Conteúdos

Este roteiro de estudos propõe uma análise interpretativa da novela “Campo Geral” de Guimarães Rosa. Aborda o gênero novela e suas características, assim como as características do autor, seu contexto histórico e literário, concluindo com exercícios de fixação, para auxiliar na aprendizagem.

● Apresentação do autor;
● Contexto histórico e literário;
● Apresentação do livro; e
● Análise da obra.

Objetivos

● Conhecer o autor Guimarães Rosa;
● Compreender a obra “Campo Geral”;
● Entender as características do gênero novela; e
● Observar a narrativa e seus componentes constitutivos.

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Palavras-chave:

Literatura brasileira. Guimarães Rosa. Campo Geral.

Proposta de trabalho:

Neste roteiro de estudos, você aprenderá sobre a obra de Guimarães Rosa e sua escola literária. Em seguida, você encontrará a apresentação do contexto histórico no qual o autor se inspirou para o desenvolvimento da obra. Além disso, neste material você verá a apresentação do livro e a análise de alguns trechos escolhidos. Ao final, realize os exercícios de fixação para compreender melhor a linguagem temática do autor. Sugerimos que, ao longo da leitura da novela, você realize um fichamento para fixar melhor as ideias principais. Assista aos vídeos, escute o podcast e acesse os links sugeridos. Bons estudos!

1ª Etapa: Apresentação do autor

O escritor e diplomata João Guimarães Rosa nasceu na cidade de Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908, e foi um dos principais escritores da Geração de 45. Filho de um juiz de paz, o escritor mudou-se para a cidade de Belo Horizonte para estudar Medicina, influenciado pelo avô médico. Depois de formado, exerceu a profissão no interior de Minas Gerais, onde atendia seus pacientes de casa em casa, pelas fazendas e zonas rurais.
Durante a Revolução Constitucionalista de 32, o escritor voltou a Belo Horizonte para ser voluntário, como oficial médico das Forças Públicas. Aos 28 anos, enquanto exercia a medicina, ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, com a coletânea de poesias denominada Magma, o que o motivou a continuar escrevendo.

Logo em seguida, o escritor deixou de atuar como médico e decidiu seguir a carreira diplomática, o que o fez viajar por muitos lugares, como Bogotá, Paris e Alemanha, entre outros. Por ser um amante das letras, aprendeu, ao longo de sua vida, nove idiomas, o que facilitou sua jornada diplomática.

Foi casado com Aracy de Carvalho, poliglota e representante do Ministério das Relações Exteriores. Aracy ganhou o prêmio “Justos entre as nações”, pois, junto de Rosa, emitiu autorizações para judeus fugirem do Holocausto e imigrarem para o Brasil. Guimarães Rosa ocupou a cadeira número dois da Academia Brasileira de Letras e recebeu diversos prêmios durante sua carreira literária.

A carreira literária de Guimarães Rosa foi marcada pelo regionalismo, por retratar a vida do sertanejo mineiro. Com a publicação do seu livro de contos Sagarana, em 1946, tornou-se um dos maiores destaques da literatura brasileira. A linguagem inovadora que o autor utilizava, bem como o cenário rural, são peças fundamentais para entender a narrativa roseana, pois é nessas características que grande parte de sua obra se baseia.

Após a publicação da coletânea de poesias, Rosa publicou o livro de novelas Corpo de Baile, em 1956. No mesmo ano, publicou Grande Sertão: Veredas, considerado um clássico da literatura brasileira, por trazer uma escrita próxima da oralidade sertaneja. Em 1962, publicou o livro de contos “Primeiras Estórias”, reunindo vinte e um contos que abordam os temas da loucura e da inocência infantil. Campo Geral, publicado em 1964, abordou a vida de Miguilim, personagem do conto “Manuelzão e Miguilim”, publicado na coletânea “Corpo de Baile”. Seu último livro publicado ainda em vida foi “Tutaméia – Terceiras Estórias”, em 1967, que reúne quarenta contos curtos.

Provocando profunda reflexão, a obra de Guimarães Rosa é marcada pelo regionalismo, focado no sertão de Minas Gerais, além de ser considerada universal, por trazer questões existenciais do homem, como o bem e o mal, a traição e a lealdade, o amor e a morte, dentre outras. Quando dizemos que uma obra é universal, isso significa que aquela narrativa traz temas que rompem a barreira do espaço e do tempo. Uma obra pode ser considerada universal quando relata dramas humanos que podem ser lidos e compreendidos por qualquer pessoa, em qualquer momento e lugar.

