Calamidades climáticas como ondas de calor, ciclones, tempestades, inundações e secas já fazem parte da realidade das escolas brasileiras. O estudo “Learning Interrupted: Global Snapshot of Climate-Related School Disruptions in 2024” (Aprendizado interrompido: panorama global das interrupções escolares relacionadas ao clima em 2024, em tradução livre), do Unicef, apontou que pelo menos 1,17 milhão de crianças e adolescentes brasileiros tiveram estudos interrompidos em 2024 por eventos climáticos.

Duas situações especiais marcaram o ano analisado: as enchentes no Rio Grande do Sul, que afetaram mais de duas mil escolas da rede estadual e deixaram 741 mil estudantes sem aulas, e a seca na região amazônica, que atingiu 1,7 mil escolas – mais de cem localizadas em áreas indígenas – e 436 mil estudantes.

Essa nova realidade levanta a discussão sobre como a escola deve agir antes, durante e depois das calamidades climáticas.

Marcelo Barnetche Kauer é diretor da Escola Municipal de Ensino Fundamental  (Emef) Jacob Longoni, de Canoas (RS), que foi fortemente impactada pelas enchentes. Segundo ele, as escolas foram uma referência importante para a comunidade no momento da calamidade.

“As escolas serviram como moradia para os desabrigados na enchente. Sem as escolas, não consigo imaginar outro local que poderia abrigar tantas pessoas em um momento tão difícil”, explica.

“Adaptamos a escola, instalando chuveiros, caixas-d’água adicionais e lavanderia. Conseguimos doações de roupas de cama, mesa e banho e fornecemos quatro refeições diárias. A escola foi um ponto de encontro, refúgio e segurança para quem não tinha mais nada”, afirma.

A visão sobre o papel da escola frente a calamidades climáticas é compartilhada pelos estudantes do ensino fundamental ouvidos no relatório nacional “Semana da Escuta das Adolescências” (2025), do governo federal.

Os estudantes ouvidos viam como papel da escola receber e oferecer doações (55% de sexto e sétimo anos e 57% de oitavo e nono anos), ceder espaço para atendimento psicológico (43% em todas as etapas ouvidas), ceder espaço para outros serviços públicos (32% de sexto e sétimo anos e 34% de oitavo e nono anos), assim como fortalecer a confiança dos discentes (56% de sexto e sétimo anos e 50% de oitavo e nono anos) e garantir o aprendizado previsto (49% de sexto e sétimo anos e 43% de oitavo e nono anos).

Acolhimento após evento

Para a co-líder de Natureza do Instituto Alana Laís Fleury, o papel central da escola após uma calamidade é acolher estudantes.

“Pode ser com uma escuta ativa e que permita que expressem medos, dúvidas e outros sentimentos. Por isso a importância do livre brincar e de atividades lúdicas e artísticas”.

Após o evento climático, ela também recomenda estabelecer rotinas previsíveis. “O acidente climático pega a comunidade de surpresa e provoca pânico. Trazer essa sensação de segurança e normalidade acalma”.

O acolhimento também deve ser estendido para funcionários. “É importante identificar quem foi mais impactado e precisa de apoio. No Rio Grande do Sul, escutamos de professores: ‘Eu não perdi só uma casa, mas toda a memória da minha vida’”, contextualiza.

“Atendemos colegas que perderam tudo, alguns, inclusive buscando abrigo em nossa escola”, compartilha Kauer.

Após a recuperação emocional dos alunos e a promoção do senso de pertencimento, tem início a recuperação da jornada.

“É necessário flexibilidade para adaptar conteúdos e horários”, enfatiza Fleury.

Plano de contingência

Após a normalização das atividades, Fleury recomenda que as escolas fomentem uma cultura de prevenção criando um plano de contingência sobre o que fazer quando novas calamidades climáticas acontecerem.

O Instituto Alana, junto com a Secretaria da Educação (Seduc) e a consultoria Vozes da Educação, elaboraram o “Guia para Elaboração de Planos de Contingência Escolares para Eventos Climáticos (Plancon Escolar)”.

As ações do plano incluem identificar vulnerabilidades, organizar a infraestrutura escolar para receber pessoas, criar um plano de comunicação para emergências, mapear locais seguros na escola e preparar kits de suprimentos, plano de evacuação e ações de acolhimento, entre outros.

“Os desafios durante a enchente foram de ordem estrutural e da falta de experiência em uma situação de calamidade. Não havia camas, lençóis e cobertores, nem chuveiro, nem água. Aprendemos a lidar com situações que não são comuns na educação: drogadição, pequenos furtos, violência doméstica… Coisas que aconteciam somente na casa das pessoas passaram a ocorrer na nossa frente”, relembra Kauer.

Segundo o diretor, o fluxo de pessoas acima do normal durante 24 horas do dia, sete dias por semana, por 58 dias consecutivos, cobrou um preço alto da estrutura escolar. “Precisamos fazer uma limpeza pesada. Hoje temos chuveiros, lavanderia e uma estrutura elétrica que sabemos que consegue suportar um uso mais ‘pesado’ no cotidiano escolar”, destaca.

Participação discente

Ainda sobre prevenção, Fleury recomenda a criação de um Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar (Cipave), com a participação dos alunos, para promover o cuidado mútuo e a segurança.

“Nossos alunos atenderam ao nosso chamado de unir forças e nos ajudar a passar pelo momento difícil em que a cidade se encontrava. Tínhamos grupos de estudantes se revezando no atendimento na escola, auxiliando os professores e voluntários nas tarefas diárias”, conta Kauer sobre a importância da participação discente.

Para completar, Fleury destaca a busca ativa para evitar a evasão escolar após crises prolongadas.

“É preciso mapear onde os alunos e famílias estão. Se eles não vêm à escola, precisamos ir até eles”, conclui.

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