Voluntariar em projetos de educação é uma forma de compartilhar conhecimentos e colaborar com o desenvolvimento e a aprendizagem de crianças, jovens e adultos.

“O primeiro passo é estar aberto a conhecer a organização a entender sua história, gestão e forma de atuar. Depois, ter empatia e escuta com esse público novo, assim como estudar e conhecer os desafios enfrentados por ele”, orienta a gestora de redes e comunidades da Atados, Rosa Diaz — a plataforma conecta pessoas com oportunidades de voluntariado em causas sociais.

“Um erro é entender o trabalho voluntário como caridade, forma assistencialista ou missionária. Ele é uma troca e forma de participação social. As pessoas assistidas não podem ser reduzidas a sua situação: possuem histórias, conhecimentos e potencialidades”, completa.

Outro alerta é que o trabalho voluntário em educação geralmente não é uma ação pontual, mas contínua. “Apesar de voluntário, é um trabalho e, como tal, exige comprometimento. Assim, é importante ser honesto sobre a quantidade de horas que você deseja doar e durante quantos meses antes de iniciá-lo”, sugere Diaz. 

A boa notícia é que, no campo da educação, há oportunidade de voluntariado para todos os perfis de pessoas. “Algumas atividades podem exigir conhecimentos específicos e outras não. Assim, a orientação é entender a atividade que lhe toca e pesquisar uma organização em que possa atuar, estudando sua história, valores e processo seletivo [pode haver uma seleção dependendo da instituição]”, completa. 

A seguir, conheça sete maneiras de ser voluntário em projetos do campo da educação. 

Arrecadar livros e criar bibliotecas

Pessoas que se envolvem nesse voluntariado entendem a importância da democratização do saber e sabem que um livro parado na estante não cumpre a sua função.  

“A leitura muda o paradigma de qualquer realidade e contribui para formar pessoas autônomas, questionadoras e ativas na sociedade”, resume a fundadora da ONG Ciranda do Saber, Meire Nascimento, que doa mensalmente 5 mil livros e já criou 17 bibliotecas comunitárias.  

O voluntário pode atuar não somente na arrecadação de livros, mas na sua triagem e cadastro para feiras e sites de vendas. 

“É importante gostar de leitura, do manuseio e de todo o universo dos livros. Quando atua em feiras, o voluntário ajuda a receber as pessoas e a indicar leituras”, explica o fundador Instituto Acervo, Juan Cacio Peixoto. A iniciativa doa “geladeiras de livros” — aproveitam a estrutura da geladeira quebrada para criar uma micro biblioteca — para locais sem bibliotecas e promove feiras de troca e venda de livros doados. “A venda de livro doados em feira ou online também é importante porque sustenta os demais projetos”, explica. 

Recreação

Ela é mais do que propor simples brincadeiras ou jogos, como explica o coordenador do Projeto Fábrica, Marcos Kleyton. “A recreação incentiva a socialização de crianças e adolescentes e promove o desenvolvimento da criatividade e do aprendizado”, esclarece.

Geralmente, os voluntários possuem mais de 18 anos. “O único critério é gostar de brincar e não pode ser tímido: tem que entrar na onda das crianças”, brinca Kleyton. 

O trabalho pode exigir criar um ambiente seguro e estimular crianças tímidas a também participarem das brincadeiras. “Não é bom ser uma pessoa estressada, porque o voluntário lidará com crianças que possuem diferentes estilos”, afirma. 

Coordenadora da equipe de recreação da ONG Viver, voltada para pacientes oncológicos, a psicóloga Eliane Ferreira Trautwein lembra que o voluntário também pode lidar com crianças com restrições. 

“É preciso planejar antecipadamente atividades para serem oferecidas as crianças e acompanhantes levando em consideração a idade e saúde, incluindo restrições de movimento”, explica.

 “No nosso caso, como a  maioria apresenta imunidade baixa, evitamos atividades que exijam contato com muitas pessoas, em ambientes fechados, que requeiram alto impacto ou capacidade respiratória”, acrescenta Trautwein.

Mediação de leitura

Para ser voluntário de leitura, existem algumas habilidades que podem ser benéficas. Gosto pela leitura, boas habilidades de comunicação e flexibilidade  ajudam a dar fluidez para a história contada e a contagiar quem escuta. 

Porém, é importante paciência e empatia para fazer uma leitura que também atinja pessoas com dificuldade de compreensão e escuta ativa, para responder perguntas e preocupações que surgirem. 

“A gente percebe que o voluntário que se dá bem nessa atividade são os que amam a leitura, livros e tiveram boas experiências com professores e família nesse universo das letras. Outros são aqueles que tem sensibilidade com a arte em todas as suas manifestações. Eles encaram a mediação da leitura como um momento de troca, aprendizagens e afeto”, resume a gerente da ONG Cirandar, Márcia Cavalcante.

“A gente organiza uma formação de mediação de leitura e busca um planejamento que valorize obras bem escritas, ilustradas, de diferentes editoras e que tragam temas de interesse da criança. Cada voluntário traz um ‘tempero’ diferente: alguns preferem contos, fábulas, histórias indígenas. Isso traz diversidade”, acrescenta Cavalcanti.  

