Seca, terra rachada e a carcaça do boi são imagens associadas ao semiárido brasileiro e presentes na mídia, produções culturais e na escola, por meio de livros didáticos e falas de professores. Estereótipos, porém, que excluem as potencialidades de uma região que, como aponta a Articulação do Semiárido (ASA), ocupa 12% do território nacional, abrange 1.262 municípios, possui 27 milhões de habitantes e dois biomas: a caatinga e o cerrado.

“A escola reproduz um determinismo ambiental onde a seca gera pobreza e pouco desenvolvimento social e econômico. Exclui que a caatinga é um bioma adaptado ao clima da região e detentora de fauna e flora ricas”, contrapõe a doutoranda em ensino e história de ciências da Terra na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Kezia Andrade dos Santos.

“A questão é que nenhuma pessoa ou região deve ser olhada apenas pelas suas deficiências, mas por suas potencialidades também. Isso não ocorre no semiárido, onde há um desconhecimento profundo sobre a região. A imagem veiculada nunca é da horta verdinha e bem tratada, mesmo que seja possível produzir outros tipos de vida onde há água no semiárido”, pontua o coordenador do Programa Cisternas nas Escolas da Articulação do Semiárido (ASA) Rafael Neves.

“Além disso, a sociedade e escola reproduzem o morador do meio rural como uma pessoa ignorante, desvalorizando a profissão do agricultor e os saberes de quem vive na roça. Um projeto de Brasil que pensa o rural como um lugar deserto, sem pessoas, e que valoriza a produção agrícola apenas quando industrial”, completa.

Para a sociedade, as consequências são xenofobia e outras formas de preconceito, como o linguístico, contra o sertanejo, apontam os professores. Já para os alunos das escolas do semiárido, há uma sensação de não pertencimento. “É veiculado que a única saída possível é fugir da seca e ‘da enxada’, que o trabalho com a terra é ruim”, destaca Santos.

“É como se você dissesse ao aluno que toda a trajetória de seus familiares, tudo o que produziram em termos de alimentos e toda a resistência contra uma situação sem colaboração do Estado não tivessem valor”,emenda Neves.

Combate x convivência

A ideia de que a seca, uma característica natural do bioma caatinga, precisa ser combatida teve origem em ações do Brasil Império contra uma forte estiagem de 1887. Os professores explicam que, nas décadas seguintes, houve o advento da chamada Indústria da Seca, com a concentração de reservatórios e entrega de carros pipas nas mãos das elites, levando o êxodo da população mais pobre ao Sudeste.

“Eram políticas públicas externas à sua população, descontextualizadas e buscando alterar a característica natural, não promover um desenvolvimento sustentável”, explica o mestre em educação pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) Jonathan Aurélio Sousa Sales Silva. Ele é autor da dissertação “O conhecimento escolar e o semiárido: o saber (re)significado por professores de geografia” (2021).

Santos explica que muitos dos problemas sociais causados pela seca foram provocados mais por desigualdades de acesso à água do que por questões somente ambientais. “Quando se fala sobre a seca e miséria, é preciso questionar: para quem isso ocorreu? Porque para os grandes latifundiários, ela não foi um problema”, explica Santos.

“As chuvas são concentradas em períodos do ano e, se a população consegue armazenar essa água, é possível viver. Isso exige políticas públicas do estado para todos”, lembra Neves. A partir dos anos 1990, a ideia de combate à seca foi substituída pela convivência com o semiárido. Isso incluiu o estimulo de tecnologias desenvolvidas pela própria população, como as cisternas e valorização das características e riquezas naturais, sociais e culturais.

“Nessa perspectiva, o sertanejo é protagonista social, as técnicas empregadas são adaptadas ao clima e a população, que conhece o local, sabe a melhor decisão a ser tomada”, resume Santos.“A escola tem papel fundamental nessa educação contextualizada do semiário, que pode tornar os estudantes mais atuantes e conhecedores do lugar onde vivem”, defende Silva.

Entre os exemplos de educação de convivência com o semiárido, a ASA desenvolve o projeto Cisternas nas Escolas. O objetivo não é apenas apoiar as comunidades da região a construírem o reservatório de água, mas veiculá-lo a uma formação para professores, merendeiras e demais funcionários da educação. “Algumas escolas estão localizadas em comunidades com experiências de agricultura exitosas e visitadas por estrangeiros, mas que a própria escola da região desconhece”, compartilha Neves.

“Ao trazer essas potencialidades da região para o currículo, mostra-se à criança e ao adolescente que eles podem explorar o mundo inteiro, mas sabendo que seu local de origem também produz alimento, cultura, saúde e felicidade”, acrescenta.

Temas e atividades

Para Santos, promover uma educação de convivência com o semiárido exige conhecer a região e a caatinga.“As árvores possuem formato retorcido e raízes profundas para armazenar água. Vale contextualizar com os alunos que a seca é natural de ambientes áridos, mas ocorre em outros biomas. Além disso, é preciso refletir: a seca é questão somente ambiental ou política?”, reflete.“Outro tema a ser explorado é o umbu, considerada uma árvore sagrada do sertão por fornecer muitos frutos e gerar renda às cooperativas”, acrescenta.

Neves sugere trabalhar questões ambientais e históricas relacionadas ao desmatamento da caatinga para a produção de gado. “Uma das últimas batalhas pela independência brasileira ocorreu no interior do Piauí em uma área de produção de gado que a Coroa se recusava a entregar”, explica Neves. “A caatinga é tratada como mato, e não mata. O solo do semiárido é frágil quando desmatado, prejudicando a produção de alimentos e piorando ainda mais com o aquecimento global”, associa.

Ele acredita, ainda, que os problemas sociais também devem ser destacados, como desigualdade social e baixos níveis de escolaridade. “Porém, sem deixar de trabalhar as potencialidades”, alerta.“Mesmo no âmbito da educação, o Ceará, que tem a maior parte de seu território com perfil semiárido, possui hoje bons índices educacionais e é referência para o país”, lembra Santos.

Na disciplina de geografia, Silva abordou a conviência com o semiárido ao ensinar lugar e território.“Principalmente, com os debates de identidade ligada ao espaço e pertencimento, saindo um pouco da categorização climática e ambiental”, compartilha.

Ele sugere trabalhar com os alunos os estereótipos sobre o semiárido brasileiro que aparecem na literatura, música, notícias e na arte. “As imagens reproduzidas são de um ambiente ruim e que precisa de socorro”, afirma Santos. “Na sequência, os próprios alunos podem produzir músicas, contos, cordéis e fotos por outras perspectivas”, completa o professor.

Já Santos recomenda apostar em jogos didáticos. “Em minha pesquisa de doutorado, trabalho por gamificação a diversidade de pássaros presentes na fauna da caatinga”, conta.

Veja mais:

Plano de aula – Seca, agronegócio e desmatamento: possíveis relações

Plano de aula – Biomas brasileiros: Caatinga

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