A professora Izabel Nascimento começou a utilizar a literatura de cordel em sala de aula há 15 anos, em escolas da zona rural de Maruim (SE). O que era para ser apenas uma atividade para o 5º ano do ensino fundamental, conquistou toda a escola. “A proposta era a leitura de folhetos. As rimas, os temas bastante convidativos, as histórias engraçadas e a maneira cadenciada de recitar o cordel contagiaram os estudantes. Poucas semanas depois, eu estava desenvolvendo atividades no pátio da escola com todas as turmas reunidas”, relembra.

A experiência de Izabel é um bom exemplo de como o cordel pode ser um recurso atrativo para inserir os alunos no universo da literatura. “O cordel é um poema fortemente marcado pelos gêneros da literatura oral. Na escola, ele pode ser lido pelos professores assim como outros poemas que fazem parte de tradições literárias distintas”, destaca a professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPA) Ana Cristina Marinho, e uma das autoras do livro “O Cordel no Cotidiano Escolar”.
Arte popular
O cordel também pode ser utilizado para discutir a arte popular. A professora Roberta Monteiro Alves, de Aracaju (SE), fez uso dos poemas para debater preconceito linguístico com as turmas do 3º ano do ensino médio. “Acredito que isso fez os alunos verem a literatura de cordel como uma produção literária com o mesmo valor de qualquer outra”, pontua.
As atividades, porém, não precisam se restringir à disciplina de língua portuguesa. Os temas atuais de alguns folhetos podem ser aproveitados em aulas de história e geografia. “O cordel tem um contexto histórico e cultural que pode ser trabalhado em sala de aula e um contexto artístico que precisa ser desenvolvido, ou ao menos provocado, entre os estudantes”, assinala Izabel.
Para cada idade, um assunto

Para o trabalho na educação infantil, os temas de cordel mais indicados são os que recriam fábulas e contos. Os folhetos que narram fatos históricos e movimentos sociais, por sua vez, são indicados para o ensino fundamental. ”Além disso, os temas mais interessantes para o trabalho com crianças e jovens são os chamados folhetos clássicos, como as histórias de João Grilo, Pavão Misterioso, A Chegada de Lampião no Inferno e A Intriga do Cachorro com o Gato. Nesses folhetos, prevalece o humor, a inventividade e a oralidade”, sugere Ana Cristina.

Os professores também precisam estar preparados para discutir as visões de mundo presentes nos cordéis, já que algumas delas podem reforçar preconceitos em relação às mulheres, negros e índios. A professora Izabel Nascimento, por exemplo, utiliza um folheto de sua autoria chamado “Receita da Boa Mulher” para discutir a submissão feminina com jovens e adultos. “É um texto muito engraçado que fala sobre tudo o que a mulher, teoricamente, precisa fazer para agradar seu namorado, propondo uma reflexão ao final”, conta.

Atividade desenvolvida por Izabel na Escola Municipal Maria Fidelis Costa, no povoado João Gomes de Melo, de Maruim (SE) (Crédito: arquivo pessoal)
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