O debate sobre inteligência artificial (IA) e raça geralmente fica restrito à denúncia do viés dos algoritmos, que reproduzem racismo. Na produção de imagens por tecnologia generativa, pessoas negras são embranquecidas, estereotipadas ou relacionadas à pobreza. Porém, artistas negros também estão utilizando essas tecnologias para criar novas referências visuais sobre essa população, como em momentos de descanso, afeto e fantasia.
A lista inclui artistas como Mayara Ferrão, Ilka Cyana, Igi Lola Ayedun, Thiago Britto, Fábio Setti, Guilherme Bretas e Vitória Cribb, como explica o professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ) Daniel Meirinho, que pesquisa esse movimento no projeto “Futuros Visíveis”.
“A IA não é apenas uma ferramenta técnica para esses artistas, mas tem se transformado em um campo de produção de imaginários, ampliando o repertório que nos foi dado para imaginar pessoas negras”, explica.
“Uma criança branca aprende a imaginar seus antepassados a partir de símbolos coloniais como um navio, ou um ‘conquistador-invasor’, que alimentam a imaginação. Para a criança negra, tais símbolos são um passado reduzido à escravidão: nada aparece sobre afeto, descanso ou outro repertório para além da violência. O regime de expropriação escravocrata apagou corpos e histórias”, diz Meirinho.
“Então, quando artistas negros usam a IA para criar outras imagens, aumentam esse repertório visual. Vão além do que nos ensinaram a imaginar, permitindo olhar para o passado de outra forma e imaginar futuros antes difíceis de visualizar”, analisa.
“Quando artistas negros passam a criar imagens que não existiam, rostos que não foram preservados, arquivos que foram apagados e futuros que ainda não foram vistos, podemos questionar ou romper com imaginários coloniais”, completa.
Memória e representação
Entre os artistas negros que buscam usar a IA para expandir imaginários, Meirinho cita a artista visual baiana Mayara Ferrão e seu “Álbum de Desesquecimentos”, no qual usa pesquisa histórica e inteligência artificial para produzir um álbum fictício de relações que o arquivo colonial não preservou, como o amor entre mulheres negras e originárias (veja a entrevista com a artista abaixo).
“Ela vai além de tentar corrigir a história: cria uma possibilidade visual para aquilo que não recebeu o direito de se tornar memória”, comenta Meirinho.
Ilka Cyana assina o projeto “Faces Negras Importam”, que parte de um problema: figuras negras importantes da história brasileira aparecem ilustradas por imagens genéricas. “Ela trabalha com documentos, narrativas e IA para devolver singularidade a personagens como Tereza de Benguela, Luiza Mahin e Maria Felipa de Oliveira”.
Guilherme Bretas trabalha com arquivos de trabalhadores negros e utiliza IA, animação e projeção para fazer essas imagens voltarem ao espaço público.
“Já Thiago Britto não parte da IA como se ela fosse capaz de produzir uma imagem sozinha. Há repertório de fotografia, direção visual, trabalho de luz, montagem de referências e muita negociação com o sistema. Ele possui uma série chamada ‘Omi Aye’, de 2023, que constrói uma narrativa visual de vida submersa, atravessada por signos do candomblé e por uma relação entre ancestralidade e futuro”, recomenda Meirinho.
Já nos Estados Unidos, a obra If We Don’t, Who Will?, de Stephanie Dinkins, parte da ideia de que comunidades historicamente sub-representadas precisam participar da aprendizagem das máquinas.
“As pessoas compartilham histórias, memórias e experiências com as máquinas, e esse material passa a alimentar o sistema. Ou seja, o gesto artístico também está em criar outros dados, referências e repertórios”, analisa o pesquisador.
“A subjetividade negra é marcada historicamente pela violência, mas não pode ser reduzida a isso: existe o cotidiano, a espiritualidade, as festas e a família, que podem alimentar as máquinas e ampliar aquilo que elas conseguem imaginar sobre pessoas negras. É aí que esse uso da tecnologia deixa de ser apenas técnico e passa a ser também uma disputa por memória, representação e soberania narrativa”, diferencia Meirinho.
Arte pela palavra
Meirinho lembra que não existe uma arte negra generativa única. “Isso seria reduzir a complexidade do trabalho desses artistas. Encontramos aproximações, problemas compartilhados e certas estratégias entre eles”, alerta.
Além disso, explica que já havia um movimento parecido pré-IA, com artistas negros trabalhando temas correlatos em colagem, montagem, apropriação de arquivo, ficção, fabulação e performance. “Rosana Paulino, por exemplo, tensiona o arquivo colonial antes da inteligência artificial generativa”, exemplifica.
Mas, segundo ele, o que muda é a forma de mediação, já que a imagem, na inteligência artificial, é criada por meio da palavra – o prompt.