Reforço escolar

Para Cavalcanti, da Cirandar, as habilidades importantes neste voluntariado é se interessar pela experiência das crianças de descoberta do mundo das letras e do conhecimento. “Oferecemos atividades de alfabetização e letramento e temos desde voluntários que são do campo da educação até outros de áreas diversas, como o direito, mas que se encantam de ver a criança descobrindo novos conhecimentos. É um momento especial e bonito”. 

“A gente une o trabalho de alfabetização e descoberta das palavras com o  amor aos livros. Assim, a criança é formada como leitora, descobrindo as narrativas e  histórias, mas também explorando o código escrito, que a ajudará a ter autonomia para ler sozinho”.

O ensino pode ser feito tanto de forma coletiva como um atendimento individual para crianças que possuem dificuldades específicas. “Assim como a mediação da leitura, é preciso ter um amor duplo: gostar de crianças e livro”, indica. 

Reformar escolas

Essa iniciativa costuma partir das secretarias de educação que travam parcerias com setores de voluntariado de grandes empresas ou da própria escola, quando essa mobiliza a comunidade escolar para pintura e reparos. 

A Prefeitura do Rio de Janeiro (RJ) possui o programa Abrace uma Escola, que permite o apoio de pessoas físicas e jurídicas a escolas públicas municipais.

“ Para a execução da reforma, a área técnica precisa receber o detalhamento do que será feito e a execução é realizada diretamente pela iniciativa privada”, conta a assessora especial de parcerias Estratégicas da Secretaria Municipal de Educação (SME) Giovanna Franklin.

Ainda na esfera desse tipo voluntariado, é possível colaborar arrecadando os materiais necessários para que a reforma aconteça – como massa corrida e latas de tintas – quanto colocar a mão na massa. 

Caso não tenha experiência com pintura e manutenção de partes elétrica e hidráulica, também pode colaborar com outras demandas que uma reforma exige, como organização, limpeza e preparar e distribuir alimentos para o time. 

Ensino de idiomas

Esse voluntariado costuma ser realizado por pessoas que tiveram portas abertas no mercado de trabalho por falar inglês ou outro idioma, e desejam agora proporcionar as mesmas oportunidades para quem não tem condições de arcar com um curso.  

“Ele demanda paciência para entender que cada estudante tem seu próprio desenvolvimento. Querer ensinar tudo de uma vez será frustrante”, opina o fundador do Projeto Braduca, Alexandre Nascimento. A iniciativa ministra aulas online e gratuitas de inglês para alunos de escolas públicas.

Segundo ele, como o processo de ensino é similar ao da alfabetização, é preciso preparar aulas começando do básico. “É importante expor esse aluno iniciante à língua inglesa ao máximo, incluindo diferentes sotaques. Um erro comum é falar mais em português e evitar tirar esse estudante da sua zona de conforto”, orienta.

Outra dica importante é identificar os gostos dos alunos e explorá-los em frases e vocabulários. “Principalmente com crianças, que tendem a não sustentar a atenção por muito tempo”, destaca. 

Para a diretora da ONG Cidadão Pró-Mundo, Ludmila Fregonesi, voluntariar com o ensino de idiomas é contraindicado para quem não tem uma rotina bem delineada e tem dificuldades em trabalhos que exigem continuidade. 

“Além da aula em si, é necessário destinar tempo para preparar as atividades, dar feedback aos alunos e disponibilidade para acompanhar um grupo de alunos por um determinado período, como durante um semestre. Ou seja, exige compromisso de longo prazo”, enfatiza.

Também pode ser contraindicado para pessoas com dificuldade de falar em público e, claro, pouco domínio da língua a ser ensinada. “Porém, não é necessário experiência prévia como professor. Aproximadamente 90% do nosso voluntariado nunca lecionou”, compartilha Fregonesi.

“Quem não deseja dar aula pode ainda voluntariar em áreas de marketing ou administrativas desses mesmos projetos de ensino de inglês. Também estará ajudando com o que o objetivo de ensinar seja atingido, ainda que atuando de outra forma”, incentiva Alexandre Nascimento. 

Lecionar em cursinho popular

Fazer com que jovens e adultos em situação de vulnerabilidade social acessem o ensino superior é um dos fatores que movem esse voluntariado. Geralmente, é oferecido por universidades e os participantes são estudantes, ex-alunos e professores da mesma instituição. Porém, pode ser exercido por qualquer pessoa que esteja cursando ou tenha concluído o ensino superior, independente da área de formação. 

Além de lecionar, os cursinhos populares também oferecem vagas para monitores de diferentes disciplinas que possam atender e esclarecer dúvidas dos alunos. 

“No geral, a estrutura do projeto conta com voluntários distribuídos nas funções de professores, monitores, tutores, assessoria pedagógica, recursos humanos, assessoria financeira, comunicação, assessoria de simulados e coordenação geral”, conta a assessora de Recursos Humanos do Cursinho Popular Guimarães Rosa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ana Beatriz Bittencourt.

Da mesma maneira que o voluntário de ensino de idiomas, lecionar em cursinhos populares exige comprometimento de longo prazo para dar as aulas no horário estipulado e continuidade no cronograma proposto.   

“Quem voluntaria dando aulas precisa lembrar que muitos desses alunos já tem experiências ruins de falta de professores e aulas vagas nas suas aulas nas redes públicas. Quando o voluntário falta sem aviso prévio, faz com que se repita a experiência”, adverte Fregonesi.

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