Publicada pela primeira vez em 1985, Calvin e Haroldo (ou “Calvin and Hobbes”, no original em inglês) é uma tirinha sobre um menino e seu tigre de pelúcia, que ganha vida em aventuras imaginárias. Escrita e ilustrada pelo norte-americano Bill Watterson, ela pode ser utilizada no ensino de história, como mostra a dissertação da professora Sarita Souza dos Santos para o Mestrado Profissional em Ensino de História, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).

“O menino e o tigre tratam de assuntos do cotidiano e mostram que os temas da história estão mais próximos do que os alunos supõem. Além disso, revelam que mesmo um menino que odeia a escola produz conhecimento e pode analisar criticamente o mundo à sua volta”, aponta.

Segundo a pesquisadora, os temas curriculares que podem ser trabalhados a partir dos quadrinhos da dupla passam pelo renascimento, guerra fria, revolução industrial, reforma protestante e feudalismo. Há também assuntos como o ofício do historiador, tempo e temporalidade, cronologia e fontes de pesquisa. “Podem ser utilizadas na inserção de novos conteúdos, comparando os discursos das tiras com o cotidiano dos alunos e gerando, assim, maior atenção”, sugere ela, que recomenda o material para o ensino médio e fundamental 2.

Agente histórico

Em diversos momentos o menino Calvin aparece no contexto da escola, como quando, em uma prova, surge respondendo uma pergunta sobre a importância do canal de Erie. “No sentido cósmico, provavelmente nenhuma”, comenta ele, que completa: “Nós, pessoas de visão ampla, raramente nos tornamos pesquisadores”.

Segundo Santos, exemplos como esse ajudam a discutir o ofício do historiador. “Em tempos de pós-verdade ou de opinião desprovida de conhecimento, é importante apresentar o objetivo dessa ciência, que tem método e rigor. Para que os alunos saiam do discurso de que a História é opinião”, acrescenta.

Uma das tirinhas analisadas na dissertação de Sarita Souza dos Santos (crédito: reprodução)

O material também ajuda a desfazer a noção de que a história é baseada apenas em memorização de heróis e datas específicas. “Isso engessa o pensamento. Podem-se estabelecer outros métodos que propiciem o diálogo e o pensamento crítico”, reforça.

Em outros momentos, o personagem aparece preocupado em ‘deixar a sua voz’ para a posteridade, escrevendo sua trajetória sob seu próprio ponto de vista. A professora utilizou essa sequencia para discutir quem são os agentes da história. “Há a perspectiva de que somos todos nós, mas também que ela é constituída por anônimos, corroborando, inclusive, com a proposta de não ser apenas composta por grandes nomes ou datas a ser comemoradas”, associa.

Arqueologia

Em outra prova, Calvin é questionado sobre qual evento teria acontecido em 1773. Ele responde que não acredita em tempo cronológico, o que possibilita debater com os estudantes a não-linearidade da história. “A história como disciplina tem suas divisões em Eras – Antiga, Medieval, Moderna, Contemporânea – e também geograficamente, como história da América e do Brasil. Recortes que favorecem a didática em sala de aula. Entretanto, alunos podem ter dificuldade em perceber que mais de um evento acontecia simultaneamente em outros espaços”, analisa.

Para completar, há ainda uma fase em que Calvin e seu tigre se envolvem em escavações, o que ajuda a explicar as funções do arqueólogo e do paleontólogo. “As especificidades de cada especialidade – seja historiador, arqueólogo, paleontólogo ou paleoantropólogo – recaem justamente em seu objeto de pesquisa. Os estudantes têm a chance de compreender melhor que são as pesquisas e não os achismos que compõem as ciências”, assinala.

Final inusitado

Para levar Calvin e Haroldo para a sala de aula, Santos recomenda ao professor se atentar à quebra de raciocínio entre os primeiros para o ultimo quadro da tirinha, algo típico desse gênero. “É o chamado final inusitado, que é o gerador de humor das tiras”, aponta. “Muitas vezes, nos diálogos dos primeiros quadros o raciocínio de um tema é tratado com seriedade, mas o desfecho não condiz com a lógica”, diz.

As tiras e suas indicações de uso para professores de história podem ser encontradas na dissertação da pesquisadora, disponibilizada online. Outra alternativa é buscar em livrarias e sebos coletâneas dos personagens. Contudo, ela orienta que sejam evitados conteúdos compartilhados nas redes sociais. “Falas são modificadas ou quadros cortados”, adverte.

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