Leonardo Valle

“Por que existem moradores de rua?”. Foi com essa pergunta da filha Alice, de cinco anos, que a doutora em ciências sociais, Tatiana Amêndola, se viu com um grande desafio: como explicar um tema social complexo para uma criança?

“Poderia ter dado uma resposta curta e dizer que ‘era porque não trabalhavam’. A resposta fácil, contudo, nem sempre é verdadeira e tampa o problema com uma peneira. Afinal, tem pessoas que moram na rua e que trabalham, assim como pessoas que não trabalham e vivem em casas. Optei por dar uma resposta longa e mais real”, relembra.

A experiência fez com que Amêndola criasse o podcast “Sociologia para Crianças”, inspirado em outras perguntas de Alice e com participação da filha. Na primeira temporada, a dupla fala sobre temas como feminismo, religião, racismo, democracia, capitalismo e desigualdade. A iniciativa é voltada para toda a família.

Mas, afinal, é possível explicar temas sociais para os pequenos? Para a psicóloga e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Anita Lopes, isso não somente é algo viável, mas necessário.

“A criança se relaciona com grupos e vive em sociedade também. Ela observa a realidade e tem contato com questões sociais complexas a todo o momento, seja pela família, mídia ou escola”, justifica Lopes.

“Em um Brasil com tamanha efervescência política que vivemos hoje, chegam até ela termos como democracia, socialismo, entre outros. E o primeiro aprendizado será em casa”, contextualiza.

“Vivemos em uma sociedade que não respeita diferenças, que é injusta para muita gente, preconceituosa e longe do ideal. A criança deve entender, porque também vai se deparar com isso e pode ajudar a construir um mundo melhor, por mais utópico que isso pareça”, defende Amêndola.

Tatiana Amêndola Sanches e a filha Alice

Universo infantil

De acordo com Lopes, explicar conceitos complexos exige que o adulto entre no universo da criança, e não o contrário.

“Para os pequenos, o mais importante é a brincadeira. Assim, é preciso usar um universo simbólico, que eles consigam acessar. Jogos, filmes e histórias infantis são alternativas”, destaca.

Os filmes infantis foram a aposta de Amêndola para a segunda temporada do podcast. Por meio de “Frozen 2”, a socióloga debate sobre a sororidade [termo que significa apoio ou união entre as mulheres]. Já “Mônica: Laços” ajudou a tratar a indústria da beleza.

Além da parte lúdica, também é possível relacionar os conceitos aprendidos com questões que aparecem no dia a dia.

“Não é somente explicar, mas relacionar o tema com o cotidiano. Retomar, lembrar e chamar a atenção para o que aconteceu. Como a criança esquece rápido, a repetição ajuda a promover a cultura do conhecimento”, sugere.

“Um exemplo foi o machismo. Como as diferenças de gênero apareceram diversas vezes no nosso dia a dia depois de conversarmos, a Alice entendeu o tema e hoje consegue explicar para o outro. Em compensação, ensinar o que é sociologia – que é o meu trabalho – foi mais difícil e abstrato”, relembra.

Sensibilização dos adultos

Educar as crianças, contudo, exige uma sensibilização social por parte dos pais e responsáveis. “Percebo que muitas vezes o adulto prefere dar uma resposta curta porque ele mesmo não refletiu sobre aquilo e a resposta completa será mais difícil e dolorosa”, analisa a socióloga.

A psicanalista Anita Lopes, recomenda aos pais sempre serem os mais honestos possíveis ao explicar um problema social. “Mas a verdade para uma família pode não ser a da outra. Um pai, por exemplo, pode achar que quem mora na rua é vagabundo”, exemplifica.

“Assim, é importante que o adulto não perca de vista que se deve educar sempre pelo, amor, respeito, consideração e empatia”, alerta.

Sobre os temas, Amêndola diz que explica somente aquilo que a filha traz de questões. “Por exemplo, a criança pode não perguntar o que é “democracia exatamente”. Mas ao questionar por que a mãe não gosta de um determinado político ou por que vota, essa é uma oportunidade de introduzir o tema”, indica.

“Em uma casa onde não se fala sobre democracia, pode ser que a palavra não apareça de forma natural. Ainda assim, pode ser legal abordar o assunto como uma curiosidade e inserir esse vocabulário. O podcast também foi pensado para ajudar nesse sentido”, informa.

Antes de introduzir um conceito ou assunto, a socióloga recomenda primeiro perguntar a criança o que ela entende sobre para somente depois explicar e complementar. “É importante os pais estarem abertos aos comentários dos filhos, porque eles próprios podem aprender com as crianças”, recomenda Lopes.

Amêndola passou por uma situação desse tipo. “Eu tinha uma visão preconceituosa e mais feministas das princesas, e a Alice me mostrou que nem todas são fúteis, bobas e esperam o príncipe chegar para salvá-las. As irmãs Elsa e Anna, do Frozen, por exemplo, são felizes independentemente do príncipe. Ela ajudou a rever minha opinião”, garante.

Veja mais:

Livro “Escrever a paz” ajuda a conscientizar crianças e jovens sobre a interdependência das culturas
Cartilha adapta, para público infantil, documento da ONU sobre direitos da criança e meio ambiente
Gibi da Turma da Mônica ensina economia pública para crianças

Atualizada em: 6/3/2020

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