Ensinar alunos e a comunidade a preservarem monumentos de seus municípios é um dos objetivos da educação patrimonial, mas ela vai além disso. “A ideia é construir conhecimentos, habilidades e atitudes que fortaleçam a identidade e o pertencimento desses sujeitos aos seus contextos culturais. Tem a ver com reconhecer o patrimônio cultural como herança, mas também como algo a ser apropriado e transformado”, esclarece o doutorando em Geografia pela Universidade de Brasília (UnB) Rodrigo Capelle Suess.

Na escola, a educação patrimonial propõe trabalhar pedagogicamente a partir da história e outros elementos da comunidade. “Ela ultrapassa o ambiente escolar, podendo trabalhar em conjunto com ações do município que valorizem a comunidade, o bairro ou estimulem o desenvolvimento local e regional. Pode ter ações alinhadas, por exemplo, ao turismo ambiental e à agricultura”, ilustra a docente da pós-graduação em História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Maria Medianeira Padoin.

Leia também: 5 passos para criar um museu virtual com seus alunos

O trabalho é interdisciplinar. História, geografia, artes, sociologia e língua portuguesa são mais presentes em projetos de educação patrimonial, mas há possibilidades para todas as áreas de conhecimento, incluindo ciências exatas e biológicas. “É preciso constituir um currículo e modos de trabalhá-lo conforme o contexto e necessidades culturais dos estudantes. Assim, conceitos de cultura, identidade, memória, pertencimento, patrimônio, lugar e território são úteis na construção de conhecimentos de todas as disciplinas”, justifica Suess.

Formação cidadã

Ao explorar a história e cultura da cidade na escola, há o ganho de uma aprendizagem significativa. “Você pode alfabetizar ou ensinar inglês por meio de textos da própria região”, exemplifica Padoin. Ela lembra, ainda, que a educação patrimonial não é algo novo, uma vez que diversos professores já propõem atividades que valorizam a história e cultura de seus municípios. “Porém, são iniciativas isoladas, não integradas no Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola ou sem diálogo com a rede municipal e estadual”, diferencia.

Para a professora, a educação patrimonial ainda fortalece a formação para a cidadania e dialoga com o conceito de cidades educadoras. No entanto, ao explorar a cidade, deve-se entender os espaços de exclusão e vozes que foram silenciadas. Um exemplo ocorreu em projeto coordenado por Padoin nas escolas dos municípios que compõem a região da Quarta Colônia de Imigração Italiana do Rio Grande do Sul.“Mesmo com imigração italiana e alemã forte, a região contava com a presença quilombola anterior à sua formação, que foi valorizada”, diz.

Confira: Confira: 6 dicas para usar entorno da escola como espaço educativo

Ensino remoto

A educação patrimonial também pode ser trabalhada de forma não presencial. No projeto de Padoin com os municípios de imigração italiana, foram propostas atividades em que os alunos registrassem suas memórias da pandemia. “Eles escreveram diálogos, orações, brincadeiras, receitas e histórias que os avós contavam sobre outras pandemias. Com isso, foi trabalhada a alfabetização, além de conteúdos de matemática e ciências”, conta Padoin.

“A proposta foi desenvolvida e aplicada de acordo com as realidades de cada município, que são diversas. Há cidades que têm apenas uma escola, enquanto outras contam com 13”, compara. As atividades registradas em vídeos e fotos se transforaram em uma exposição virtual “Educação patrimonial em temos de pandemia”.

Alunos protagonistas

Professores podem iniciar uma abordagem de educação patrimonial conhecendo a história de seus estudantes. “Identifique com eles como suas trajetórias se relacionam com o enredo daquela comunidade, cidade ou região”. Para relacionar a educação patrimonial a contextos geográficos, ele indica como ferramenta inventários participativos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
“O documento traz questões teóricas e práticas que podem ser desenvolvidas em sala de aula”, sugere.

Suess foi um dos organizadores do livro “Ceilândia, minha quebrada é maior que o mundo”, que ouviu estudantes da rede pública da região para construir um material didático sobre o tema, distribuído nas escolas. “A obra visa facilitar o processo de identificação e pertencimento dos estudantes ao seu território”.

Veja mais:

‘Educação integral é fundamental para tornar cidades mais educadoras’

Consolidação do hábito de frequentar museus também passa pela escola

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Talvez Você Também Goste

Empreendedorismo social na escola faz aluno mobilizar conhecimentos para melhorar realidade

Interdisciplinaridade e aprendizagens socioemocionais são ganhos desse conteúdo no currículo

‘Alice no País das Maravilhas’ pode ilustrar lógica e proporções nas aulas de matemática

Enigmas presentes no livro são indicados para os anos finais do ensino fundamental

Ética profissional ainda é pouco abordada em licenciaturas, avaliam pesquisadoras

Formação inicial trata assunto como código de conduta, sem reflexão sobre a atuação docente

Receba NossasNovidades

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.