A hipersensibilidade sensorial faz com que pessoas que estão dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) enfrentem dificuldades no consultório odontológico. Sons de motores, luzes, cheiros fortes, o contato físico na boca, a sensação dos instrumentos e procedimentos imprevisíveis podem gerar ansiedade e crises.

“Muitas não toleram a escova esfregando os dentes, a consistência ou o sabor do gel dental, ou mesmo dedos na sua boca. Já atendi paciente de oito anos que nunca havia conseguido escovar os dentes devido à sensibilidade, até que aceitou uma escova elétrica”, relata a especialista em odontologia para pacientes com autismo Laís David Amaral.

“Outros não conseguem permanecer com os pés fora do chão, o que torna difícil o uso da cadeira odontológica”, acrescenta.

Contra essas dificuldades, existe o dentista especializado em pacientes com necessidades especiais, nome dado pelo Conselho Federal de Odontologia  (CFO) aos profissionais que atuam com pessoas com Síndrome de Down, autistas, vivendo com HIV, com diabetes, entre outras populações. No caso de autistas, o profissional especializado adapta o ambiente para reduzir estímulos e utiliza comunicação clara.

“Muitos pais pensam que a única opção para seu filho no dentista é a sedação e se surpreendem quando o veem colaborando. Porém, o resultado só é alcançado após um processo”, descreve a especialista.

Ela ainda destaca a importância do acompanhamento de um terapeuta ocupacional, que por meio de atividades diárias ajuda a criar tolerância a hábitos relacionados à boca. “O dentista atende o paciente no máximo uma vez por semana. Por isso não consegue trabalhar sozinho”, justifica.

“Sentar na cadeira não é sinal de sucesso”

A consulta com um dentista especializado em autismo dura mais de uma hora e envolve uma entrevista inicial, por telefone, para descobrir características do paciente e adaptações.

“Pergunto sobre idade, peso, remédios que tomam – já que alguns alteram salivação e estimulam cáries –, necessidades, gostos, se a família considera sedação e se já passou por outros procedimentos. Se nunca foi ao dentista, pergunto como reage a médicos ou pessoas usando branco”, relata Amaral.

“Quando o paciente chega, já sei nome, músicas preferidas e adicionei elementos do seu gosto no ambiente. Busco contato visual, criar conexão, faço massagens, uso óleo essencial de laranja no ambiente para trazê-lo para o meu ambiente”.

O exame clínico pode ser realizado no chão, no jardim ou em qualquer outro ambiente. Se ele permitir escovação, a avaliação será sem pasta para melhor visualização da boca. “Sentar na cadeira odontológica não é sinal de sucesso”, enfatiza.

Caso o faça, o dentista precisará ser rápido. “O tempo máximo de cadeira quando há colaboração é de 20 minutos”, compartilha Amaral.

E, durante o tempo de cadeira, é indicado usar objetos para ocupar as mãos, como bolinhas de apertar e personagens do gosto do paciente. “Isso traz conforto”, afirma.

A comunicação também é um fator importante, conforme explica o dentista especializado em pacientes com autismo Lucas Gazzinelli.

“Aproximadamente 70% dos meus pacientes são não verbais. Ou seja, é preciso buscar outras formas de comunicação; por exemplo, por meio de cartas, de figuras de jogos”, relata.

Quando optar por sedação?

Em caso de autismo em níveis altos ou de dor, pode-se realizar o procedimento com sedação oral, inalatória (com óxido nitroso) ou em centro cirúrgico junto a um anestesista. “A inalação não funciona com pacientes reativos ou com fobia, que podem não tolerar a máscara ou respirar pela boca”, descreve a especialista.

Há ainda recursos para estabilizar o paciente, com faixas protetoras.
“Evito ao máximo usá-las porque é desgastante e desconfortável para o paciente. Podem ser necessárias quando a família não pode custear sedação ou em casos de urgência”.

Já no dia a dia, o desafio é descobrir adaptação para incluir a escovação e o uso do fio dental na rotina. “A escovação não é negociável, porque a pessoa autista de grau severo com cárie pode bater a cabeça de dor”, lembra.

Ela ainda lembra que é comum os pais se sentirem culpados. “A escovação fica em segundo plano porque tarefas do dia a dia, como dar banho, vestir ou administrar medicamentos, já exigem muito esforço e eles fazem o melhor possível. O profissional não deve julgar”, ensina Amaral.

Falta de profissionais

A falta de dentistas especializados em autismo é uma barreira para o atendimento dessa população. “A maioria das graduações não oferece o curso, e quando o faz é de forma optativa, restando a especialização”, conta Amaral.

Porém, segundo o CFO, o Brasil possuía somente 1.046 profissionais especializados em pacientes com necessidades especiais em 2025.

Como resultado, há poucos profissionais na rede pública, e os serviços particulares são caros.

“Um autista será acolhido nos atendimentos gratuitos oferecidos por universidades. Porém, nesses espaços não haverá sedação, e o que temos hoje é famílias esperando por anos o procedimento via Sistema Único de Saúde (SUS)”, diz Amaral.

“Outros problemas incluem clínicas públicas para autismo sem dentista, sendo que uma dor de dente causa desequilíbrio emocional nesse paciente, bem como o foco no atendimento de crianças autistas, desconsiderando adultos”, apresenta Amaral.

Diferentes experiências

Foi difícil para Mirelle Viana Verissimo encontrar um dentista especialista para seu filho Dante, de oito anos.

“Desde cedo ele apresentou questões sensoriais. Quando era bebê, a limpeza com gazes era relativamente tranquila. À medida que começou a comer alimentos sólidos, por volta dos dois anos, ficou mais difícil mantê-lo com a boca aberta pelo tempo necessário e permitir que a escovação fosse realizada diariamente. Aos cinco anos, começaram a aparecer cáries e se iniciou a saga em busca de um dentista. Quando ele tinha uma crise, os profissionais desapareciam do consultório”, relata.

“Até chegar a um dentista especializado, os pais já gastam muito. E, ao encontrar o profissional certo, também é necessário pagar seu valor. Não é algo acessível”, lamenta Veríssimo.

Entre as adaptações que ajudaram Dante estão brincadeiras com a escova, dessensibilização com objetos na boca e o uso da televisão no consultório. Durante o tratamento das cáries, Verissimo conta que seu filho passou a entender a necessidade da higienização e que deveria permanecer calmo. “Tentar explicar era abstrato para ele, mas quando vivenciou a experiência percebeu que a falta de cuidados poderia gerar dor no futuro”, relata.

Soraya Sleman Hamed Issa, mãe de Nasser, de 27 anos, compartilha uma boa experiência com o SUS no interior de São Paulo.

“Quando pequeno, ele começou a morder objetos duros e tinha medo de escovar os dentes, o que prejudicou a dentição. A dentista especializada via SUS foi atenciosa e o cativou”, finaliza.

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Crédito da imagem: skynesher – Getty Images

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