A cultura das drag queens tem sido um instrumento de representatividade e inclusão de pessoas com deficiência, ajudando no combate a preconceitos dentro e fora da comunidade LGBTQIA+. Uma dessas representantes é a drag queen surda Kitana Dreams (@kitanadreams), personagem do maquiador Leonardo Braconnot.

“Talvez existam pessoas com deficiência que sonham em ser drags, mas pensam que é impossível para elas. Ver drags surdes e PCDs encorajam e mostram que elas também são capazes”, explica.

“A arte Drag ajuda muito na autoestima. Eu sofria bullying, me reprimia e tudo isso me afetou. O nascimento da Kitana mudou isso e me empoderou. A arte drag salvou a minha vida”, compartilha. “Então, precisamos cada vez mais incluir drags surdes e PCDs na comunidade LGBTQIAP+ e apoiá-las”.

Braconnot começou a se montar aos 17 anos, após uma infância e adolescência admirando como sua mãe e demais mulheres da família se vestiam.

“Eu já tinha o desejo de me montar, mas não conhecia a arte drag ou havia entendido minha identidade. Quando entrei no mundo LGBTQIA+ e vi pela primeira vez um show de drags, eu me encantei”, conta. Já o nome Kitana foi inspirado em uma personagem de vídeo game Mortal Kombat.

Nessa época, ele conta que tinha o desejo de conhecer outras drag queens surdas. “Um amigo me apresentou a um grupo de surdos que se montavam apenas no carnaval”. Atualmente, Kitana tem outras “filhas” surdas – termo usado na cultura drag para quando uma artista apadrinha e ajuda iniciantes a se desenvolverem. São elas Josettar e Lizzi Debauche.

Nas redes sociais, a personagem produz conteúdos de entretenimento, motivacionais e de inclusão, sempre em libras e com legendas em português.

“Meu sonho é que as pessoas vejam a Kitana como uma referência de artista surda, Drag Queen, LGBTQIA+ e plus size. Que outras pessoas surdes possam ser e expressar-se como se sentem bem e realizades. Além disso, que sejamos de fato incluídas em todos os espaços”, afirma.

drag queens destaque
Kitana Dreams, Lee Brandão e Renata D’Libra

Quebrada Queen

Lee Brandão é drag queen com deficiência física (@leebrandao1com) da periferia do Distrito Federal (DF). Para difundir uma cultura de diversidade na região, ela coordena o coletivo Quebrada Queen (@quebrada.queen).
“Eu trabalhava como bailarino de algumas drags e surgiu a curiosidade de ter um envolvimento mais próximo com essa arte. No começo, eu procurava disfarçar minha deficiência com roupas e looks. Foi um processo de desconstrução para eu começar a me firmar como drag que é PCD”, explica.

“Ter drag queens com deficiência é importante porque há pouca representatividade de PCDs em todos os espaços, como mídia, internet e também na cena artística. Isso alimenta um ciclo vicioso: não há visibilidade e, logo, outras pessoas sentem que podem tomar essa atitude”, explica. “Penso que o que fazemos é plantar uma semente para as próximas gerações. Talvez a gente não veja os frutos serem colhidos ainda”.

Show em libras

Lenon Tarragô era um jovem da periferia de Canoas que ganhou uma bolsa de estudo de idiomas. Escolheu a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e tornou-se intérprete.

“Comecei a sair com pessoas surdas, que eram muito acolhedoras, e a namorar um rapaz surdo. Mergulhei nessa cultura”, revela.

Na faculdade, Tarragô começou a frequentar shows de drag queens e a ter contato com o programa de televisão Ru Paul Drag’s Race.

“Eu havia feito teatro, tinha o desejo de me montar, mas não conhecia outras drags da minha cidade. Então, a minha referência era assistir à drag queen Lorelay Fox ensinando maquiagem no Youtube”, relembra.

A arte drag e a profissão de interprete se juntarem pela primeira vez na faculdade, quando ele decidiu se apresentar.
“Meus amigos surdos estavam na plateia e se apenas dublasse a música, eles não entenderiam. Comecei a dublar e a sinalizar”, conta.

Nascia assim a drag queen e intérprete de libras Rita D‘Libra (@ritadlibra), que hoje atua fazendo shows, produzindo conteúdo informativo sobre libras nas redes sociais e trabalhando como intérprete em eventos e em shows de artistas da comunidade LGBTQIA+, como Gloria Groove, Pablo Vittar e Ludimila. Tudo isso sempre montada.

“Meu objetivo é transmitir a emoção e a mensagem das músicas para as pessoas surdas e incentivar pessoas ouvintes a querer aprender Libras, visando uma sociedade mais inclusiva. “

Ao longo dos anos trabalhando montado, Rita vivenciou situações de preconceito. “Fui contratada como drag para traduzir um evento quando em determinado momento o cliente pediu para eu desmontar, disse que eu estava chamando atenção. Eu recusei e depois fui saber que quem reclamou foi outro intérprete, que se incomodou de eu trabalhar montada”.

“Por isso, também busco oportunizar que o campo de intérpretes aceite melhor a diversidade e seja mais inclusivo com a população LGBTQIA+”, conclui.

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