O que pensam e sentem os alunos do terceiro ano do ensino médio de uma escola pública meses antes de se formarem? O documentário “Atravessa a vida” faz um retrato sensível deste momento singular, no qual o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é um dos elementos principais. A produção estreia em fevereiro de 2021 no NOW e outras plataformas de filmes.

Para capturar diferentes realidades, o diretor João Jardim – conhecido pelos documentários “Janela da Alma” e “Lixo Extraordinário”, indicado ao Oscar de 2011 – acompanhou uma turma do Centro de Excelência Dr. Milton Dortas, em Simão Dias, no interior de Sergipe. “Os jovens estão saindo de um momento da vida para ingressar em outro. Uma das premissas do filme é que o Enem se tornou importante para muitos adolescentes nessa fase, ainda que não seja possível para todos, ou que nem todos almejem entrar no ensino superior”, contextualiza Jardim.

Cena do documentário ‘Atravessa a vida’ (crédito: divulgação)

Mudanças atuais

A ideia da produção surgiu após o cineasta finalizar “Pro Dia Nascer Feliz” (2006), documentário que discutiu as diferentes realidades sociais dentro do sistema educacional brasileiro. “O que conta na escola são as relações humanas, o que basicamente é a matéria-prima de um filme”, explica.

“A ideia de um novo documentário foi evoluindo a partir do interesse de estar dentro da escola. Da vontade de retratar questões subjetivas que acontecem lá, como os sentimentos e o potencial desses jovens”, justifica. Segundo ele, o Enem foi uma mudança importante que marca o período dos dois documentários. “Tornou-se uma realidade para o adolescente no Brasil em uma década, que é um período curto. Muitas cidades do interior do Brasil não possuíam universidades até então”, pontua.

Olhar lúdico

Após pesquisar a realidade educacional brasileira, Jardim foi a campo com um roteiro de hipóteses. “Nem tudo o que se espera acontece, da mesma forma que outros assuntos inesperados surgem”, explica ele, que permaneceu na escola entre agosto e novembro de 2018. “Era época da eleição presidencial e havia a vontade de falar sobre a polarização política, mas isso não ocorria na escola. Em contrapartida, havia a questão do ensino noturno”, compara.

Apesar de questões objetivas que acontecem na escola – como o processo de ensino e aprendizagem – foram enfocados elementos humanos e subjetivos. “Há a capacidade do jovem de ser protagonista e ter opiniões sólidas. Assim como a importância da escola na construção do pensamento. Estar dentro desse ambiente proporciona uma evolução constante”, destaca.

Cena do documentário ‘Atravessa a vida’ (crédito: divulgação)

O público pode esperar um filme intimista. “É estar dentro desse espaço e ver essa evolução e desenvolvimento acontecendo. Algo fascinante, apesar das dificuldades encontradas na escola pública”, observa o cineasta. Professores e alunos das redes municipais, estaduais e federais também podem se deparar com um olhar poético para uma realidade que vivenciam diariamente. “É uma perspectiva lúdica daquele dia a dia de trabalho e estudo, que pode ser duro e recompensador”, enfatiza.

Novos rumos

A equipe do documentário voltou à cidade em abril de 2019 para gravar os rumos dos estudantes após o Enem. “O filme é uma estrada, um caminho. Assim, é importante ver as pessoas chegando a algum lugar, mesmo que sejam novos inícios, novos começos de vida. Essa é a referência ao nome do documentário”, reflete. “Atravessa a vida” foi finalizado em janeiro de 2020, mas a pandemia do novo coronavírus fez com que seu lançamento precisasse ser adiado.

Neste ano, a escola pública que foi cenário do filme permaneceu fechada e enfrentou desafios diversos. “Há essa interrogação sobre como será a reabertura das escolas. Eu sou otimista e vejo o jovem ansioso pelo retorno. Espero que a estrutura educacional consiga estar preparada para essa vontade e sirva de impulso”, conclui Jardim.

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