Em uma mesa, Deus, Shiva e entidades maia e nórdica comentam sobre suas obras sagradas. “O meu livro também tem dilúvio”, comparam. O trecho é um exemplo da tirinha “Um Sábado Qualquer”, criação do quadrinista Carlos Ruas que surgiu em um blog, em 2009, com objetivos precisos. “Quero estimular a criticidade e a diversidade religiosa. Ajudar o aluno a pensar que o deus dele não é melhor do que o do amigo”, explica.

A relação de Ruas com a educação é antiga. Há tempos, ele disponibiliza gratuitamente seu conteúdo para professores de diferentes disciplinas usarem em aula. Já participou de formação de professores da rede pública sobre uso pedagógico de quadrinhos e, mais recentemente, lançou o livro “De onde viemos?”. A obra narra a criação do mundo pela perspectiva de diferentes religiões e pela ciência. “Desejo estimular o aluno a rir e a querer ver mais sobre aquele tema em aula. A tirinha é um apoio”, compartilha. A seguir, o autor fala mais sobre a relação de seu trabalho com o ambiente escolar.

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Instituto Claro: Como surgiu “Um Sábado Qualquer”?

Carlos Ruas: É a união de duas paixões: desenho e religião. Amo desenhar desde criança. Era chargista do jornalzinho da escola e desenhava as carteiras. Na adolescência, vivia em uma família que era um liquidificador de religiões: tinha avó espírita, pai ateu e estudava em colégio católico. Senti curiosidade em estudar religião, mas aspectos históricos, não crenças. Quando me formei na faculdade, resolvi criar um blog com minhas produções e escolhi as religiões como tema.

Qual o objetivo de “Um Sábado Qualquer”?

Ruas: Não é catequisar, mas estimular debate e pensamento crítico. Assim, escolhi colocar vários deuses na mesma mesa para conversar. Eles estão na mesma linha e patamar, não há um maior ou melhor. Na mesa, eles trocam informações, farpas e refletem sobre porque um é considerado certo e o outro errado. Já o título faz referência à passagem da Bíblia que diz que Deus criou o universo e descansou no sétimo dia, o sábado. Os diálogos acontecem nesse momento de descanso dele.

Você enxerga potencial educativo nas tirinhas?

Ruas: Sim. Eu não fui um bom aluno. Não era bagunceiro, mas desmotivado. Não via sentido na escola. Achava que devia aprender para passar na prova, não que aquele conhecimento seria determinante para o meu futuro. A obrigatoriedade de ter que aprender me afastava. Demorou anos para eu descobrir prazer em aprender e que o método de ensino deixava o estudo chato. Quando descobri formas legais de aprender e no meu ritmo, uma chave mudou. Isso reflete nas minhas tirinhas, pois produzo pensando em alunos como eu era. Quando coloco personagens como Darwin e Einstein para falar sobre evolução ou física, não é para aparecer em livros didáticos ou para ensinar o conteúdo. Quero estimular o aluno a rir e a desejar ver mais em aula. É um apoio.

um sábado qualquer 24 territórios
Arte de ‘Um Sábado Qualquer’, de Carlos Ruas (crédito: divulgação)

“Um Sábado Qualquer” pode servir para debater tolerância religiosa na escola?

Ruas: Sim, o objetivo é estimular pensamento crítico e diversidade religiosa. Não quero trazer certeza, mas dúvidas, para que o aluno vá atrás do conhecimento, pesquise e surjam novas dúvidas. Certezas são aconchegantes, mas trazem estagnação. Quando coloco Deus conversando com Oxalá, penso em atingir aquela criança que carrega as certezas da sua cidade, família e que pode ter um pensamento religioso tão concreto que a faz discriminar outras religiões. Falo um pouco de cada divindade para ajudá-lo a perceber que cada pessoa tem uma verdade, que ela é relativa, e a minha não é melhor do que a do meu amigo ou do que as outras 9 bilhões de pessoas no mundo.

O livro “De onde viemos” também tem essa função?

Ruas: Ele traz essa mesma provocação ao abordar diversos criacionismos do mundo: cristão, nórdico, egípcio, iorubá, dos povos tradicionais brasileiros e outros. O que eles falam sobre a origem do mundo? Além disso, mostrar que big bang e seleção natural podem ser aprendidos de maneira fácil.

Você é um dos participantes do canal de divulgação científica Blabalogia. Como surgiu essa parceria?

Ruas: O Emílio Garcia, criador do canal, fez um jantar com diversos divulgadores científicos do Youtube e me chamou. Estavam lá o Átila Iamarino, Pedro Loos e tantos outros. Tornamo-nos amigos, participo das lives às quintas-feiras e, inclusive, peço ajuda deles antes de publicar tirinhas que falam de temas científicos.

Você já ofereceu workshops para professores da rede pública do interior paulista sobre uso pedagógico dos quadrinhos. Como é a interação com os docentes?

Ruas: É sempre bom estar com professores, que estão na linha de frente da educação. Houve uma troca importante e eu aprendi muito. Muitos dos jovens que liam meu blog quando comecei hoje estão na licenciatura e me marcam nas redes sociais dizendo que usam as tirinhas de “Um Sábado Qualquer” em classe. Isso me deixa lisonjeado e feliz. Os alunos também me marcam no Instagram quando as minhas tirinhas aparecem em avaliações e atividades escolares. Aristóteles dizia que você está bem quando sua vida se encaixa na engrenagem do universo. Tal como o mar, que mareia e o vento, que venta. Eu me sinto encaixado no universo e feliz com o que eu faço: quadrinhos.

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