Leonardo Valle

Usar a comunicação para combater estereótipos. Esse é o objetivo do coletivo Nós, Mulheres da Periferia, formado por seis profissionais de comunicação que residem em bairros periféricos da cidade de São Paulo. O projeto, fundado em 2014, difunde conteúdos que colocam a mulher negra e pobre como protagonista. Para isso, o time composto por Mayara Penina, Semayat Oliveira, Bianca Pedrina, Livia Lima, Jessica Moreira e Regiany Silva utiliza um portal de notícias e outras plataformas, como vídeos e exposições.

Da esquerda para a direita, as fundadoras do coletivo: Aline Katia Melo (ex-integrante), Semayat Oliveira, Regiany Silva, Jessica Moreita, Livia Lima, Mayara Penina e Bianca Pedrina (crédito: Mídia Ninja)

 

“A comunicação possui um papel fundamental na maneira como a sociedade se organiza e enxerga o outro. E muito do preconceito se baseia numa construção que é estereotipada. Quando eu não tenho acesso a uma realidade, eu tendo a construir uma simulação dela”, destaca a designer e moradora do bairro Cidade Tiradentes, em São Paulo, Regiany Silva.

Para fundar o coletivo, as participantes identificaram dois problemas. O primeiro era o fato tanto do jornalismo quanto do entretenimento abordar a mulher negra e pobre pelo viés do sofrimento. “Em outras palavras, apenas viramos pauta quando o barraco desaba, somos mortas pelo feminicídio ou quando os nossos filhos são assassinados pela polícia ou pelo tráfico. Não negamos essa realidade, mas há outras histórias que podem ser contadas”, sintetiza Silva.

A segunda questão era a pouca representatividade das mulheres negras e da periferia nas grandes redações, o que impactava em um olhar estereotipado durante a produção de materiais que interligavam temas de gênero, raça, classe e território.

“As grandes redações são compostas, majoritariamente, por pessoas brancas, vindas da classe média, do sexo masculino. Eles tiveram acesso a melhores colégios e universidades, consequentemente, passam a ocupar as melhores vagas”, explica a designer. “O problema é que muitos desconhecem a periferia e fazem suas matérias por telefone. Assim, acreditamos que quando os próprios sujeitos contam as histórias da sua realidade, oferecem um olhar mais profundo e humano do que quando são apenas retratados por pessoas que desconhecem seu modo de vida”, acrescenta.

Atuação multimídia

Apesar de ter sido oficialmente fundado em março de 2014, o embrião do coletivo “Nós, Mulheres da Periferia” nasceu dois anos antes. Na ocasião, o sexteto trabalhava no Blog Mural, do jornal Folha de S. Paulo, de correspondentes comunitários da Grande São Paulo. O veículo reúne textos de jornalistas e estudantes de comunicação que moram em bairros periféricos na tentativa de também cobrir essas regiões.

“Foi pedido um texto para o dia da mulher e nós escrevemos um artigo em primeira pessoa, falando sobre os desafios de educação, moradia, entre outros, das mulheres que vivem na periferia”, relembra Silva.

O texto teve uma ótima repercussão e foi publicado na versão impressa do jornal. O grupo decidiu, então, reunir-se em um projeto próprio. Além das notícias publicadas no site, o Nós, Mulheres da Periferia também foi responsável por produzir uma exposição e o documentário “Nós, Carolinas” (2017), exibidos em escolas, centros culturais e comunitários.

Documentário “Nós, Carolinas” acompanhou a trajetória de quatro mulheres da periferia (crédito: reprodução)

 

“Percebemos que o site e as redes sociais não conseguiam atingir as mulheres de outras gerações, como nossas mães. Então, fizemos uma oficina em que trouxemos recortes de narrativas sobre as mulheres da periferia presentes em novelas e matérias jornalísticas. As participantes discutiam o quanto aquilo as representava, depois eram estimuladas a elaborarem pinturas, fotos e vídeos sobre as suas histórias – o que deu origem à exposição e ao documentário”, resume Silva.

Visitantes na exposição “Quem Somos [por nós]”, realizada em 2015, em São Paulo (crédito: divulgação / Marina Lopes)

 

“Para nós, foi importante lançar mão de outras formas de comunicação para alcançar pessoas que o jornalismo tradicional não conseguiria”, revela.

Para o futuro, o time de profissionais busca uma forma de transformar o projeto em uma iniciativa rentável. “Todas nós trabalhamos para manter nossas famílias, logo o portal de notícias precisa ser pensado no nosso contraturno. Gostaríamos de deixá-lo mais sustentável e estamos estudando meios para isso”.

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