Foi no auge da epidemia do HIV/Aids no Brasil, durante as décadas de 1980 e 1990, que uma travesti brasileira ficou conhecida por sua solidariedade com pessoas LGBTQIAPN+ que, adoecidas, eram abandonadas por familiares. Era Brenda Lee, que transformou a sua própria residência na primeira casa de acolhimento a travestis e homossexuais com HIV/ Aids. A iniciativa culminou em um convênio público-privado com foco em pessoas trans até então inédito, além de garantir a ela o apelido de “anjo da guarda” das travestis.
“Palácio das Princesas”
Nascida em 10 de janeiro de 1948, em Bodocó (PE), Brenda Lee teve uma vida similar à de muitas travestis no mesmo período. “Veio de família abastada, mas foi rejeitada pela família por conta de ser feminina. Mudou-se para São Paulo aos 14 anos e trabalhou em hospitais e na antiga loja Mesbla durante o período de transição de gênero. Tentava esconder o cabelo comprido e os seios para trabalhar, até que um dia foi demitida, ao que atribuía o fato de estar mais feminina”, conta o autor da biografia “Brenda Lee: memórias entrelaçadas da Aids”, Ubirajara Caputo.
Sem emprego, encontrou subsistência na prostituição e chegou a passar um curto período em Paris. “Porém, afirmava não gostar da profissão e, na volta, abriu um pensionato para travestis, onde podia exercer o que gostava de fazer: cuidar”, relata Caputo.
A primeira residência daquele que seria apelidado de “Palácio das princesas” foi na Avenida Brigadeiro Luís Antônio; posteriormente, comprou uma casa na Rua Major Diogo, no bairro do Bixiga.
No início da década de 1980, a Aids explodiu nos grandes centros, e as travestis, além de serem mais vulneráveis à infecção ao vírus por atuarem como trabalhadoras do sexo, eram acusadas de transmitir o vírus para famílias heterossexuais, por serem procuradas por homens casados.
“Isso culminou em muita violência policial e perseguição estatal, incluindo prisões arbitrárias, torturas e assassinatos. Foi quando, ao ser entrevista para uma emissora de televisão sobre a tentativa de homicídio de travestis na Avenida República do Líbano, o repórter perguntou o que Brenda Lee faria se uma travesti que morava na sua pensão lhe dissesse estar com Aids”, recorda Caputo.
“Ela respondeu que não apenas acolheria como, se houvesse outras pessoas doentes abandonadas, essas poderiam lhe procurar que as acolheria também. Naquele período, uma das moradoras já vivia com HIV, mas Brenda Lee ocultava das demais para protegê-la”, acrescenta.
Por conta dessa entrevista, Paulo Roberto Teixeira, médico responsável pelo Programa de Aids do Estado de São Paulo, procurou Brenda Lee sobre a possibilidade de encaminhar para sua casa pessoas abandonadas pelas famílias que, ao receberem alta nos hospitais, acabavam nas ruas. Ela aceitou.
“Anjo da guarda”
Entre 1986 e 1988, Brenda Lee transformou sua residência em uma casa de acolhimento, financiando a iniciativa com recursos próprios. “Ela recebia alguma ajuda do governo, mas não era oficial. Com o dinheiro, ela ia reformando e adaptando sua casa. Houve uma luta grande de Paulo Roberto Teixeira para firmar uma parceria oficial com a Secretaria de Saúde, o que só aconteceria em 1988. Havia preconceito em `dar dinheiro do estado’ para uma travesti e ex-prostituta que acolhia pessoas marginalizadas”, contextualiza o biógrafo.
Aos poucos, muitas das pensionistas da casa foram abandonando a pensão, que permaneceu quase que exclusivamente atendendo pessoas em tratamento para o HIV/ Aids.
“Mais do que o medo de serem estigmatizadas por viverem em um local associado à Aids, as ex-moradoras relatam que sentiam medo e que era uma realidade dura de conviver no dia a dia. Havia pessoas muito adoecidas, óbitos, e nem todos tinham a disposição de Brenda Lee de dedicar uma vida aos cuidados”, descreve o biógrafo.
A rotina da casa incluía visitas semanais de infectologistas, enfermeiros, assistentes sociais, voluntários e, quando havia necessidade de deslocamento para exames, Brenda Lee acompanhava as moradoras aos hospitais, uma rotina quase que diária.
“Esse modelo de convênio entre Estado e um local particular era com certeza inédito no Brasil e na América Latina; provavelmente, no mundo também, porque não há relato de outro parecido”, diz Caputo.
Foi nessa época que Caputo conheceu Brenda. Após perder o marido, em 1988, vítima da Aids, ele passou a fazer trabalhos pontuais como voluntário.
O adeus a Brenda Lee
Brenda Lee teve a vida interrompida tragicamente ao ser assassinada em 28 de maio de 1996. Foi morta por um homem com o qual se relacionava.
“Ela se apaixonou por um rapaz de 24 anos que era um faz-tudo na pensão e atuava como motorista das pacientes e office boy. Ele se relacionava com Brenda, mas possuía esposa. Quando decidiu abandoná-la, cometeu um golpe: trocou um cheque e embolsou o dinheiro. Brenda o denunciou à polícia”, relembra Caputo.
O rapaz, então, armou um golpe junto do irmão, policial militar. “Ligou para a pensão, disse estar arrependido e marcou de encontrá-la. Depois, sugeriu que levassem de carro o irmão dele ao trabalho na Cantareira, onde a assassinaram. Ele apareceu no velório, quando a polícia o interrogou e o prendeu”.
A casa – que naquele momento atendia 27 pessoas – funcionou alguns meses sem Brenda Lee. O modelo, porém, passou a ser replicado em outros estados. “Pessoas da Secretaria do Estado de São Paulo que atuaram na implementação passaram a atuar no Ministério da Saúde. Outras casas de acolhimento a pessoas vivendo com HIV/Aids em situação de vulnerabilidade surgiram no país, muitas ainda hoje em atividade”, conta Caputo.
O legado de Brenda Lee permanece.
“Sua solidariedade mostrou um lado das travestis para além do estereótipo retratado pela mídia nos anos de 1980 e 1990. Brenda não se conformava com a posição subalterna na qual a sociedade tentava encaixar as travestis. Usou sua força por justiça social e a serviço de outras travestis desamparadas”, finaliza Caputo.
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