Espécies de plantas anteriormente nomeadas por povos originários foram rebatizadas pelos colonizadores europeus com termos considerados misóginos, racistas, antissemitas e preconceituosos.

Após ter recebido de presente uma muda de Tradescantia zebrina, corriqueiramente chamada de ‘judeu errante’ –, a artista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) Giselle Beiguelman mapeou centenas de espécies de plantas submetidas a nomeações pejorativas, tanto em seus nomes científicos como nos populares.

A pesquisa resultou no projeto e na exposição “Botannica Tirannica”, na qual a artista criou um jardim decolonial para refletir sobre a relação entre cultura e natureza, preconceito e representação.

“Esses nomes introjetam o preconceito e o racismo, que são absorvidos no imaginário coletivo como uma dimensão da natureza. A naturalização do preconceito e do racismo é sua consequência mais funesta”, destaca a docente.

De que forma o pensamento colonial também atingiu a botânica?

Giselle Beiguelman: Ao longo do século XVIII, a botânica se institucionalizou como uma tecnologia de poder a serviço dos impérios coloniais. O colonialismo não apenas expropriou terras, mas também desvinculou as plantas de sua relação com o ambiente e a sociedade a que pertenciam. Seu ambiente e seus usos medicinais e religiosos foram apagados por meio da introdução de novos nomes científicos atribuídos às plantas, transformando-as em ornamento e bem econômico.

Como o machismo se expressa por meio da botânica?

Beiguelman: Existem muitas plantas com nomes que adotam uma abordagem machista em relação às mulheres, como “Maria-sem-vergonha, Desavergonhada” (Impatiens walleriana), “Lábios de Prostituta” (Psychotria elata) e “peito de moça” (Solanum mammosum). E o que dizer de “Costela-de-adão” (Monstera deliciosa)? Ela faz referência à mítica bíblica sobre a criação, na qual a mulher, Eva, nasce de uma costela de Adão. O nome define a mulher como “apêndice” do homem.

No entanto, isso também ocorre na nomenclatura científica, onde há plantas com nomes científicos que fazem alusão às ninfas gregas – belas semideusas que nunca envelhecem e favorecem os homens e a natureza. Elas deram seus nomes ao gênero Nymphaeae, que encantou o pintor Monet, por exemplo.

Chamo ainda atenção para “Bunda-de-mulata” (Thunbergia alata), ou flores geralmente brancas, que são nomeadas como “virginiana”, “virginica” ou “virginicum”, fazendo referência direta à virgindade feminina e à sua associação com pureza e delicadeza.

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                   Crédito: exposição Botannica Tirannica – Museu Judaico de São Paulo

Quais são os principais exemplos de nomes populares ou científicos de plantas que são racistas?

Beiguelman: Os nomes de plantas que contêm “kaffir” ou “cafrum” são ofensivos. Termo derivado do árabe para “não crente”, “cafir” se tornou entre os colonizadores europeus um sinônimo genérico para negro. Então “cafre”, que é rude em português, virou sinônimo de escravo. Por essas razões, hoje, “cafir” é considerado, nos países da África subsaariana, um equivalente à palavra repudiada “nigger” (em países de língua inglesa), hoje referida como a “palavra com n” devido à violência racial que ela contém.

Outros nomes depreciativos contêm a palavra “hottentot”. Foi assim que os holandeses generalizaram todos os povos não bantos da África do Sul. A palavra era sinônimo de canibal, selvagem, e também aludia a alguns estereótipos físicos, como lábios e nádegas proeminentes, como é evidente na iconografia degradante associada a “Vênus Hottentot”, uma princesa que foi levada à Europa, onde foi humilhada em exposições supostamente científicas para o entretenimento das elites brancas.

E como o antissemitismo se expressa por meio dos nomes de plantas?

Beiguelman: Ele se concentra em características físicas, como orelhas estereotipicamente grandes, e características culturais, como as barbas dos ortodoxos. Também remete a mitos antigos, como o que se refere ao povo que teria crucificado Jesus, o qual aparece na referência à coroa de espinhos usada por Jesus Cristo, presente em várias plantas. Assim, alguns exemplos incluem Auricula judae (orelha de judeu, orelha de Judas, em vários idiomas), Judenbart – barba de judeu, uma espécie de begônia que produz pequenas flores brancas – e a coroa-de-cristo comum (Euphorbia milii), que no Brasil também possui uma versão misógina, conhecida como colchão-de-noiva. Além disso, nenhuma é tão popular como judeu errante, que existe como esse nome em várias línguas, como inglês, italiano, francês e espanhol. Esse é um mito medieval, que faz referência a um povo condenado a vagar sem descanso pelo mundo, que foi instrumentalizado pelo nazismo, atualizado como figuração de um povo parasita.

Quais os impactos sociais e culturais desses nomes?

Beiguelman: Esses nomes introjetam o preconceito e o racismo, que são absorvidos no imaginário coletivo como uma dimensão da natureza. A naturalização do preconceito e do racismo é sua consequência mais funesta. É importante revê-los porque não podemos “naturalizar” o racismo e o preconceito.

Há atualmente esforços para rever as alcunhas dessas espécies?

Beiguelman: No plano científico, há várias discussões sobre a necessidade de revê-los, e algumas plantas populares, com nomes antissemitas e racistas, são hoje proibidas na Suécia e na Austrália.

Como surgiu a sua pesquisa Botannica Tirannica?

Beiguelman: O processo de pesquisa começou acidentalmente, quando ganhei uma planta que adoro, mas não conhecia o nome, e me disseram que era uma “judeu errante”. Naquele momento, fiquei arrepiada. Esse nome é um gatilho traumático para qualquer judeu devido ao poder antissemita que ele possui. Lembro-me de ter chegado em casa e pesquisado sobre o assunto na internet. Eu não podia acreditar que fosse verdade que uma planta pudesse ter esse nome. Desconcertada, comecei a pesquisar as relações entre taxonomia botânica e preconceito e percebi que, infelizmente, dizia respeito a um âmbito muito maior do preconceito, do racismo e do colonialismo e sua intolerância com a diversidade e a diferença.

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