“Toda vez que chove, alguém morre”, relata a cozinheira Joseane Souza, de 62 anos, moradora há 45 anos do bairro Alto José do Pinho, em Recife (PE). A região é conhecida por deslizamentos de terra durante chuvas intensas, fenômeno que, para Souza, piorou nas últimas décadas. “Não existe mais dia pra chover, pode ser verão ou inverno”, opina. Percepção que é validada pelos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Não podemos associar um evento isolado à mudança do clima, mas um acúmulo de eventos. No caso da chuva ou seca, há ação de fenômenos meteorológicos naturais, como El Nino e La Nina”, explica o professor do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) Tercio Ambrizzi.“Porém, ao analisar os relatórios, vemos que o aumento do aquecimento médio da atmosfera está intensificando a ação desses fenômenos e gerando eventos extremos, como chuvas e secas intensas”, destaca.

Segundo o pesquisador, ainda que eventos isolados tenham explicações atmosféricas, um olhar para como o clima se comportou nas últimas décadas revela que algo mudou. “Por exemplo, mesmo que a média das chuvas para um determinado mês se mantenha a mesma ao longo dos anos, observar individualmente cada evento revela ter chovido o que se esperava para 30 dias em cinco. Isso tem relação provável com o aquecimento da atmosfera”.

Estradas paradas

O aumento da frequência e intensidade das chuvas também é documentado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em São José dos Campos (SP). Levantamento de janeiro de 2022 do órgão apontou um recorde de alertas para risco de deslizamentos de terra, inundações e enxurradas provocados pelas chuvas.

Entre 1º e 31 de dezembro de 2021, foram 516 alertas de risco de desastres em mais de mil municípios monitorados, sendo que 163 se confirmaram. Esse problema que afeta, entre outras áreas, o transporte brasileiro.“Somos dependentes de rodovias e ferrovias para mobilidade e abastecimento de alimentos e bens. As fortes chuvas e altas temperaturas danificam os pavimentos, provocando pontos de destruição e interdição”, descreve a secretária executiva do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e colaboradora do IPCC, Andréa Souza Santos.

Um exemplo ocorreu em Minas Gerais, em janeiro de 2022, quando as chuvas intensas provocaram 130 interdições em estradas do estado, segundo a Polícia Militar Rodoviária. “Atualmente, desenvolvemos um estudo para o Ministério da Infraestrutura sobre a complexidade desse problema nos próximos anos”, adianta a pesquisadora.

O mar já avança

Outra consequência do aquecimento atmosférico é o derretimento de gelo em calotas polares e montanhas, “Isso expande o oceano e aumenta o nível do mar, que avança sobre o continente e provoca erosões”, resume Ambrizzi. Motivo pelo qual o IPCC listou, em 2021, três cidades litorâneas brasileiras entre as cem do mundo mais impactadas pelas mudanças climáticas: Rio de Janeiro, Santos e Recife. “Chuvas e avanço do mar aumentam o risco dessa água salgada atingir reservatórios de água potável nas cidades, provocando salinização e crise de abastecimento”, observa Santos.

Uma realidade já vista em Macapá (AP), onde o evento natural do avanço do mar sobre a foz do rio Amazonas tem se intensificado nos últimos anos, gerando salinização da água doce e impedindo o consumo pela população ribeirinha. Em outubro de 2021, a prefeitura decretou estado de emergência e distribuiu água potável aos moradores do arquipélago do Bailique.

Ao lado de chuvas e avanço do mar, há ainda a seca. Problema comum em cidades não-litorâneas, que dependem das circulações atmosféricas para terem chuvas, ele tem se intensificado. “O aumento do aquecimento da atmosfera gera os longos períodos de estiagem vistos hoje. Estes secam rios e córregos”, informa Ambrizzi.

“Sem chuvas, os reservatórios de água baixam e há racionamento hídrico, elétrico e aumento da conta de luz, já que a matriz energética brasileira se apoia em hidrelétricas. Situação vivida nos últimos anos por São Paulo (SP), Curitiba (PR) e Brasília (DF)”, relembra Santos.

Minimizando consequências

Como as cidades cresceram de forma desordenada, eventos intensos como chuvas causam problemas sociais e afetam mais seriamente as populações mais pobres e em moradias precárias. Isso implica em pensar adaptações e mitigações.

“Estas são de dois tipos. O primeiro, software, abrange planejamento contra crises e desastres e reúne entes como a defesa civil. O segundo, hardware, exige medidas de engenharia, como construção de diques, piscinões etc.”, exemplifica a pesquisadora. Santos também destaca a importância de adaptações baseadas na natureza, como os jardins de chuva, que ajudam a conter alagamentos nas grandes cidades.

“Recuperar áreas degradadas, matas ciliares e mangues ajudam a conter o avanço do mar e são abordagens mais econômicas do que grandes obras”, compara. Para isso, estados e municípios deveriam construir planos de adaptação e planos diretores associadas a uma agenda climática. “Algo previsto na Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), mas que pouco avançou. Entre as exceções está a cidade de Santos (SP)”, apresenta.

Já a coordenadora da ONG ClimateScience no Brasil, Amanda Suarez, lembra da educação ambiental como forma de mitigação: “As pessoas precisam entender que há um problema para mudarem a realidade. Isso inclui educar para reduzir a pegada de carbono, por meio de consumo consciente, reciclagem de resíduos, entre outros”.

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