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“Travessia” é o novo livro de Walter Casagrande Jr., em coautoria com o jornalista e amigo Gilvan Ribeiro. O foco agora recai sobre a dura luta contra as drogas e o êxito alcançado, que tem como momento emblemático um depoimento emocionante ao final da transmissão da rede Globo, na Copa de 2018.

“Eu fui conquistando aos poucos, fui fazendo uma travessia de recuperação e de transformação de comportamento, de ideias, até chegar à transformação na final da Copa de Moscou”, enfatiza o comentarista esportivo, entrevistado neste podcast.

Com livro e palestras, Casagrande inspira outras pessoas na luta contra as drogas (crédito: Lucas Seixas)

Após afundar no vício, ter vivido quatro overdoses e conviver com surtos psicóticos, Casagrande revelava, no encerramento da Copa, ter passado sóbrio todo o período da competição.

A travessia, narrada em coautoria com Gilvan Ribeiro, mostra a trajetória percorrida até se livrar das drogas, a ressocialização depois de anos no vício, as histórias de amor, os dramas e surtos psicóticos e, além de tudo, o apetite pela vida que levaram o ex-jogador a experiências extremas que o deixaram no limite da sanidade e da sobrevivência.

Ao expor a vida, sem floreios, em livros e palestras, a meta de Casagrande é contribuir para a luta contra o vício. Para isso, ele defende que estar sóbrio faz se acostumar com o prazer da vida, que não é igual ao da droga, mas é real.

“O prazer que a vida te dá é verdadeiro. Você vai numa apresentação da orquestra do João Carlos Martins, no Teatro Municipal, e você se emociona com a música clássica e vem aquele prazer em você, é totalmente verdadeiro, você está vendo, você sabe o que está te dando prazer. E isso eu passo para as pessoas.”

No áudio, o entrevistado revela ainda o que mudou em sua vida e o que reconquistou com o retorno à sobriedade.

Gilvan Ribeiro e Walter Casagrande Jr., em foto tirada antes da quarentena (crédito: Lucas Seixas)
Ver transcrição do áudio

Música “Street Rhapsody”, de DJ Freedem, de fundo

Walter Casagrande Jr.:
Todas as drogas são mentirosas. O uso aumenta para tentar sempre buscar aquele prazer que você sentiu inicialmente; você nunca consegue mais e aí você se complica. Aí a sua vida começa a ficar complicada.

Eu sou o Walter Casagrande Jr., ex-jogador de futebol e atual comentarista da TV Globo.

Vinheta: “Instituto Claro – Cidadania”

Marcelo Abud:
Após afundar no vício, ter vivido quatro overdoses e conviver com surtos psicóticos, Walter Casagrande Jr. faz a travessia para a sobriedade. O terceiro livro escrito em coautoria com Gilvan Ribeiro tem como ponto de partida um comovente depoimento, durante o encerramento da Copa do Mundo de 2018. É quando o comentarista Casagrande revela ter passado sóbrio todo o período da competição.

Walter Casagrande Jr.:
Eu fui conquistando aos poucos, fui fazendo uma travessia de recuperação e de transformação de comportamento, de ideias, até chegar à transformação na final da Copa de Moscou…

Áudio da transmissão do encerramento da Copa de 2018, na TV Globo
(Som de torcida e música no estádio)
(Casagrande) E, pra mim, essa Copa é a Copa mais importante da minha vida, porque eu tive uma proposta, quando eu vim pra cá, quando eu saí do Brasil, que era chegar aqui pela primeira vez numa Copa do Mundo sóbrio, permanecer sóbrio e voltar pra minha casa, sóbrio.
(Chorando) Então, eu tô muito feliz.

Walter Casagrande Jr.:
O primeiro evento, a primeira Copa que eu fiz fora de casa que eu consegui fazer isso: sem a ajuda de psicólogo presencial. É essa a travessia, é isso que eu conto no livro.

Marcelo Abud:
Antes de concluir a travessia, o ex-jogador passou por momentos dramáticos. Em 2007, depois de sofrer um grave acidente de carro e ficar em coma, foi internado em uma clínica para dependentes de drogas. Nesse momento, apoios importantes serviram como uma espécie de colete salva-vidas.

Walter Casagrande Jr.:
Primeiro, achava que a TV Globo ia me mandar embora e aí apareceu a parte boa: o apoio que eu tive da TV Globo me fez pelo menos encostar, ter a parede do trabalho definida, que a TV Globo falou “pode se tratar que nós vamos te esperar”, me deu uma segurança; e depois quando eu soube que a minha família também estava do meu lado, não estava me julgando, não me condenou, não me acusou de nada, eu fiquei muito mais tranquilo pra fazer o tratamento. Numa queda emocional, fundo do poço de um dependente químico, depois ele vai ser internado, o apoio familiar é imprescindível. Nem todas as famílias fazem isso. Eu acompanhei, naquele um ano que eu estava lá, diversas pessoas que a família não queria nem ver mais. E, no meu caso, foi completamente diferente.

Marcelo Abud:
Em 2011, após novo período de internação, Casagrande participa do programa do Faustão. O depoimento do filho mais novo, Symon, foi mais um estímulo para permanecer na luta contra as drogas.

Áudio do Domingão do Faustão
(Symon, emocionado) Hoje, eu não tenho um melhor amigo. Se tenho, é a minha mãe e, hoje, ela é minha melhor amiga. Mas, sem dúvida, ele pode me reconquistar do jeito que era antes.