João Guimarães Rosa – Biografia do autor
Acesso em: 05 de março de 2022.

Geração de 45
Acesso em: 01 de março de 2022.

Revolução Constitucionalista de 32
Acesso em: 03 de março de 2022.

2ª Etapa: Contexto histórico e literário

A terceira geração modernista, terceira fase do modernismo ou, ainda, a fase pós-modernista, se dá entre 1945 e 1980, período marcado pela redemocratização do País, já que, a partir de 1945, tem-se o fim da ditadura da Era Vargas, o chamado Estado Novo.

No mesmo período, ocorre também o fim da Segunda Guerra Mundial, o fim do nazismo e o início da Guerra Fria. Dentre tantos eventos importantes, a última fase do modernismo ficou conhecida como “Geração de 45” e trouxe muitos temas psicológicos e sociais, fazendo uso, muitas vezes, de neologismos. Para compreender melhor o contexto histórico do autor e as transformações políticas e sociais desse período, assista à aula do professor Marcos Napolitano sobre as relações entre o modernismo e a política brasileira.

O movimento cultural desse período repercutiu, principalmente, no campo da literatura e das artes plásticas, destacando-se, nesse período, os seguintes autores: João Cabral de Mello Neto, Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Lygia Fagundes Telles, Ferreira Gullar, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes.

O campo literário possui características importantes, que marcam essa terceira fase, como a inovação linguística e estética, o regionalismo, o retorno à métrica e à forma, a temática social e a metalinguagem, entre outras. Os artistas da Geração de 45 buscaram criar uma expressão literária própria, que representasse o momento histórico-social da época. Para isso, buscaram, no rigor da forma, na busca pela liberdade criativa da linguagem, na fragmentação estética da palavra, na literatura engajada e no fluxo de consciência, o caminho para se distanciar dos precursores modernistas.

Ainda nesse período, a prosa da terceira fase modernista tinha como foco a prosa intimista, regionalista e urbana. Já na poesia, buscava-se o rigor da métrica e a exatidão da palavra. Guimarães Rosa destaca-se com a prosa regionalista, com a linguagem oral do sujeito sertanejo, além de usar em diversas narrativas o neologismo. Para o pesquisador e professor Luiz Roncari, a obra de Guimarães Rosa ultrapassa o simples entendimento:

O autor usa as palavras e as explora em todas as suas possíveis conotações, étimos perdidos e outros possíveis ainda não explorados. Ele é um escritor culto e recusa a escrita fácil, aquela que pretende só passar um recado; para ele a escrita tem também que ser saboreada, como uma fruta. É um momento de gosto, reflexão e descobertas. (RONCARI, L. 2020, n.p.)

Intelectuais e “brasilidade moderna”: do modernismo ao Estado Novo – Professor Marcos Napolitano/USP
Acesso em: 04 de março de 2022.

RONCARI, L. Campo Geral é um caminho sem volta para o leitor de Guimarães Rosa
Acesso em: 05 de março de 2022.

Terceira Geração Modernista
Acesso em: 04 de março de 2022.

3ª Etapa: Apresentação da narrativa

Guimarães Rosa escreveu “Campo Geral”, em 1956, na forma de novela. Esse tipo de narrativa possui algumas particularidades em sua estruturação, como a pluralidade temática, o enredo acelerado e a linguagem adaptada às circunstâncias históricas, além de um narrador onisciente, que sabe o que acontece no interior das personagens.

Uma das características mais importante do gênero novela é o fato de ela estar situada entre o conto e o romance, já que nos contos a narrativa segue mais rápida e curta, sem mudar o foco narrativo, enquanto no romance há diversos desdobramentos das personagens, com uma narrativa mais longa e detalhada.

Em “Campo Geral”, observamos a linguagem oral do homem sertanejo, por meio do olhar de um narrador onisciente que conta a história do menino Miguilim e sua vida na cidade de Mutum, no Campo Geral, com a sua família. Durante toda a narrativa observamos que o foco narrativo, além de manter um ritmo acelerado dos fatos, se mantém na problemática família de Miguilim.

O narrador observa a jornada de vida do menino e mostra que, embora o menino seja muito jovem, possui questões existenciais típicas dos adultos. O tempo da narrativa não é claro mas, em determinado momento, apresenta a personagem Mãitina, uma velha escrava que serve a família de Miguilim há muitos anos. Para o professor Roncari,

O narrador acompanha muito de perto o menino Miguilim, as suas dores, alegrias e descobertas do mundo. Por isso ela é também uma novela de formação, de um menino vivendo, sofrendo e descobrindo o mundo e os homens, mas também reagindo a eles (RONCARI, L. 2020, n.p.)

