Expressões gordofóbicas são aquelas que transformam o corpo gordo em sinônimo de fracasso, doença, desleixo, preguiça, feiura, falta de controle ou incapacidade, conforme explica a jornalista Jessica Balbino, autora do livro “Porca Gorda”.
“Muitas vezes elas aparecem disfarçadas de brincadeira, conselho, preocupação com a saúde ou até carinho”, descreve.
“O problema não está apenas na palavra ‘gordo’, porque gordo é uma característica corporal e não deveria ser um insulto. A gordofobia aparece quando usamos essa característica para diminuir alguém, produzir vergonha ou estabelecer uma hierarquia entre corpos: alguns considerados desejáveis, aceitáveis e dignos de respeito; outros tratados como corpos que precisam pedir desculpas por existirem”, destaca.
Psicóloga clínica e especialista em transtornos alimentares e de imagem, Gabriele Menezes da Costa explica que a gordofobia não surge apenas de comentários individuais.
“Ela é uma estrutura, está em diferentes espaços e relacionada a processos históricos, que realmente associam os corpos magros a valores como disciplina, autocontrole, sucesso, moralidade etc.”, afirma.
“Assim, palavras e expressões gordofóbicas devem ser retiradas do vocabulário porque ajudam a reforçar determinadas ideias, estereótipos e estigmas sobre os corpos no geral, principalmente se eles são dignos de respeito ou não”, acrescenta Costa.
“A linguagem não apenas descreve o mundo: ela também ajuda a construí-lo. Quando repetimos que uma pessoa gorda é preguiçosa, indisciplinada, doente ou pouco atraente, estamos reforçando um imaginário que depois aparece na escola, no trabalho, nos relacionamentos, no acesso a roupas, no mobiliário, no transporte e na forma como pessoas gordas são recebidas em serviços de saúde”, alerta Balbino.
“Não se trata de proibir palavras e frases, mas perceber que elas carregam uma estrutura inteira de preconceito. Mudar a linguagem não resolve a gordofobia sozinho, mas é uma das maneiras de deixarmos de naturalizá-la”, complementa.
Confira, a seguir, 15 palavras e expressões gordofóbicas para retirar do vocabulário.
Gordo (a), quando usado como ofensa: ser gordo é apenas uma característica descritiva como outras. “Eu quero poder dizer que sou uma mulher gorda da mesma maneira que descrevemos tantas outras características de um corpo. O que precisa desaparecer é a ideia de que essa palavra, sozinha, constitui uma ofensa. A solução não é transformar ‘gordo’ numa palavra proibida”, destaca Balbino.
Gordinha: o diminutivo frequentemente aparece porque as pessoas têm dificuldade de pronunciar “gorda”. “Dizem ‘gordinha’, ‘fofinha’, ‘cheinha’, como se ‘gorda’ fosse uma palavra ofensiva demais para ser dita. Eu sou uma mulher gorda. Não preciso de um diminutivo para tornar meu corpo mais palatável”, explica Balbino.
Bonita de rosto: traz a impossibilidade de uma pessoa gorda ser bonita por inteiro. “É um elogio condicionado, uma maneira de dizer que nossa beleza só pode existir da cintura para cima”, opina Balbino. “É uma forma de fragmentar a pessoa, estabelece essa hierarquia entre partes do corpo”, diz Costa.
É por isso que tá gorda: “Pressupõe que qualquer comportamento de uma pessoa gorda explica seu corpo. Se ela pede sobremesa, se descansa, se pega um elevador: é por isso que está gorda. Pessoas magras fazem exatamente as mesmas coisas sem terem seus corpos apresentados como consequência moral de cada gesto”, compara Balbino. “A frase revela algo importante sobre a gordofobia: o corpo gordo parece estar permanentemente em julgamento e obrigado a justificar sua própria existência”, acrescenta.