Walter Casagrande Jr.:
Então, naquele momento que teve aquela situação no Faustão, eu tinha acabado de sair da clínica, fazia poucos meses que eu estava fora da clínica e os prejuízos começaram a aparecer. Um deles foi esse: meu filho falar que eu não era mais o melhor amigo dele. Eu falei “caramba, olha o que eu arrumei pra mim, né?”. Aquilo se transformou em mais um objetivo na minha recuperação: recuperar o relacionamento familiar com meus filhos; a confiança que eles tinham em mim; a minha confiança, a minha credibilidade, nos meus pais, foi isso. Tudo foi um objetivo, tudo o que aconteceu comigo, na ressocialização, em nenhum momento eu encarei como pedra no caminho. Eu encarei tudo como objetivo a ser conquistado.

Marcelo Abud:
Walter Casagrande Jr. fala o que conseguiu reconquistar, após fazer essa travessia e finalmente alcançar a sobriedade.

Walter Casagrande Jr.:
Hoje, tudo o que eu faço eu estou cem por cento ali, focado em tudo o que eu estou fazendo, no meu trabalho, no lazer, nos meus eventos culturais… A minha disposição aumentou. Comecei a ir na academia, caminhar no Parque do Ibirapuera, fazer fisio; ir no cinema, teatro, ir no Municipal ver apresentações das orquestras com música clássica; me senti livre, aquela escravidão que a droga te coloca, tinha desaparecido.

Música: “Oitavo anjo” (Dexter)
“Acharam que eu estava derrotado / Quem achou estava errado / Eu voltei, tô aqui”

Walter Casagrande Jr.:
Meu lado emocional ficou mais forte; hoje em dia, frustação, eu lido melhor; com situações mais difíceis, eu lido melhor, coisa que eu não conseguia fazer antes. Aí, as partes de recuperação de relacionamento, pô, meus filhos, meus pais, meus amigos, sabe? Ninguém me largou. Nenhuma pessoa que eu conhecia antes me abandonou porque eu abusei no uso de drogas e fui para o fundo do poço. Mas isso eu tive que demonstrar pra eles que eu tinha mudado de verdade, pra que eles acreditassem em mim, pra se aproximar e continuarem sendo meus amigos, entendeu? As conquistas não acabaram ainda. Todos os dias que eu faço alguma coisa é uma conquista, por exemplo, você está me entrevistando porque eu me recuperei e escrevi um livro sobre isso, eu com o Gilvan; porque se eu estivesse drogado eu não ia fazer livro nenhum e você não ia nem querer falar comigo.

Marcelo Abud:
“Travessia” é o terceiro livro que Casagrande escreve em parceria com Gilvan Ribeiro. Amigos desde os anos 1980, o jornalista foi um espectador de momentos difíceis, mas também esteve ao lado do ídolo corintiano durante sua recuperação.

Gilvan Ribeiro:
Pude acompanhar desde os momentos mais dramáticos: no auge da dependência química com uso de drogas injetáveis; visões demoníacas; surtos psicóticos; a internação; as recaídas; até as vitórias que ele passou a ter até que ele conseguisse a superação definitiva. Eu estive presente, por exemplo, no show Adonirando, que foi um mega espetáculo que ele organizou no Teatro Municipal de São Paulo com a participação de mais de 30 músicos, com representantes de todas as vertentes musicais. Pela grandiosidade daquele espetáculo, pra mim, ali, foi a constatação de que o Casagrande realmente havia superado de forma definitiva a dependência química.

Marcelo Abud:
O show em homenagem a Adoniran Barbosa aconteceu em janeiro de 2018. No livro, Casagrande aponta esse envolvimento com a arte como um dos responsáveis pelo êxito na ressocialização dele. Ao compartilhar a sua história, o ex-jogador afirma que tem a intenção de inspirar a recuperação de quem sofre com a dependência química.

Walter Casagrande Jr.:
E também fico muito feliz porque eu sei que centenas de pessoas espalhadas pelo Brasil me têm como referência também, porque, indiretamente, eu ajudei um familiar, um filho de alguém, uma filha, um marido de alguém, a esposa de alguém, o primo ou um amigo de alguém; eu fui uma referência, porque eu sei diversos relatos desses tipos. Já me procuraram diversas vezes falando isso e várias pessoas me procuram pra pedir ajuda para o filho ou para a filha sobre isso. Isso não tem preço, isso aí eu não nego de forma nenhuma.

Eu faço palestras espalhadas pelo Brasil falando sobre a minha história, qual foi a experiência, explicando para as famílias porque elas não têm experiência sobre dependência química; eu conto tudo o que passou por mim, eu conto como eu penso as coisas.

Música: “Respeito é fundamento” (Dexter)
“Vi o jardim, no meio do deserto florescer / E foi aí que me apeguei, lutei, resisti / Do meu choro fiz o soro / E do coma, renasci”

Walter Casagrande Jr.:
A droga te joga em pico de prazer o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo… Então é um prazer falso, não está acontecendo nada na vida pra você ter aquele pico de prazer. Às vezes, inclusive, está tudo mal, você está numa situação ruim. Então o prazer que a droga oferece é mentiroso. O prazer que a vida te dá ele é um prazer verdadeiro.

João Carlos Martins, ao piano, interpretando a música “Love of my live”, de Queen, de fundo

Walter Casagrande Jr.:
Você vai numa apresentação da orquestra do João Carlos Martins, no Teatro Municipal, e você se emociona com a música clássica e vem aquele prazer em você, é totalmente verdadeiro, você está vendo, você sabe o que está te dando prazer. E isso eu passo para as pessoas, entende?

Música “Street Rhapsody”, de DJ Freedem, de fundo

Marcelo Abud:
Assim como o tom adotado nos livros, nas palestras que faz, Casagrande fala com sinceridade e realismo para inspirar outras pessoas a não entrarem ou a encontrarem motivos para superar o vício.

Com apoio de produção de Daniel Grecco, Marcelo Abud para o Instituto Claro.

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