Ao ler “Campo Geral”, o estudante deverá observar as características apresentadas nas indicações de bibliografia sobre o gênero novela, identificando as características literárias da Geração de 45, além de perceber a experimentação da linguagem que Guimarães Rosa faz em suas obras.

Novela
Acesso em: 05 de março de 2022.

Campo Geral – Professor Luiz Roncari
Acesso em: 05 de março de 2020.

4ª Etapa: Análise da obra

Nesta etapa do roteiro de estudos, iremos abordar os elementos constitutivos da narrativa, como as personagens, o espaço, o tempo, o narrador e o enredo para, então, fazer uma análise interpretativa dos acontecimentos da obra.

Campo Geral tem como protagonista o menino Miguilim e é pela perspectiva de um narrador onisciente que a história do menino de oito anos é relatada ao longo do livro. Miguilim mora com os pais, Bero e Nhãnina, com a vó Izidra, com os irmãos Dito, Chica, Drelina, Liovaldo e Tomezinho, além do tio Terêz, em uma cidade muito distante chamada Mutum, no meio dos Campos Gerais.

Na primeira vez que o menino sai de Mutum, com o tio Terêz, ouve de algumas pessoas que Mutum era um lugar bonito e, ao voltar para casa, pergunta para a mãe se Mutum era mesmo bonito. A mãe do menino, amargurada, dizia que não gostava do lugar, pois o achava feio e triste:

Mas sua mãe, que era linda e com cabelos pretos e compridos, se doía de tristeza de ter de viver ali. Queixava-se, principalmente nos demorados meses chuvosos, quando carregava o tempo, tudo tão sozinho, tão escuro, o ar ali era mais escuro; ou, mesmo na estiagem, qualquer dia, de tardinha, na hora do sol entrar (ROSA, G. 2001, p. 19).

O tema central da narrativa é o amadurecimento do menino Miguilim, que enfrentará diversos desafios até fazer a sua passagem da vida infantil para a vida adulta. Durante toda a narrativa, o menino enfrenta perdas, dores e sofre com os problemas da sua família. Apesar de não entender o que acontece de verdade, o menino sente o clima tenso na casa.

Por ser visto ainda como criança, sua voz é abafada e seus desejos reprimidos perante uma família que enfrenta uma situação delicada de traição. Seu pai, Bero, descobre que a esposa está tendo um caso extraconjugal com seu irmão, o tio Terêz. O menino não entende o motivo de o pai expulsar o tio de casa e, ao ouvir a briga entre os pais, fica com medo do que pode acontecer com a família toda.

A primeira dor que Miguilim experimenta é a perda da cachorra Pingo-de-Ouro, que o pai dá para uns tropeiros que passam pela fazenda. A cachorrinha é o primeiro ser de quem o menino sente receber amor verdadeiro:

Mas, para o sentir de Miguilim, mais primeiro havia a Pingo-de-Ouro, uma cachorra bondosa e pertencida de ninguém, mas que gostava mais era dele mesmo. Quando ele se escondia no fundo da horta, para brincar sozinho, ela aparecia, sem atrapalhar, sem latir, ficava perto, parece que compreendia. Estava toda sempre magra, doente da saúde, diziam que ia ficando cega (ROSA, G. 2001, p. 22).

O pai, percebendo o apreço do menino pela cachorra, doa o animal, sem pensar nos sentimentos de Miguilim. Assim, o menino acha que o pai não gosta dele e por isso se esforça cada vez mais para que o pai comece a gostar:

Quando tornaram a seguir, o pai de Miguilim deu para eles a cachorra, que puxaram amarrada numa corda, o cachorrinho foi choramingando dentro dum balaio. Iam para onde iam. Miguilim chorou de bruços, cumpriu tristeza, soluçou muitas vezes (ROSA, G. 2001, p. 23).

A relação de Miguilim com a família é sempre de muitas incertezas. A forma como o menino observa seus parentes e age com eles demonstra uma imaturidade infantil, mas com reflexões de homens adultos. Esse olhar sensível de Miguilim para os assuntos da vida é sempre compartilhado com Dito, seu irmão. Para Miguilim, Dito é um menino muito sábio que entende o mundo dos adultos, apesar de ser mais novo que Miguilim. É ao lado de Dito que Miguilim irá refletir sobre todos os acontecimentos durante a narrativa.

