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Pesquisadora defende papel do professor na formação de sujeitos mais críticos em relação às ferramentas web

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por Marcelo Modesto
19 AGOSTO 2011
Mauro Panini
A pesquisadora Daniela Bertocchi defende uma formação reflexiva para professores
Diversos autores e personalidades do mundo da internet começam a anunciar o fim da web 2.0 com a ascensão da web semântica, ou web 3.0, que, com as funções de compartilhamento de informações, começam a configurar uma nova etapa da rede mundial de computadores. No entanto, a pergunta que se faz é: há de fato uma mudança tão significativa em curso? Como essa transformação pode impactar nos processos de ensino e aprendizagem?

Para discutir essas questões, o Instituto Claro entrevistou Daniela Bertocchi, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo. Com experiência em assuntos como hipertexto na escola, ciberjornalismo, mídias digitais e hipermídia, Daniela destacou que a escola deve focar seu trabalho na formação de sujeitos mais críticos e reflexivos em relação às novas ferramentas web, para que o usuário não seja “infantilizado”. Confira os principais pontos a seguir:

O que é a web semântica, considerada um dos pilares da web 3.0?

Daniela Bertocchi - Sabemos que há uma nomenclatura que é de mercado, uma visão um pouco evolucionista, que trata a web como se ela fosse melhorando com o tempo. De qualquer maneira, quando pensamos em web 1.0, pensamos em bibliotecas, museus, repositórios. Quando vem a web 2.0, é muita informação, compartilhamento e pessoas publicando. Na web 3.0, o homem não é o protagonista da rede. Ou seja, quando falamos em web semântica, falamos de mecanismos que fazem com que as máquinas entendam os documentos, as palavras e as imagens. Não percebemos ao certo o momento em que a web se tornou semântica, porque faz parte dos bastidores. Por exemplo, no Facebook, o botão “Curtir” é semântico. A ferramenta de busca do Google também. A web semântica não é algo que vai acontecer, mas que está em andamento. Existem espaços que são mais semânticos, assim como ainda há sites que possuem características da web 1.0, sem interação nenhuma.

Então, as máquinas passam a interpretar as informações na rede?

Daniela - Essa é a grande inquietação que a web semântica nos provoca, porque ela começa a envolver muito a questão do nosso relacionamento com máquinas e robôs. Já existem tecnologias semânticas sendo usadas em vários campos. Eu, particularmente, me preocupo como está sendo o uso no jornalismo, e existem algumas aplicações na saúde e na educação. Tudo isso está muito no começo e existe pouca literatura sobre o assunto, já que são projetos preliminares.

Se as máquinas assumem um papel mais importante na interpretação das informações, qual deve ser o papel do usuário neste cenário?

Daniela -
O que posso afirmar é que precisamos de sujeitos cada vez mais críticos e reflexivos ao adotar essas tecnologias. Essas máquinas se tornam cada dia mais inteligentes, e possuem uma relação de dados a nosso respeito, já que as pessoas o tempo todo publicam fotos, textos, informações e dados pessoais, e temos de considerar que agora a máquina consegue fazer uma leitura inteligente disso tudo, correlacionando as informações. Então, acho que, quando pensamos em projetos de web semântica, temos de ficar alerta para algumas questões. A que mais me interessa é a que tem a ver com o fato de que a web semântica proporciona muita personalização.

Que tipo de personalização?

Daniela - No Facebook, por exemplo, recebemos informações dos nossos amigos e de quem mais falamos de maneira prioritária. Isso tem um lado positivo, porém tem também um negativo, já que a sua timeline não possui informações que você precisa saber, mesmo que sejam “chatas”, como guerras e conflitos sociais, entre outras. Ou seja, essa personalização que a web semântica proporciona, de uma certa maneira, nos infantiliza. Se você não for um sujeito curioso, que quer saber mais sobre o mundo, fica nessa bolha. Aqui entra o papel do educador. O professor precisa preparar as pessoas para saírem da mesmice, para desbravarem o mundo e não se contentarem com o primeiro resultado da busca do Google.

Ou seja, a web semântica pode isolar as pessoas em pequenas ilhas na rede?

Daniela - Sim, essa é uma das implicações. Estou ressaltando o que é mais problemático. Mas, se você fizer uma busca sobre web semântica, encontrará várias vantagens. O Tim Berners-Lee dá um exemplo: você está andando na rua e, de repente, torce o pé. Pega o seu smartphone e, como tudo é semântico, o Foursquare está falando com o Facebook e o Twitter. A partir dessas redes, descobre um ponto de táxi na rua de trás, um hospital na região e consegue ajuda. O fato de os dados estarem interligados, que é o pilar da web semântica, faz com que a informação seja mais rápida e precisa. Porém, uma das consequências é que você pode ficar falando com as mesmas pessoas sobre os mesmos assuntos. Precisamos prestar atenção neste aspecto desde já.

Há um maior risco de manipulação das informações disponíveis na web? Como evitá-la?

Daniela - Os algoritmos, que fazem a interpretação das informações, são como receitas de bolo. Os ingredientes são as informações do usuário, por sua vez. No entanto, o que pouca gente pensa é que essa receita é, na maioria dos casos, algo comercial, que visa o lucro. Por mais bem intencionada que seja uma empresa, não podemos ficar acomodados e temos de ser proativos. Por isso eu digo que o professor tem um papel muito importante neste processo, alertando justamente essas questões para os alunos.

Como os professores, que em geral oferecem uma resistência ao uso de novas tecnologias, podem se preparar para essas tendências?

Daniela - Eu aposto muito em um esclarecimento em relação à cibercultura. Acho que não funcionará dar ao professor uma explicação sobre como o iPad funciona, porque o problema de explicar como apertar um botão é que amanhã o botão muda. Ao passo que, se você investir em uma discussão a respeito da tecnologia na sociedade, ou sobre os modos de apropriação da tecnologia pelas novas gerações, com uma leitura mais global, pode sensibilizar o professor. Depois ele pode ir adaptando aquilo à disciplina dele, fazendoas pontes. Eu apostaria em uma formação mais reflexiva.



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