Era 1996 quando o cartunista Adão Iturrusgarai lançou a tirinha Aline no jornal Folha de São Paulo. A protagonista é uma jovem que mora com seus dois namorados, Otto e Pedro, e vive de forma libertária. A narrativa ainda virou série de televisão, em 2008, com duas temporadas estreladas pela atriz Maria Flor. A tirinha ilustra bem o gênero humor e pode ser usada em sala de aula para trabalhar intertextualidade com turmas do ensino médio.

“Aline foge ao estereótipo padrão que pode se esperar de uma personagem feminina típica, como ser submissa, perdida entre afazeres domésticos e emprego formal. Ela é a imagem da liberdade e seu dia a dia com os dois namorados mostra algumas conquistas das mulheres em oposição a padrões morais estabelecidos pela sociedade”, explica a mestre em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e professora da rede estadual Aline Souza de Lima.

Leia também: 5 livros para inspirar o ensino da intertextualidade em sala de aula

“A partir de personagens comuns, uma mulher e dois homens, acredito que a intenção do cartunista foi abordar temas considerados tabus em nossa sociedade, como o sexo como algo prazeroso para a mulher”, opina. O enredo, porém, vai além da sexualidade. “Acho que o professor tem dificuldade de pensar nas tiras da Aline para sala de aula por achar que esta aborda apenas esse assunto, o que não é verdade. Há humor e discussões diversas, como trabalho infantil”, desmistifica o professor do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico no Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) Alex Caldas Simões. Ele é autor do artigo “Aline, gêneros e leitura: por novos paradigmas de ensino para o gênero tirinha no ensino básico”.

Humor como gênero

Em Aline, há tanto histórias curtas — de três a quatro quadros com desfecho cômico — como um mesmo tema que é trabalhado em uma sequência de tiras seriadas. Ambas possibilidades podem ser encontradas no livro Aline: Antrologia (2011). O humor, aliás, faz com que as tirinhas da Aline sejam uma boa opção para a educação básica, indicadas para as séries finais do ensino fundamental 2 e para o ensino médio. “Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de Língua Portuguesa e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) incentivam a diversidade textual em sala de aula e as tiras de Aline são uma ótima pedida para isso”, explica Simões.

“O papel que o humor cumpre é o de quebrar expectativas e provocar o riso. Este humor busca a contradição, a transgressão e, portanto, traz provocações que podem ser discutidas, de modo a suscitar distintos pontos de vista e opiniões”, destaca Souza, que é autora do artigo “A construção do humor em Adão iturrusgarai: uma análise pragmática das tiras de Aline” (2017) .

Para trabalhar esse gênero, Simões sugere a série ‘Aline Gorda’ – momento em que a personagem se sente acima do peso e discute o assunto com seus namorados.
“No artigo, proponho uma série de perguntas de interpretação que levam aluno a identificar as características do gênero tirinha e os efeitos de sentido do texto escolhido. O trabalho consiste em esconder e revelar partes do texto. Assim, o aluno vai criando hipóteses de leitura à medida em que vai lendo a série Aline Gorda”.

Entre as perguntas orais feitas à classe, Simões propõe: “Conhecendo a Aline, que tipos de histórias podem aparecer em Aline Gorda? Como alguém descobre que está gordo? Como Aline descobriu que estava gorda?”. Pelos materiais não-textuais dessa sequência, os alunos puderam checar se Oto e Pedro gostaram de ver Aline gorda. Além disso, discussões correlatas sobre padrões de beleza e gordofobia podem ser travadas com a turma.

Intertextualidade

Outra forma é aliar as tirinhas a textos de outros gêneros que dialogam entre si. “No livro “Aline: Antrologia”, é possível aliar a tira 2 da série Alininha com a citação à Declaração Universal dos Direitos da Criança e do Adolescente. A tira aponta para um outro texto, a declaração, gerando uma cadeia de intertextualidade que provoca uma leitura mais rica”, recomenda Simões.

A depender da temática da tira cômica seriada, Aline pode servir de introdução para outros conteúdos escolares. “Pode-se falar de trabalho e educação com a série Alininha ou quando Pedro tenta arrumar um emprego (Ed. LPM Pocket, n1); ou falar de drogas e química na série Lesada de LSD (Ed. LPM Pocket, n1). A TPM também é assunto nas tiras (Ed. LPM Pocket, n2)”, sugere Simões.

Orientações na escolha da tirinha

Como a tirinha pode abordar alguns temas adultos, Souza sugere escolher o conteúdo de acordo com a faixa etária da turma. “A fim de suscitar as reflexões propostas naqueles textos”, destaca. “Acho que todo tema pode ser abordado na escola. Mas, acima de tudo, o professor deve estar confortável com a temática para fazer isso”, complementa Simões.

O professor ainda aponta cuidados na hora de trazer tiras cômicas seriadas para classe. “Procure ler toda a história antes de levar só uma parte. É um problema comum em livros didáticos, que muitas vezes apresentam apenas uma tira recortada. Isso dificulta o entendimento do humor da narrativa criada”, aconselha.

Veja mais:

Níquel Náusea: tirinha brasileira pode ser usada no ensino de biologia

Tirinhas do Recruta Zero ilustram Guerra da Coreia e Guerra Fria nas aulas de história

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Talvez Você Também Goste

Chernobyl: série ajuda a explicar radioatividade e guerra fria no ensino médio

Professores indicam como explorar capítulos em aulas de química, física, história e geografia

Karatê na aula de educação física: como apresentar a arte marcial?

Brincadeiras, cartilhas e videoaulas ajudam professor a estruturar sequência didática

Como usar o infográfico como recurso pedagógico?

Atividades ajudam aluno a hierarquizar informações e relacionar diferentes partes do texto

Receba NossasNovidades

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.