A barriga solidária, também conhecida como útero de substituição, é quando uma pessoa cede seu útero para que o bebê de um casal ou indivíduo que não pode gestar consiga se desenvolver.

“Ela beneficia desde casais heterossexuais que enfrentam problemas de fertilidade a casais homoafetivos e pessoas que desejam vivenciar uma paternidade ou maternidade solo”, diz o advogado e membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) Ricardo Politano.

Ela é diferente da barriga de aluguel, que envolve um acordo financeiro e é proibida no Brasil.

“Os critérios para quem deseja ser barriga solidária é ter ao menos um filho vivo e pertencer à família de um dos parceiros em parentesco consanguíneo até o quarto grau. Caso contrário, deverá ser solicitada autorização do Conselho Regional de Medicina (CRM)”, afirma Politano.

“Para obter essa autorização, é preciso apresentar um laudo psiquiátrico e exames médicos da mulher que vai gestar a criança”, acrescenta o advogado.

Família envolvida na gestação

A barriga solidária uniu a gerente executiva Andreia de Melo Lombardo, 45 anos, e a administradora de empresa e prima dela Luciana de Godoi Justino, 44 anos.

“Sempre tivemos uma ligação de irmãs. Sou apenas um ano mais velha, então brincamos juntas. Fazíamos planos de uma ser madrinha de casamento da outra e dos filhos”, relembra Lombardo.

Depois de casada, Lombardo engravidou com facilidade. Justino, porém, não conseguiu. Foram sete anos de tentativas de inseminação artificial, incluindo um aborto natural de gêmeos. “Como era um assunto doloroso, os familiares pararam de perguntar como estava o processo para não machucá-la”, recorda a gerente executiva.

Certo dia, assistindo a um programa de televisão, Lombardo descobriu a barriga solidária.

“Eu mandei uma mensagem de texto para minha prima dizendo: eu não sei que estágio da tentativa de maternidade você está e você não me deve satisfação. Mas quero que você saiba que, se para realizar o sonho de ser mãe a barriga solidária é uma possibilidade, eu faço isso por você”, relata.

Do outro lado, Godoi precisou de tempo para assimilar o assunto. “Já estava arrasada emocionalmente e também financeiramente, porque cada tentativa envolvia muitos procedimentos e remédios”, explica.

Godoi aceitou a oferta. A fecundação do óvulo dela e do esperma do marido em laboratório gerou um embrião que foi transplantado para o útero de Lombardo. O procedimento foi um sucesso já na primeira tentativa.

“O próximo passo foi contar para nossos pais, porque era um assunto complexo, e eles temiam que sofrêssemos preconceito. A Luciana criou um blog privado para ir compartilhando os passos da gestação com todos, e os familiares foram envolvidos nas visitas ao médico. Virou uma gestação cuidada por toda a família. E quanto mais eles participavam, mais falavam da barriga solidária com naturalidade”, afirma Lombardo.

Ainda assim, houve situações delicadas. “Um parente religioso veio dizer para mim que eu estava brincando de ser Deus, que Deus não havia dado filhos para minha prima por um motivo. Optei por me afastar desse discurso negativo”, confessa.

Depois de nove meses, nasceu Lais. “Sou uma tia diferenciada, com um carinho diferencial. Sempre tive um cuidado de irmã mais velha com a minha prima, e com a Laís não é diferente”, garante Lombardo.

Famílias diversas

Desde a infância, a coordenadora de faturamento Suelen Domingos, 40 anos, tem o gerente de marketing Fernando Rodrigues, 42 anos, como seu melhor amigo. “Fernando é gay, e desde a adolescência eu brincava que seria a barriga de aluguel dele e do marido”, conta.

Após três filhos, Domingos decidiu fazer uma laqueadura. Foi quando deu ultimato a Rodrigues, que era recém-casado. “Falei: ‘Se você realmente quiser que eu seja sua barriga solidária, a hora tem que ser agora’”, revela Domingos.

Por serem amigos e não parentes, a dupla precisou solicitar uma autorização judicial. Assim nasceu Lior, filho de Rodrigues e de seu companheiro, o analista de recursos humanos Gustavo Bonjardim, 35 anos. “Para mim, foi uma forma de demonstrar todo o amor que eu sinto pelo meu amigo, que é indescritível. E o Lior sabe que eu sou a tia que guardou ele na barriga”, compartilha.

“Se você pode fazer o bem para alguém próximo, por que recusar? Quando vejo a relação que os pais do Lior têm com ele, penso que, se não tivesse feito isso por medo ou preconceito, esse amor não existira”, completa Domingos.

Duas vezes barriga solidária

A maquiadora Luciene Melo, 39 anos, foi barriga solidária não uma, mas duas vezes. Em comum, o fato de suas duas amigas terem nascido com problemas no útero, condição que as impedia de ter filhos.

“Minha amiga Luciana [Salatiel, empresária, 49 anos] já havia tido um primeiro filho de barriga solidária e possuía um último embrião. Ela me pediu e eu gerei o Lucas, hoje com seis anos. Meu único desafio foi que desenvolvi diabetes gestacional. Mas o Lucas nasceu saudável, e hoje eu sou sua madrinha”, conta.

“O segundo pedido veio da minha amiga Karolyne [Vanucci, empresária, 29 anos], que soube da minha primeira barriga solidária. Nessa segunda vez, a gestação do Ravi, de sete meses, foi mais romantizada. Eu não tinha mais alguns medos, por exemplo, de como seria após a separação do bebê. Sabia que seria tranquilo”, confessa.

“Tenho uma relação bonita com as famílias das minhas duas amigas. Ficou um laço forte”, ressalta Melo.

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Crédito da imagem: Luciene Melo – Acervo pessoal

Atualizada em 07/05/2024, às 13h57.

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