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Para Lévy, ambiente comunicacional e educação para a tecnologia são trunfos para construção coletiva na web

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por Giulliana Bianconi
26 AGOSTO 2011
O filósofo da comunicação francês Pierre Levy é sabatinado em entrevista coletiva na USP 


Com pouco mais de meio século de vida e com muito traquejo no contato com o público, algo que foi claramente adquirido nos últimos vinte anos devido a um crescente interesse da sociedade em ouvir sobre os caminhos da construção do conhecimento na Era Digital, Pierre Lévy esbanja uma simpática e, ao mesmo tempo, seca eloquência ao responder questões diversas sobre temas que gravitam em torno do ciberespaço, como conferiu o Instituto Claro, dias atrás, em entrevista coletiva realizada na USP.

Antes um pesquisador introvertido ao lidar com a imprensa, como pode ser visto em vídeos disponíveis no YouTube que datam de décadas passadas, ele hoje compartilha as suas convicções em entrevistas quase sempre com um esboço de sorriso e sem pestanejar. Até mesmo ao afirmar que não gosta de gadgets como smartphones por achar que eles não são as ferramentas mais cômodas para a comunicação, o faz sem qualquer cerimônia. Usa da liberdade de pesquisador que já possui uma extensa obra publicada e reconhecida - "Cibercultura", "O que é Virtual", entre outras - para declarar também que a tecnologia, na verdade, complica um pouco a vida das pessoas, pois exige que os usuários se apropriem, que saiam da zona de conforto. Entretanto, deixa claro, do começo ao fim da conversa, que uma robusta estrutura tecnológica é fator essencial para que a sociedade consiga dar saltos na construção coletiva do conhecimento. Abaixo você confere a opinião de Lévy sobre alguns temas recorrentes e relevantes na cultura digital.

Lévy destaca os aspectos técnicos necessários para a construção coletiva do conhecimento
Ferramentas que potencializam a construção coletiva na web

“Não é o gadget que eu uso que é importante. Não é o celular, o tablet ou o computador que vai determinar o que eu posso construir, mas sim outros aspectos, muito mais amplos, e que formam um ambiente de comunicação favorável a isso. O primeiro aspecto é a computação ubíqua, que significa poder estar conectado a todo o momento à world wide web (www) e poder se comunicar com qualquer pessoa. O segundo aspecto é a capacidade para reportar a informação a um custo baixo, e hoje temos uma capacidade quase ilimitada, a um custo relativamente baixo, e o terceiro aspecto é a potência computacional, que é a capacidade de o computador fazer associações automáticas por números e símbolos, potencializando o processo da comunicação. Se você tem essa base técnica, você realmente tem um ambiente forte de comunicação que permite desenvolver a inteligência coletiva. É muito mais sobre capacidade, e menos sobre ferramentas, pois se você vai desenvolver algo com alguém, depende muito mais da capacidade técnica e pessoal.”

Impacto dos ambientes colaborativos, como Wikipedia, na educação

“Primeiro é preciso delimitar de que educação falamos. Primária, secundária, superior? Na educação primária, eu acredito que o relacionamento das crianças com números e palavras pode ser fortalecido quando elas podem manipular estes elementos em telas, seja em computadores, tablets, enfim. E melhor se essa dinâmica for realmente interativa. Mas é uma ideia muito equivocada pensar que as tecnologias ou os ambientes digitais, por si só, impactam a educação. Você usa as tecnologias em um caminho traçado, em uma estratégia pedagógica, e isso é o mais importante. O impacto não é automático, não é universal. Se falamos de ambientes colaborativos, tudo depende da forma como o educador vai usá-los. A intenção pedagógica é o que, de fato, vai definir o impacto do uso da tecnologia.”

Gap educacional e digital nos países em desenvolvimento

"No final do século passado, tínhamos algo em torno de 3 a 5% da população mundial conectada. Hoje esse número gira em torno de 30%. Saímos de 3% para 30% em pouco mais de dez anos, e isso é extraordinariamente rápido, certo? Não temos, na história, uma forma de comunicação que tenha se expandido tão rapidamente. Então isso é algo que devemos ter nas nossas mentes, primeiramente. Depois, não adianta pensar que vamos, em três anos, chegar aos 80% da população conectada. Isso é impossível. Precisamos de mais uma, duas ou três gerações para isso. Mas podemos prever que, no meio deste século, teremos mais da metade da população com acesso à web, isso também é fantástico. Então agora, outro ponto: eu sei que estamos numa sociedade em que as pessoas querem tudo imediatamente, mas no mundo real não é assim, e mesmo que fosse, mesmo que tivéssemos hoje internet para todos, se ainda há pessoas que não sabem ler e escrever, elas estariam ainda excluídas. Um dos pontos mais importantes para se falar em benefícios da comunicação é a educação. Todos falam em 'tecnologia para a educação, tecnologia para a educação', mas, na verdade, o que precisa estar em foco é a educação para a tecnologia. Este, sim, é um gap bem mais difícil de ser resolvido. É bem mais caro educar, e educar para o mundo digital, do que oferecer internet para todos."

Ilana Bar
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Propriedade intelectual

"Na cultura digital, a propriedade intelectual é um assunto muito interessante e uma complexa questão. Quando falamos de pessoas que escrevem livros de narrativa e vivem daquela atividade, é possível entender o lado delas. Não se pode querer que elas digam: 'Ah, ok, não faço questão dos meus direitos autorais sobre a obra'. Mas, por outro lado, é muito contraprodutivo ter que pagar por materiais educacionais. Eu não sei a resposta correta para esta questão [propriedade intelectual na cultura digital], mas o que posso dizer, como membro da comunidade acadêmica, é que a minha posição é que cada livro ou artigo acadêmico deveria ser uma publicação gratuita na internet. Considero um complexo paradoxo livros científicos que custam muito caro. Penso que estamos em um momento de transição nessa questão, e que diferentes normas vão sendo encontradas. Talvez sejam diferentes, dependendo do setor da sociedade, mas o que defendo é que o conhecimento científico deve ser facilitado."



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