“Existir artisticamente é uma forma de insistir e procurar outras formas de fazer a máquina chegar a uma imagem que ela não oferece de forma imediata e como primeira opção”, conclui.
Entrevista com Mayara Ferrão
Instituto Claro: Como você definiria o ‘Álbum de Desesquecimentos’?
Mayara Ferrão: É uma tentativa de criar imagens para aquilo que por diferentes razões não conseguiu ser visto. Meu trabalho parte muitas vezes de arquivos, mas não para simplesmente reproduzi-los: me interessa tensioná-los, deslocá-los e imaginar aquilo que ficou de fora. É uma investigação sobre memória, imagem e imaginação, mas também um grande álbum de família e desejo.
Quais temas aparecem na sua obra?
Ferrão: Memória, ancestralidade, identidade, sexualidade, representação, apagamento, arquivo, corpo, desejo, amor e imaginação. A imagem nunca é neutra: quem aparece, quem fotografa, quem é fotografado, quem tem sua história preservada, quem desaparece dos registros… tudo isso também é uma forma de construir memória. Por muito tempo, pessoas negras e originárias foram representadas principalmente a partir do olhar do outro (homem branco). Então, para mim, produzir imagens também é uma maneira de disputar a possibilidade de narrar a nós mesmas, de inventar outras formas de presença e de construir outras memórias.

O que levou você a incorporar a IA aos seus processos de criação?
Ferrão: Recorri à IA para construir imagens surrealistas. Eu pesquiso fotografias históricas de pessoas negras e originárias e me incomodava perceber que elas carregavam um olhar colonial, que as transformavam em objeto de registro, classificação e estudo. Eu comecei a pensar nas imagens que poderiam existir se mulheres negras e originárias tivessem participado da construção de suas próprias representações, se elas pudessem experienciar suas existências, com nuances cotidianas, afetivas etc. A IA apareceu como uma ferramenta para abrir esse espaço de imaginação.
Como a IA é incorporada ao seu trabalho?
Ferrão: Meu processo não é simplesmente escrever um comando e aceitar a imagem que aparece. Existe pesquisa histórica, seleção de arquivos, escrita, composição, experimentação, edição e manipulação. Uso diferentes ferramentas para construir, reconstruir e transformar as imagens. É um processo muito mais próximo de uma colagem artesanal do que da ideia de apertar um botão e deixar a máquina criar sozinha.
Que possibilidades a inteligência artificial oferece para artistas negros que não estavam presentes em outras ferramentas ou linguagens?
Ferrão: A capacidade de criar imagens para aquilo que não foi suficientemente registrado. Isso não significa substituir o arquivo ou corrigir a história, mas poder trabalhar sobre lacunas. Por muito tempo, a produção de imagens sobre pessoas negras esteve condicionada a estruturas que nos colocavam principalmente como objeto do olhar. Hoje, diversas ferramentas, inclusive a IA, nos permitem experimentar outras posições: imaginar nossos corpos em outros contextos, construir narrativas que não foram fotografadas, criar futuros e passados possíveis. Mas não acredito que a IA sozinha seja libertadora: ela carrega os preconceitos das sociedades e estruturas tecnológicas que a construíram. Por isso, para artistas negros, existe também um trabalho crítico, disputar os imaginários que ela reproduz. É possível pegar uma tecnologia que também carrega os problemas do mundo e utilizá-la para fazer perguntas sobre esse próprio mundo. No ‘Álbum de Desesquecimentos’, existe uma espécie de inversão: utilizo uma tecnologia contemporânea, construída a partir de um enorme arquivo de imagens, para imaginar imagens que os arquivos históricos não produziram.
Como essa tecnologia pode ser utilizada para questionar ou romper com imaginários coloniais?
Ferrão: Me interessa a ideia de que determinados corpos podem ser definidos pelo olhar de quem tem o poder de representá-los. São imaginários que associam pessoas negras e originárias a determinados lugares sociais, que transformam seus corpos em objeto, que exotizam, inferiorizam, sexualizam ou apagam suas subjetividades. Ou que apresentam a história a partir de uma perspectiva única, como se ela fosse universal. A tecnologia pode questionar isso quando deixa de ser utilizada apenas para reproduzir imagens já existentes e produz outras possibilidades. No meu trabalho, por exemplo, me interessa imaginar mulheres negras em uma fotografia histórica não como objetos daquele olhar, mas como pessoas que possuem uma vida, uma intimidade, um desejo e uma história que não conseguimos acessar.
Além disso, quando falamos sobre inteligência artificial, muitas vezes a conversa fica concentrada na tecnologia. Mas há uma questão que atravessa tudo isso: quem tem o direito de imaginar?
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Crédito da imagem: Camila Tuon – divulgação