Após o pai do menino descobrir a traição de Nhãnina com o seu irmão Terêz, expulsa-o de casa e ameaça a esposa de agressão. Todos ficam tristes, mas Miguilim é quem mais sofre, pois gosta do tio Terêz e não quer que o seu pai bata em sua mãe. Mesmo sem entender os motivos, Miguilim fica atento a todos os movimentos da casa e vai questionar Dito sobre o que está acontecendo. O menino, no entanto, pede a Miguilim que não se meta em assuntos dos adultos.
Nesse momento, começam uma ventania e uma forte chuva, o que os meninos interpretam como castigo de Deus, por causa do pai, da mãe e de tio Terêz:

Aí o Dito se abraçou com Miguilim. O Dito não tremia, malmente estava mais sério.
― “Por causa de Mamãe, Papai e tio Terêz, Papai-do-Céu está com raiva de nós de surpresa…” ― ele foi falou.
― Miguilim, você tem medo de morrer?
― Demais… Dito, eu tenho um medo, mas só se fosse sozinho. Queria a gente todos
morresse juntos…
― Eu tenho. Não queria ir para o Céu menino pequeno.
Faziam uma pausa, só do tamanho dum respirar (ROSA, G. 2001, p. 28).

A expulsão de tio Terêz representa a segunda perda de Miguilim, pois agora não pode mais contar com a amizade do tio, que o ensinava a caçar passarinhos e falava o quanto era bonito o Mutum. Os dias passam tristes, até a chegada de um papagaio chamado Papaco-o-paco, que aprende muito rápido o nome de Miguilim, mas se recusa a aprender o nome de Dito.

Com a ausência de tio Terêz, Miguilim quer ajudar o pai no que pode, para que ele se orgulhe do filho. Como forma de tentar se aproximar, já que a relação deles não é harmoniosa, o menino leva todos os dias a marmita do pai. Certo dia, tio Terêz aparece no meio do caminho e intercepta o menino. Miguilim, assustado ao ver o tio escondido, fica nervoso com a situação, pois seu tio pede que ele leve um bilhete escondido para sua mãe, deixando o menino em dúvida sobre o que fazer. Essa dúvida, então, atormenta a mente da criança, pois Miguilim gosta do tio, mas entende que o que ele pediu não é correto.

No dia seguinte, tio Terêz encontra o menino novamente, para saber da resposta, e Miguilim começa a chorar, dizendo que não entregou o bilhete, pois não gostava de mentiras e tinha medo do que poderia acontecer. Assim que o menino termina de explicar os motivos, o tio o abraça e diz que entende Miguilim e que tudo bem ele não ter entregue o bilhete. Tio Terêz parte para outra cidade longe do Mutum, o que, de certa forma, faz o coração de Miguilim se acalmar mas, ao mesmo tempo, doer, pois sente a perda do tio, de quem tanto gostava. Precisa lidar, assim, com a dor de ver um amigo indo embora.

Uma das perdas mais marcantes de Miguilim é a perda do irmão Dito, que ele considerava seu guia. Ao passear pelos recantos de Mutum, Dito pisa em um vidro e acaba com uma infecção muito grave. Os pais pedem aos conhecidos que tragam remédios para curar o menino.

Dito permaneceu doente por muitas semanas, e Miguilim sempre esteve ao seu lado, conversando sobre coisas da vida e sobre a relação deles com a família:

Miguilim queria ficar sempre perto, mas o Dito mandava ele fosse saber todas as coisas que estavam acontecendo. ― “Vai ver como é que o mico está.” O mico estava em pé na cabacinha, comendo arroz, que a Rosa dava. ― “Quando o vaqueiro Salúz chegar, pergunta se é hoje que a vaca Bigorna vai dar cria.” ― “Miguilim, escuta o que Vovó Izidra conversar com a Rosa, do vaqueiro Jé mais a Maria Pretinha.” O Dito gostava de ter notícia de todas as vacas, de todos os camaradas que estavam trabalhando nas outras roças, enxadeiros que meavam. Requeria se algum bicho tinha vindo estragar as plantações, de que altura era que o milho estava crescendo (ROSA, G. 2001, p.62).

A morte de Dito caiu como uma bomba na vida de Miguilim. Ele nunca estivera tão triste, desde quando a Pingo-de-Ouro foi levada embora. Agora, não tinha mais a cachorra, o tio e nem o irmão. Todos na casa estavam tristes, e ninguém queria falar sobre o menino que tinha morrido tão novo. Quando estavam todos esquecendo, o papagaio aprende a dizer o nome de Dito, o que faz a família ficar mais triste ainda.

