O mapeamento da sala de aula ou espelho da classe é uma ferramenta que consiste em determinar onde cada aluno irá sentar.“Essa estratégia de gestão da turma é introduzida após observar as interações dos alunos, se há conversas paralelas, a estrutura da sala, a iluminação, a posição de janelas e ventiladores, se há estudantes com deficiências ou necessidades especiais”, lista a mestra em políticas públicas e professora do Instituto Federal do Ceará (IFCE) Thatiane Fernandes de Sousa.

Entre possíveis vantagens da prática estão aproximar colegas de gêneros, etnias e níveis de aprendizagem diferentes; estimular inclusão de alunos com deficiência e promover um ensino personalizado às suas necessidades; combater conversas paralelas e melhorar a percepção dos alunos faltosos – fator fundamental para prevenir o abandono escolar .“Em turmas que apresentam baixo rendimento, predeterminar o lugar do aluno pode colaborar com a organização, o foco e a disciplina”, defende Sousa.

Ponderações

Doutoranda em Educação Brasileira e professora da rede estadual do Ceará, Alexsandra dos Santos Barbosa enxerga pontos negativos no mapeamento de sala de aula. Para ela, a prática pode desestimular a autonomia do aluno – habilidade socioemocional requerida na educação básica – e fortalecer a ideia do professor-disciplinador.

“Gasta-se tempo pedagógico escolhendo o lugar onde o aluno vai sentar ao invés de ajuda-lo a usar suas potencialidades para fazer uma boa escolha. Lembrando que o público-alvo da escola pública é o filho do pobre que já sofre outras violências. Assim, se esse estudante não pode escolher onde vai sentar em um local que passará boa parte do seu dia, o que poderá realmente escolher?”, questiona.

“Sou a favor do aluno ter a autonomia de sentar onde quiser e colher as consequências em caso de indisciplina ou de ter seu rendimento prejudicado por conversas paralelas. Além disso, é preciso ensinar que o estudante não tem o direito de atrapalhar o outro”, contrapõe.

Para Barbosa, o mapeamento de sala de aula também pode gerar desentendimentos e desgaste entre professores e alunos.“Muitos alunos desrespeitam o mapeamento feito pelo professor e teimam em sentar com seus colegas. Já presenciei professores que colaram papeis com o nome dos alunos em cada cadeira e estes foram arrancados, docentes que chamaram os pais para impor que o aluno sentasse onde ele escolheu, entre outros”, relata.

A professora observa que o mapeamento tende a não se sustentar por muito tempo. “Penso também que a escola já tem outros atritos severos para lidar e mediar, muitos deles que exigem a parceria com os alunos, e isso acaba sendo um desgaste a mais”, pontua.

Outro ponto é que muitos mapeamentos exigem que a classe seja organizada em fileiras. “Os alunos percebem que a organização da roda em círculo funciona bem em disciplinas eletivas, como teatro, música, projeto de vida, e se questionam por que são obrigados a sentarem em fileiras e lugares predeterminados nas disciplinas obrigatórias”, relata Barbosa.

De opinião oposta, Souza não vê o mapeamento ferindo a autonomia discente. “A autonomia não deve ser entendida como fazer o que quiser. Quando a turma está indisciplinada, desrespeitosa, dispersa ou com outros problemas que interferem no aprendizado, o professor não pode se omitir”, justifica.“Penso que o mapeamento só colabora com a ideia de professor-disciplinador se não houver diálogo, mas essa não é a educação que buscamos”, acrescenta.

Como fazer para dar certo?

O mapeamento de sala de aula é uma das estratégias do projeto Professor Diretor de turma, do Ceará. Nele, o docente responsável pela classe observa as relações entre os alunos durante um bimestre antes de iniciar o mapeamento da sala.

Pesquisadora do projeto Professor Diretor de Turma, a doutora em Educação Vagna Brito de Lima explica que o mapeamento precisa ser acordado com os alunos e associado a outras ferramentas que permitam um diálogo com a classe. “Se não for pactuado, os próprios estudantes entenderão como imposição e irão rejeitá-lo. O mapeamento tão pouco é inflexível, podendo sofrer alterações acordadas ao longo do ano”, destaca.

Na conversa com os alunos, Lima conta que é comum os próprios estudantes trazerem demandas e proporem soluções: “Alguns relatam preferir sentar perto ou longe da janela ou da porta, por exemplo. Eles trazem suas demandas.”

Caso a turma seja indisciplinada o professor pode tentar um acordo, como sugere Sousa. “Explique que cada um pode sentar onde quiser, desde que não atrapalhe o andamento da aula e dê um prazo para que haja melhoria. Caso não ocorra, proponha outra conversa e inicie a implementação do mapeamento”, recomenda.

Entre as outras dicas, Souza recomenda utilizar critérios para fazer o mapeamento, mas deixando espaço para adaptações e flexibilidade. O mapeamento pode ser pensado em outras formas de divisão da classe que não as fileiras. “Após a implementação do mapeamento, é preciso consistência, pois não haverá resultado imediato”, lembra Souza.

Barbosa explica que, quanto mais velhos forem os alunos, mais resistentes eles serão a lugares pré-determinados. “O professor deve ter escuta e não querer impor a ferramenta por uma questão de ego”, recomenda Barbosa.

Veja mais:

Conheça diferentes configurações para posicionar os alunos na sala de aula

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