Restos de vegetais, cascas de ovo e borra de café são sobras de alimentos orgânicos que lotam aterros sanitários quando poderiam se tornar adubos para fertilizar praças e plantações.“O que chamamos de lixo geralmente são resíduos que tem valor biológico e que podem estimular a vida no solo”, descreve a professora da Faculdade de Medicina e coordenadora do Grupo de Estudos de Agricultura Urbana da Universidade de São Paulo (USP), Thais Mauad. Contra o problema, entra em cena a compostagem – processo que simula condições ideais para uma degradação rápida desses resíduos na presença de oxigênio. Em casas e apartamentos pequenos, ela pode ser realizada em minhocários – caixas de plásticos fechadas nas quais minhocas californianas transformam a matéria orgânica no adubo húmus.

Já quando há espaço – caso de pátios, condomínios e praças – há a opção das composteiras comunitárias, que podem ser produzidas com caixas ou por meio de galhos. Em comum, ambas permitem que bactérias e fungos degradem o material.“Para funcionar, a compostagem necessita de nitrogênio – adquirido por meio dos vegetais – e carbono, conquistado por folhas, serragem, galhos e outros derivados de madeira”, orienta.

Trabalho em grupo

Mauad participou de um projeto pioneiro de composteiras comunitárias em praças de São Paulo (SP) organizado pelo coletivo Vilas Beijas, que reúne as vilas Beatriz, Ida e Jataí.  Nele, vizinhos se reuniram e passaram por uma formação para criar um modelo de composteira comunitária desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Este utiliza materiais do entorno para criar uma estrutura que se assemelha a um ninho de aves.

Projeto de composteiras comunitárias em praça de São Paulo (Magda Beretta/Acervo pessoal)

O grupo se reúne aos domingos, às 10h, nas praças dos bairros para depositar os resíduos da semana coletivamente.  Exceto cozidos, carnes e queijos, que podem criar odores e atrair insetos e animais.“Fazemos todos juntos, para não haver problemas. O interior da composteira atinge um calor de 60°C, eliminando qualquer agente patogênico”, revela.“O modelo comunitário é bom para pessoas que não tem minhocário em casa ou cuja produção de resíduos é maior do que o minhocário consegue suportar”, reforça.

Participante do coletivo, a advogada Patrícia Oliveira se envolveu no processo de compostagem após conhecer vizinhos engajados em causas ambientais. “Eles me mostraram a importância de evitar que esses resíduos orgânicos produzidos em casa acabassem em aterros sanitários e lixões. Mudou a minha forma de consumir, que hoje é mais reflexiva”, descreve ela, que atua também criando placas e textos informáticos para explicar e divulgar a iniciativa no bairro.

No domingo, o momento da compostagem também é aproveitado para uma feira de troca entre moradores.“Não desejamos atuar apenas no ‘fim do tubo’, que é a reciclagem e a compostagem. Queremos impactar o processo de geração de lixo, o que significa reduzir o consumo”, enfatiza Mauad.

Inspirando o entorno

A  iniciativa do coletivo Vilas Beijas inspirou o bairro da Vila Mariana, no qual moradores  construíram sua própria composteira comunitária no fundo do estacionamento do Museu do Inseto (IB), em 2019.“Os voluntários pioneiros desconheciam o processo, de modo que essa primeira composteira funcionou como um piloto”, relata a professora aposentada de engenharia sanitária e ambiental, e ativista, Magda Beretta.

Composteiras comunitárias reduzem resíduos (Magda Beretta/Acervo pessoal)

Segundo ela, um erro comum em grupos iniciantes é a proporção dos materiais utilizados para cobrir os resíduos.“Quando pequena, com pouca umidade, o arejamento se torna insuficiente, a temperatura demora a aumentar e o processo lentifica. Já quando a falta de oxigênio é provocada por umidade excessiva ou composteira larga, processos anaeróbicos ocorrem e geram odores”, ressalta Beretta.

Quem deseja criar uma composteira comunitária no seu bairro deve estudar os diferentes tipos que existem. O “modelo UFSC” pode ser consultado em uma cartilha online gratuita. “Vale ainda conversar com os vizinhos, pois pode haver resistência em implantar a composteira por desconhecimento do processo”, orienta Oliveira.

Plano de resíduos

Disponibilizar opções de compostagem na cidade é responsabilidades dos municípios segundo o Plano Nacional de Resíduos Sólidos. “Em São Paulo, há cinco voltados somente para a compostagem de produtos de feiras e restaurantes, mas não domésticos”, lembra Mauad.

“Em São Francisco, nos Estados Unidos, o estado faz a compostagem e doa o adubo para os agricultores do entorno”, compara ela.

Com baixa taxa de reciclagem e sem sistema de compostagem, todo o lixo produzido acaba em aterros.

“O ideal é que houvesse três separações: recicláveis, orgânicos e os rejeitos. Estes últimos, sim, materiais que não possuem destino e que seriam enterrados”, orienta Mauad.

Aterros sanitários ficam pelo menos 60 km afastados da cidade, o que exige viajar com o lixo em caminhões e emitir gás carbônico, relacionado ao aquecimento global, na atmosfera. Eles ainda possuem vida útil curta, fazendo com que novo aterro ainda mais longe precise ser construído.

“No caso dos resíduos orgânicos, a degradação no lixão é sem oxigênio e produz gás metano, relacionado ao efeito estufa”, ressalta Mauad.

Se não houver praças, ela indica que composteiras fechadas e utilizando serragem podem ser instaladas em outros locais, como escolas, centros culturais, prédios, entre outros.  “A parte positiva é que, quando você começa a compostar, dificilmente consegue jogar seu resíduo orgânico no lixo novamente”, finaliza.

Veja mais:

Documentário gratuito explica como fazer a compostagem do lixo orgânico

Mutirões reúnem pessoas dispostas a recolher lixos das praias

Produtos de limpeza podem ser substituídos por ingredientes naturais

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