Gordice/Coisa de gordo: Normalmente, essas expressões associam gordura a comer demais, perder o controle, ser preguiçoso ou cometer algum excesso. “Você transforma características atribuídas a pessoas gordas em características negativas de comportamento. Então, é uma situação muito perigosa entre comida e moralidade”, explica Costa.
“Pessoas magras também repetem sobremesa, exageram, descansam, sentem fome e têm prazer na comida”, diz Balbino. “Quando chamamos determinado comportamento de ‘gordice’, transformamos um tipo corporal numa falha moral. Além disso, o corpo gordo vira uma espécie de fantasma usado para disciplinar todo mundo: ‘Não faça isso ou você ficará como eles’”, afirma Balbino.
Está acima do peso ideal: sugere que existe um único padrão corporal correto, tratando corpos fora desse padrão como inadequados ou inferiores. Isso pode reforçar o estigma contra pessoas gordas. “Eu questionaria primeiro: ideal para quem? A palavra ‘ideal’ parece objetiva, mas carrega uma norma”, aponta Balbino.
Pense na sua saúde: “Uma pessoa não pode ter seu estado de saúde integralmente diagnosticado pela aparência, e peso isoladamente não conta toda a história de um organismo”, afirma Balbino. “O problema da expressão é fazer parecer que existe um único corpo correto do qual todos os outros seriam desvios”, acrescenta. “Também precisamos separar duas conversas que foram artificialmente fundidas: saúde e dignidade. Mesmo que uma pessoa gorda esteja doente, isso não autoriza humilhação, discriminação ou vigilância sobre seu corpo. Direitos humanos não deveriam depender de um check-up”, reforça.
Gordo(a) é preguiçoso(a): tamanho corporal não é traço de personalidade. “Não existe qualquer possibilidade de olhar para um corpo e descobrir se aquela pessoa trabalha muito, pouco, pratica atividade física, cuida da casa, cria filhos ou passa o domingo inteiro no sofá. E, aliás, descansar também não deveria ser uma falha moral. Essa associação mostra como a gordofobia está ligada à ideia de produtividade”, diz Balbino.
Para o seu tamanho você se veste muito bem: pressupõe que pessoas gordas não se vestem bem ou não deveriam usar determinadas roupas por causa do corpo.
Isso é falta de disciplina/foco: Disciplina é uma característica relacionada a comportamentos; gordura é uma característica corporal. “Não existe uma relação moral automática entre as duas coisas. Uma pessoa pode ser extremamente disciplinada e ser gorda. Uma pessoa magra pode não ter disciplina alguma. O tamanho do corpo não fornece um currículo moral de quem o habita”, completa Balbino.
Você emagreceu, está linda: sugere que não há beleza no corpo gordo.
“Eu estou enorme” (dito por uma pessoa magra): usa a gordura como referência negativa para descrever o próprio corpo, reforçando a ideia de que ser gordo é algo indesejável.
Precisa se cuidar mais: “Geralmente essa frase não surge depois de conhecer exames, rotina, condições clínicas ou histórico daquela pessoa. Surge depois de olhar para o corpo dela. Nesse caso, ‘se cuidar’ muitas vezes é apenas uma forma socialmente aceitável de dizer ‘emagreça’”, contextualiza a jornalista. “Além disso, existe uma invasão de intimidade que naturalizamos ao se tratar de pessoas gordas. Estranhos, parentes e colegas sentem-se autorizados a comentar alimentação, peso, exercícios, cirurgias e medicamentos. O corpo gordo é tratado como se fosse um corpo público”, alerta.
Você tem muita autoestima para usar isso: sugere que o corpo gordo não tem legitimidade para usar determinadas peças de roupa.
Dia do lixo: vincula o ato de comer a caráter, como explica Costa. “Essa moralização da comida pode ser prejudicial para a relação das pessoas com a alimentação”, opina a psicóloga.
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Crédito da imagem: smartboy10 – Getty Images