Ainda é recente o entendimento de que parentes e amigos de pessoas alcoólicas e dependentes químicos são igualmente afetados pelo vício e suas consequências, como violência, desemprego, acidentes de trânsito, evasão escolar, entre outros.
“Com o surgimento dos Alcoólicos Anônimos (A.A.), em 1935, nos Estados Unidos, muitos encontraram a sobriedade. Porém, familiares ainda se sentiam angustiados, ansiosos. Em conversas, perceberam que o alcoolismo é uma doença reflexiva e que sofriam dos mesmos sintomas que o alcoólico: negação, raiva, obsessão, sentimento de culpa etc. Eles começaram a aplicar os Doze Passos propostos pela instituição e viram mudanças. Surgia assim, em 1951, o Grupo Familiares Al-Anon”, explica o secretário-geral da instituição no Brasil, Mateus Gomes.
O grupo acolhe parentes e amigos de quem vive com vícios. A instituição não cobra taxas e é autossuficiente por meio das contribuições voluntárias de seus próprios membros.
Além dele, em 1957 foram criados os Grupos Alateen, voltados a adolescentes de 13 a 19 anos que convivem com o alcoolismo na família ou entre amigos.
“A recuperação no Al-Anon se dá por meio do compartilhamento de experiências entre os membros com a proteção do anonimato: o que é dito em reunião não pode ser comentado com pessoas externas”, aponta Gomes.
“Ler e ouvir essas experiências ajuda os participantes a perceberem que não estão sozinhos e que é possível encontrar serenidade convivendo com um doente alcoólico”, descreve.
Codependência: abandonando o papel de salvador
Gomes explica que a família normalmente acredita ter o papel de salvadora do alcoólico. “No dia a dia, tentam muitas maneiras de fazer o alcoólico parar de beber, seja utilizando-se de manipulação, jogando bebida fora ou escondendo as chaves do carro”.
Segundo ele, as dinâmicas familiares são parecidas. “Os familiares e amigos ficam obcecados pelo alcoólico, por quanto ele bebe, tentam mudar seu comportamento. Isso causa desequilíbrio, e se esquecem de todo o resto: as crianças são negligenciadas, por exemplo. Porém, não conseguir pará-lo gera frustração e um sentimento de que ele bebe de propósito, não porque já não consegue parar. Tentam puni-lo, e o lar vira um campo de batalha”, lamenta.
Mudar de atitude impacta diretamente o alcoólico, que em vários casos busca ajuda.
“Os familiares descobrem que não há nada que possam fazer diretamente. Apenas o alcóolico pode dar o primeiro passo rumo à sobriedade e para controlar a compulsão ocasionada pela doença”, destaca.
Essa realidade foi vivida por Clarice* (nome fictício), que participa do grupo semanalmente. “Procurei o Al-Anon porque estava emocionalmente exausta de lidar sozinha com o alcoolismo do meu esposo. Cheguei buscando ajuda para ele, mas acabei encontrando ajuda para mim”, relata.
Além dela, a filha do casal participa do Alateen. “Nas reuniões entendi que, sem saber, vivia em função do problema dele e deixava a minha própria vida de lado. Aprendi a identificar comportamentos de controle e isso mudou a minha postura. Em vez de reagir com desespero ou tentar resolver tudo, passei a estabelecer limites saudáveis e priorizar minha saúde emocional”, enfatiza.
“Foi transformador ouvir que eu posso amar a pessoa e, ao mesmo tempo, não ser conivente com atitudes prejudiciais dela. Que colocar limites não é falta de amor, mas autocuidado”, afirma.
Terapia do espelho
A Federação Brasileira de Amor-Exigente (Feae) é uma ONG que atua desde 1984 apoiando e orientando familiares de dependentes químicos e de pessoas com comportamentos inadequados, também por meio da indicação de passos a serem seguidos.
Possui ainda programas para pessoas em recuperação do uso de álcool e outras drogas (“Sobriedade”), para o público infantojuvenil (“Amor-Exigentinho” e “Amor-Exigenteen”) e para quem se relaciona amorosamente com elas (“Cônjuges”).
“Há a codependência: você deixar de viver a sua própria vida para viver a vida do outro, com um sentimento de culpa exacerbado. A pessoa acredita poder mudar o outro, quando ela pode mudar somente a si mesma. Assim, o primeiro passo é o familiar aprender a parar de controlar, a colocar limites e regras”, explica o diretor de Grupos da Feae Luiz Fernando Cauduro.
Pai de quatro filhos, sendo três fazendo uso de drogas, Cauduro chegou à “Amor Exigente” há 24 anos. “Eu e minha esposa não estávamos sabendo lidar com a situação. Quando passou, continuamos voluntários”, revela.
As reuniões são semanais, com duas horas de duração, e nelas ocorrem partilha de experiências e o estabelecimento de metas que os participantes se prontificam a cumprir na semana.
“Encontrar outras pessoas que passam pelo mesmo é uma terapia de espelho. Conforme ela compartilha a situação vivenciada, cria identificação em quem escuta”, pontua.
Para quem busca ajuda, o Al-Anon está presente em 24 estados brasileiros e no Distrito Federal, contando com 319 grupos presenciais, além de online. A “Amor-Exigente” possui reuniões presenciais e online no Brasil e também na Argentina, no Uruguai, na Itália e nos Estados Unidos.
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Crédito da imagem: Luis Alvarez – Getty Images