Leonardo Valle

Uma disciplina que alcance todos os alunos é o objetivo da educação matemática inclusiva. Segundo o docente do departamento de matemática da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Carlos Roberto Vianna, preparar uma aula inclusiva exige considerar a opinião do estudante na escolha das práticas e métodos.

“O que deve ser evitado é qualquer tipo de exclusão e menciono um tipo comum: a dos próprios alunos”, explica. “Eu já vi muitos professores defenderem práticas que idealizaram nas suas cabeças – algumas legais – mas que eram pensadas ‘para os estudantes’ e não ‘com eles’”, ilustra.

Carlos Roberto Vianna foi um dos palestrantes do I Encontro Nacional de Educação Matemática Inclusiva, ocorrido em 17 de outubro de 2019, no Rio de Janeiro (RJ). Confira, a seguir, a análise do profissional sobre o tema:

O que é a educação matemática inclusiva?

Carlos Roberto Vianna: É uma educação que tenha como meta e princípio chegar a todas as pessoas. 

O que o professor de matemática deve se atentar ao preparar uma aula inclusiva?

Vianna: Uma questão antecede a própria aula: quem está na escola e quem não está? Nosso país é desigual. Quantos não têm sequer a oportunidade de estar nessa classe ou conseguirão ir até o fim do ano letivo? Alguns docentes dizem que seus alunos “são despreparados”, no lugar de perceber que, a cada ano, os que continuam na escola são verdadeiros sobreviventes de um sistema que não os acolhe e não os valoriza pelo que são capazes de fazer. Eu acho uma perversão as práticas em ambientes escolares, principalmente em espaços públicos, que foquem alcançar somente “os mais preparados”. Se essa questão for considerada, então a preparação da aula terá como foco que ela se destina a todos, e não a alguns.

Qualquer conteúdo pode ser adaptado?

Vianna: Sim, é uma tese. Eu diria o seguinte: se você me apresentar um conteúdo que eu não saiba como adaptar, mostra uma ignorância minha e não uma propriedade técnica que o torna inadaptável. Ao pensar dessa forma, eu não tenho nada a perder, a não ser a minha ignorância.

O que deve ser evitado em uma aula inclusiva?

Vianna: Devemos pensar em práticas que sejam interessantes e envolvam todas as pessoas. Isso não é fácil. A primeira barreira a superar é que elas devem ser parte daquilo que as próprias pessoas desejam e sugerem. O que deve ser evitado é qualquer exclusão e menciono um tipo comum: a dos próprios alunos na escolha e definição de práticas. Eu já vi muitos professores defenderem atividades que idealizaram em suas cabeças – algumas legais – mas que eram pensadas “para os estudantes ” e não “com eles”.

“Aula inclusiva exige considerar a opinião do estudante na escolha das práticas e métodos”, afirma professor (crédito: arquivo pessoal)

 

As atividades devem abranger simultaneamente alunos com e sem deficiência?

Vianna: A ideia é que estejamos juntos. Eu poderia pensar uma atividade para ser desenvolvida somente com alunos cegos, mas qual a vantagem disso? Quando penso em um recurso para ser utilizado por um estudante cego eu imagino também que ele poderá ser útil para qualquer outra pessoa.

Como o professor pode contribuir para uma educação matemática inclusiva?

Vianna: Existem pequenas e grandes ações. Uma ação localizada na sala de aula consiste em pensar que a matemática não deve servir como meio de punição, mas ser vista como uma disciplina qualquer entre as demais. Um professor da matéria não deveria ajudar a propagar a ideia de senso comum de que muita gente “não serve para ela “. Não se diz o mesmo de história, por exemplo. Então, uma ação inclusiva cotidiana é contribuir para valorizá-la, tornando-a igual às demais disciplinas, e não “superior” ou “mais difícil”. “Valorizar” significa que ela tem uma contribuição que é comum a todas as práticas e conhecimentos humanos. Já no campo mais amplo, a inclusão só pode acontecer por meio de políticas públicas, de ações do Estado que almejem práticas que sejam voltadas para a totalidade da população.

Quais são bons exemplos de atividades?

Vianna: Há um que mostra como o próprio conteúdo da matemática é excludente. Um quadrilátero é formado por quatro linhas. Se peço a você que o desenhe, produzirá uma figura com a qual a escola permitiu que tivesse contato. Você jamais desenhará um quadrilátero parecido com uma ampulheta. Docentes da disciplina que desenharam essa figura comigo, contando o número de lados em voz alta, depois de pronta, dizem que se trata de dois triângulos. Acontece que a escola excluiu, desde o princípio, esse tipo de figura do universo daquelas que estudamos. Só fazem parte do conteúdo escolar as figuras geométricas simples, que não possuem linhas que se cruzam. Essa atividade desafia a lógica dos educadores.

Um segundo exemplo são as práticas de sala de aula que envolvem todos os alunos. Já aconteceu de solicitar, em um encontro de professores de matemática, que eles escrevessem a definição de quadrado e de retângulo. Em trezentas pessoas, não houve um par de definições coincidentes. Isso foi feito para que eles pudessem responder se um quadrado era um retângulo ou não, pois não há resposta “definitiva” para essa simples questão, depende das definições. Isso me permitiu trabalhar as diferenças.

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Crédito da imagem: monkeybusinessimages – iStock

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