E um dia, então, de repente, quando ninguém mais não mandava nem ensinava, o Papaco-o-Paco gritou: — “Dito, Expedito! Dito, Expedito!” Exaltado com essa satisfação: ele tinha levado tempo tão durado, sozinho em sua cabeça, para se acostumar de aprender a produzir aquilo. Miguilim não soube o rumo nenhum do que estava sentindo. Todos ralhavam com Papaco-o-Paco, para ele tornar a esquecer depressa do que tanto estava gritando (ROSA, G. 2001, p. 68)

Assim que perde o irmão, Miguilim fica muito doente e todos acreditam que o menino pode morrer a qualquer momento. O pai, que sempre tratou o menino com dureza, fica desesperado ao ver o menino doente. Em um ato de ciúmes, o pai mata Luisaltino, seu companheiro de trabalho. Em seguida, suicida-se. Miguilim, ainda de cama, fica sabendo da morte do pai, pela avó e pela mãe. Aos poucos, vai melhorando da doença.
Certo dia, a família recebe a visita do médico José Lourenço, que percebe que Miguilim não enxergava direito. Ele empresta seus óculos ao menino, que, então, pela primeira vez, enxerga a beleza de Mutum.

Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa (ROSA, G. 2001, p. 81).

Doutor José Lourenço se oferece para cuidar do menino em outra cidade e ensinar a ele um ofício. Miguilim parte para um recomeço, longe de Mutum e de sua família, mas com uma certeza no coração: o Mutum era bonito!
A saída de Miguilim do Mutum é a mudança pela qual o menino precisava passar para sair da vida infantil e entrar na vida adulta. As perdas que Miguilim sofreu durante toda a narrativa fazem com que o menino deixe a imaturidade e encare os desafios da vida adulta. Sobre a obra Campo Geral, a professora e pesquisadora Beth Brait comenta:

Desse mundo infantil de afetos, deslumbramentos e tristezas, há um sem-número de coisas a encantar a personagem, de modo a que com elas também nos encantemos: a viagem primeira, a beleza ou a feiura do Mutum (controvérsia entre Nhanina e Miguilim); o irmão Dito, a quem amava pela alma e respeitava pela inteligência, um irmão que pela morte o fez viver a dor de haver a morte; o diagnóstico da miopia, prefácio da visão que lhe foi dada apenas no provar de uns óculos etc. (BRAIT, B. 1982, p. 84).

E você, caro estudante, já leu Campo Geral? Emocionou-se com a vida do nosso amigo Miguilim e suas estórias? Faça um resumo do livro, com as suas próprias palavras, sempre pensando no começo, no meio e no fim da narrativa. Observe as palavras que o autor utiliza, a sonoridade das palavras e os neologismos. Tudo isso é importante para compreender a forma da narrativa e a sua constituição. Indicamos, ainda, o filme “Mutum”, da cineasta Sandra Kogut. Bons estudos!

Podcast sobre Campo Geral
Acesso em: 01 de março de 2022.

Obra Campo Geral
ROSA, G. Campo Geral. Editora Nova Fronteira, 11ª edição, 2001.

Texto narrativo e tipos de narrador
Acesso em 07 de março de 2022.

Guimarães Rosa – Campo Geral
BRAIT, Beth. Literatura Comentada. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

5ª Etapa: Exercícios de fixação

As questões 1 e 2 referem-se ao texto abaixo:

Miguilim espremia os olhos. Drelina e a Chica riam. Tomezinho tinha ido se esconder.
– Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim…
E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.
– Olha, agora!
Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo… O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava tudo como era, como tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia. Coração de Miguilim batia descompassado, ele careceu de ir lá dentro, contar à Rosa, à Maria Pretinha, a Mãitina. A Chica veio correndo atrás, mexeu: – “Miguilim, você é piticego…” E ele respondeu: – “Donazinha…” Quando voltou, o doutor José Lourenço já tinha ido embora.

(Guimarães Rosa. Manuelzão e Miguilim. “Campo Geral”).

Questão 1– (ITA) A narrativa:

I. Desenvolve-se num universo fantástico, corroborado pela subversão da linguagem.
II. Não retrata as experiências afetivas entre Miguilim e as outras personagens, pois o foco está nas ações dele.
III. É escrita em terceira pessoa, mas a história é filtrada pela perspectiva do menino Miguilim.

