quando enfrenta problemas de comportamento no trabalho e casamento.

“Geralmente, esse adulto consegue desenvolver atividades e estratégias para dar conta dos problemas diários, algo que provoca ansiedade, desgaste emocional e pode levar à ansiedade e depressão”, adverte.

Louzeiro, por exemplo, desenvolveu síndrome de burnout (exaustão extrema). “Mesmo com barreiras comunicacionais, era colocada no trabalho em atividades como atender o público”, relata ela.

Ainda segundo a médica, outra situação que facilita o diagnóstico é quando os pais levam o filho com TEA para consulta, e o próprio profissional identifica sintomas em um dos responsáveis. “O autismo possui um componente genético”, justifica.

Este foi o caso de Brandão. “Após o diagnóstico do meu filho, percebendo similaridades e acompanhando depoimentos de outros adultos, notei que várias coisas explicavam minha vida. Usava máscaras e estratégias de adaptação”, analisa ela, que possui sensibilidade sensorial, comportamento e pensamentos repetitivos.

Para Débora Brandão, exigência social de meninas serem mais quietas que meninos, por exemplo, atrapalha o diagnóstico (crédito: arquivo pessoal)

Neurodiversidade

O diagnóstico, mesmo que tardio, traz alívio e permite criar estratégias de comportamento no dia a dia.

“Um paciente foi criticado pelo chefe porque somente cumprimenta as pessoas que conhecia no trabalho, gerando mal estar. Para ele, não fazia sentido dizer ‘bom dia’ para um desconhecido”, exemplifica Ribeiro.

“Quando a regra se torna clara, fica mais fácil para o autista praticá-la.”

O autismo em adultos também ajuda a discutir a neurodiversidade, ou seja, que as pessoas também são diferentes em termos de atividade mental e neurológica, sem que isso seja algo ruim.

“Todo ser humano possui alguma limitação. A deficiência é o encontro do ser humano com essa barreira. Ao entender isso, paramos de querer que o autista se comporte com uma pessoa típica e focamos em criar um ambiente onde ele possa se desenvolver a partir das suas características”, resume Louzeiro.

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