“O problema é que as novas tecnologias, como o tablet, estão sendo usadas dentro de um sistema antigo. O ideal seria o professor provocar um questionamento e mudar essa estrutura de ensino.” A afirmação é de Luli Radfahrer, professor de comunicação digital da Escola de Comunicações e Artes da USP, que em palestra na Campus Party 2012 comparou o mundo online ao offline e participou de um debate sobre a autoria de conteúdo nas redes. Trazendo para a discussão temas como o livre acesso às informações e as diferenças entre o real e o virtual, Radfahrer se posicionou como um defensor do conteúdo totalmente compartilhado e acha que projetos como a SOPA (projeto de lei americana de combate à pirataria online) são fruto de um momento de desespero. Leia a seguir trechos da conversa que o Instituto Claro teve com ele.

Em sua palestra, você falou sobre as semelhanças entre o mundo online e o mundo offline. E quanto à parcela da população que não está inserida nesse universo tecnológico?

Não existe a parcela que não está, e sim a parcela que ainda não está. Hoje, por exemplo, em qualquer lugar que você vá, é possível ver pessoas usando o celular como rádio. O ônibus é um ambiente onde todos estão usando fone de ouvido. A quantidade de gente que usa SMS também é imensa. E eles estão tendo acesso cada vez mais rápido e com maior frequência. Por isso, acho que não existe muito a diferença entre quem tem e quem não tem. Quem ainda não tem em pouco tempo terá.

O professor da ECA defendeu ambientes livres na web

Em relação aos ambientes cada vez mais abertos das redes, com mais pessoas compartilhando informações, de que forma isso é importante para a disseminação do conhecimento?

Na verdade, o problema disso é que a abertura em si não significa nada. É possível fazer um bom aproveitamento desses ambientes e, neste caso, ter um uso muito importante para a educação. Se houver um mau aproveitamento, só teremos mais do mesmo. Então, a abertura permite oportunidades que podem ser muito boas, mas é preciso saber aproveitá-las.

No caso de ambientes como a Wikipédia, em que o próprio usuário produz parte do conteúdo e também o utiliza, até que ponto eles podem ser confiáveis?

No caso da Wikipédia, o modelo é bom, mas a versão brasileira está com problemas muito sérios de edição. Os critérios são extremamente burocráticos, e a estrutura é mais ou menos como a de um centro acadêmico. Quer dizer, ela foi criando diversas burocracias internas e deixou de ser tão representativa. Tanto que acabamos recorrendo a outros canais. O ideal seria uma grande reformulada nesse modelo. Organizar um novo sistema de editoria e aprovação. Através dessa nova roupagem, valorizar os editores que fizeram o trabalho até agora e estimular o trabalho de novos editores. Dessa forma, o modelo ficaria mais acessível para os usuários.

O momento em que vivemos, com a criação do SOPA e a ameaça a alguns canais de compartilhamento de conteúdo, é perigoso para a liberdade da internet?

Acredito que não. Na verdade, trata-se de um momento de desespero. Conhece aquela velha história de que em time que está ganhando não se mexe? As pessoas estão vendo uma estrutura, que durante muito tempo deu bastante dinheiro, sendo chacoalhada. Agora não sabem mais o que esperar dela. Por isso, os defensores dessa velha estrutura estão procurando tomar diversas atitudes. O fechamento de canais de compartilhamento é, na verdade, uma tentativa desesperada de restabelecer a ordem antiga. Mas ela já está praticamente com os dias contados.

Em um artigo de sua autoria, você chegou a dizer que hoje a escola não educa os alunos para as profissões do século XXI. O que precisaria ser feito para modificar essa situação?

Vamos pegar como exemplo uma aldeia indígena. O chefe não vai buscar a informação para entregá-la de bandeja para a tribo. Os índios precisam buscar essa informação sozinhos, enquanto o chefe dá a eles relevância, consciência e os estimula a pensar. Acredito que o modelo do construtivismo de Piaget seja extremamente relevante nesse caso. O professor deve estimular a busca pelo conteúdo, deixar o aluno procurar esse conteúdo na internet e então debater essa informação. Mesmo na universidade, isso só se faz em nível de pós-graduação. Poderia ser feito em todos os níveis. O problema é que as novas tecnologias, como o tablet, estão sendo usadas dentro de um sistema antigo. O ideal seria o professor provocar um questionamento e mudar essa estrutura de ensino.

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