Está(ão) correta(s)
a) apenas I.
b) apenas I e II.
c) apenas II.
d) apenas III.
e) todas.

Questão 2– (ITA) Os diminutivos do segmento contribuem para criar uma linguagem
a) afetada.
b) afetiva.
c) arcaica.
d) objetiva.
e) rebuscada.

Questão 3- (EEWB) Leia o trecho abaixo, de Campo Geral, e assinale a alternativa incorreta:

“Ah, tio Terêz devia de ir embora, de ligeiro, ligeiro, se não o Pai já devia estar voltando por causa da chuva, podia sair homem morto daquela casa, Vovó Izidra xingava tio Terêz de “Caim” que matou Abel, Miguilim tremia receando os desatinos das pessoas grandes, tio Terêz podia correr, sair escondido, pela porta da cozinha… Que fosse como se já tivesse ido há muito tempo…”

a) O narrador figura–se como um adulto, a fim de contar efetivamente a história, mas visualiza os fatos como se pertencesse ao íntimo do universo infantil, diminuindo a distância entre as duas realidades.
b) A intertextualidade presente no trecho, a repreensão de Vovó Izidra em relação ao ato do filho, é uma das várias referências à religião feitas ao longo da obra, justificáveis pelas fortes tradições sertanejas.
c) A expressão de ligeiro, ainda que apresente o modo com o qual Tio Terêz devia de ir embora, não pode ser considerada um adjunto adverbial do verbo ir, pois tem a estrutura de locução adjetiva.
d) O que tem funções distintas no trecho: o primeiro é um pronome relativo que retoma o nome Caim e o segundo é uma partícula expletiva ou de realce, podendo ser suprimida sem que o sentido se altere.

Questão 4– (EEWB) Observe os dois trechos abaixo, o primeiro de Campo Geral, o segundo de Miopia Progressiva:

“Ser menino, a gente não valia para querer mandar coisa nenhuma.”
“Em suma, eles se entendiam, os membros de sua família; e entendiam-se à sua custa.”

Analisando os trechos percebemos que os meninos se diferem quanto a(o):
a) autonomia financeira.
b) posição ocupada na família.
c) região onde moram.
d) número de integrantes da família.

Questão 5– (UFG) – Diversos motivos narrativos compõem a trama de “Campo Geral”, texto da obra Manuelzão e Miguilim, de Guimarães Rosa. Qual o motivo narrativo principal para a composição do enredo desse conto?
a) As desavenças entre Mãitina e a avó de Miguilim.
b) A instabilidade sentimental da mãe de Miguilim.
c) A observação do mundo pela ótica de Miguilim.
d) A rivalidade entre o Tio Terêz e o pai de Miguilim.
e) A solidariedade entre os irmãos de Miguilim.

Questão 6– (UFRGS) – Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações sobre sentimentos de personagens de Campo Geral, da obra Manuelzão e Miguilim, de Guimarães Rosa.
( ) Miguilim odiava seu Pai, pela violência das surras e castigos que ele lhe impunha: mandar embora a cadela ou soltar os passarinhos que estavam nas gaiolas.
( ) As rezas da avó e os feitiços de Mãitina enfim surtiram efeito: Miguilim passou a se sentir culpado pela morte do irmão.
( ) Miguilim detestava o Mutum, mas, com a ajuda dos óculos do doutor, acabou finalmente descobrindo que se tratava de um lugar bonito.
( ) Dito sentiu inveja de Miguilim porque Papaco-o-Paco era capaz de dizer “ – Miguilim, Miguilim, me dá um beijim”, mas não conseguia pronunciar “Dito”.

A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
a) F – V – F – F.
b) F – V – F – V.
c) V – V – F – V.
d) V – F – V – V.
e) V – F – V – F.

Gabarito

Questão 1 – d) apenas III.

Questão 2 – b) afetiva.

Questão 3 – c) A expressão de ligeiro, ainda que apresente o modo com o qual Tio Terêz devia de ir embora, não pode ser considerada um adjunto adverbial do verbo ir, pois tem a estrutura de locução adjetiva.

Questão 4 – b) posição ocupada na família.

Questão 5 – c) A observação do mundo pela ótica de Miguilim.

Questão 6 – d) V – F – V – V.

Questões disponíveis em Beduka.
Acesso em: 09 de março de 2022.

Roteiro de estudo elaborado pela Prof.ª Fernanda Alves de Souza.
Revisão textual: Professora Daniela Leite Nunes.
Coordenação Pedagógica: Prof.ª Dr.ª Aline Monge.

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