Empatia é a capacidade de se colocar no lugar de uma pessoa, ou seja, de observar uma situação e seu contexto para compreender aspectos psicológicos e emocionais do outro. Classificada como habilidade socioemocional, ela integra a lista das dez competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino básico. Nas aulas de história, por exemplo, pode ser trabalhada por meio da “empatia histórica”. “Trata-se do exercício de se colocar no papel de um indivíduo de outra época, permitindo vivenciar situações diferentes ou incomuns na atualidade”, explica o professor de história e doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Breno Gontijo Andrade.

Para isso, o aluno colhe informações de fontes históricas confiáveis sobre o tema. “Isso valoriza a importância de evidências históricas”, destaca. Também é necessário que ele se distancie de opiniões, crenças e formas de agir visando entender as ações do indivíduo de outro tempo. Assim, ensina que um ponto de vista não é uma verdade absoluta e que opiniões diferentes devem ser respeitadas.

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Em artigo sobre o tema, a docente da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) Edinalva Padre Aguiar lembra que entender a pluralidade de pensamento ajuda o estudante no exercício futuro da cidadania. Para ela, isso inclui: melhor análise de situações sociais e tomada de decisões políticas; mediação de conflitos; respeito à diversidade cultural e humana; compreensão de que ações trazem consequências e aproximação do aluno de grupos excluídos, silenciados ou marginalizados.

“Ao colocar sua voz no jogo, o estudante também desenvolve imaginação, criatividade e é protagonista na aprendizagem”, acrescenta Andrade. “Porém, a empatia histórica é uma ilusão, um simulacro criado pelo professor no presente sobre o seu entendimento do passado, que é inalcançável. As situações e descrições que ele propuser devem ser entendidas como um exercício de especulação”, reflete.

Turma participativa

A atividade cabe no ensino fundamental ou médio. “Nos anos iniciais, exige menor rigor histórico na avaliação”, observa Andrade. Também ajuda a ensinar qualquer conteúdo de história, incluindo Pré-História, Grécia Antiga, Idade Média, Colonização do Brasil, Revolução Francesa, Segunda Guerra Mundial, China, etc. “Estudantes ficam mais concentrados e participativos nas aulas expositivas ao saberem da atividade. Buscam detalhes que os ajudem a resolver o problema que será proposto”, garante o professor.
Após a aula, ele inicia a dinâmica descrevendo o tempo histórico, região, cenário da situação e características do personagem a ser encenado oralmente. “Pode ser um líder de caçadores do Paleolítico, que precisa mobilizar seus companheiros para caça usando 30 palavras. Camponeses que perderam a safra e são confrontados a pagar impostos para o seu senhor. Portugueses e indígenas que se encontram quando as caravanas portuguesas chegam às terras brasileiras. Como esses dois grupos se comportariam?”, ilustra.

A pergunta é feita a um aluno, que controlará o personagem como em um jogo. Para respondê-la, ele revisitará mentalmente os conteúdos aprendidos em aula. Se não conseguir, passa-se o personagem e a pergunta para outro colega. “À medida que todos respondem e justificam suas ações, o professor pode comentá-las”, ensina Andrade, que reuniu em artigo científico, experiências de aulas para o 8º e 9º ano na Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG.

Para professores, ele recomenda planejar os objetivos de aprendizagem para que a atividade não seja apenas entretenimento. “Esboce as características dos personagens sem muito trabalho, já que os alunos tendem a se envolver e ‘dar cara’ a esses sujeitos”, tranquiliza.

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Desafios

Os estudantes tendem a explicar a situação proposta usando seus valores, costumes e crenças pessoais contemporâneas. Andrade relata um exercício sobre colonização das Américas, por exemplo, em que o grupo de alunos que interpretavam os indígenas quiseram expulsar os portugueses quando eles aportaram. O professor, porém, lembrou os motivos para que isso não tenha ocorrido, como o fato de terem sido entendidos como deuses. “É necessário que os estudantes pensem e ajam como se não tivessem conhecimento do futuro, para evitar anacronismo”, ressalta. Sem esse cuidado, os alunos também podem achar que pessoas de outras épocas eram menos inteligentes ou moralmente fracas.

Para que não se analise o passado com os olhos do presente, Aguiar sugere três perguntas à classe. “Qual era a mentalidade ou ideologia predominante da época estudada? Qual foi a motivação e intenção dos sujeitos no evento descrito? Quais valores eram atribuídos ao acontecimento pelos diferentes sujeitos nele envolvidos?”, lista a pesquisadora.

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