Situações de suspensão das aulas – como a que ocorre durante a quarentena ocasionada pela pandemia de coronavírus (covid-19) – trazem desafios para os professores da rede pública na hora de planejar aulas e atividades a distância para seus alunos.

A principal questão é que nem todos os estudantes da turma podem ter acesso à internet em casa, fator que varia dependendo da região do país, da localização da escola na cidade, da rede de ensino e das condições sociais e econômicas da população atendida.

“Nas periferias, a maioria não tem computador, acessa a rede pelo celular, próprio ou dos pais, ou simplesmente não tem acesso algum”, contextualiza a pedagoga na rede pública de ensino de Curitiba (PR) e mestre em desenvolvimento de tecnologias, Cíntia Cargnin Cavalheiro Ribas.

Se nem todos na turma terão acesso, Ribas lembra que o momento não é propício para o docente seguir o currículo. “O objetivo será produzir materiais que ajudem na aprendizagem e que cheguem à maioria dos estudantes, mas sem cobrança de uma avaliação e sabendo que os temas serão retomados após a volta das escolas”, pontua.

A especialista contraindica aulas e atividades síncronas – em tempo real –, sugerindo opções assíncronas – em que os alunos possam acessar em outros momentos. “Pode-se indicar atividades offline, entre elas leituras e atividades lúdicas, como jogos. Se o professor optar por produzir vídeos, que sejam curtos e pontuais, já que a maioria dos alunos acessará a rede por celular pré-pago”, acrescenta.

Redes sociais também servem como parceiras. “No caso do Facebook, pode-se lançar desafios aos estudantes que serão respondidos pelo docente, por exemplo, a cada 48h. Ou o educador pode usar seu perfil pessoal para postar atividades e indicações de estudo diariamente, para atingir o maior número de alunos possível”, recomenda.

Formadora de professores e orientadora EaD, Erika Bataglia recomenda os stories do Instagram para atividades. “O professor pode criar enquetes com contagem regressiva, pedir para os estudantes enviarem perguntas ou deixar uma questão orientadora fixada no seu perfil.”

Quando todos acessam

Para as redes de ensino e turmas onde todos acessam a internet, há a possibilidade de criar um grupo para cada classe no WhatsApp, no qual serão compartilhados vídeos, textos e sugestões para estudo.

“Este deve ter regras claras, para os alunos não se perderem em conversas pessoais, o que dificultaria a monitoria do professor”, destaca Bataglia.

Atividades síncronas, como chat, devem ser previamente agendadas. “Marque um horário para esclarecer dúvidas, por exemplo, sempre no grupo. A dúvida de um estudante talvez seja a de outro, e isso não lotará a caixa de entrada do docente.”

O grupo também pode ser usado para atividades assíncronas, como fórum. Nesse caso, o professor deve postar uma pergunta norteadora, para os alunos trabalharem e postarem suas respostas a partir dela. “O docente resgata o conteúdo e faz um fechamento ao final”, ensina.

Há, ainda, aplicativos que rodam bem em todos os celulares. “Google Drive é um sistema de nuvem que permite aos estudantes compartilharem as suas produções e resultados de pesquisas”, opina.

Já o Google Documents é um documento para a escrita de texto de forma individual ou colaborativa (em grupo). “Uma vantagem é que o docente consegue identificar qual aluno colaborou com qual trecho, facilitando na avaliação e feedback”, ressalta.

Dos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA), as pesquisadoras indicam o Google Sala de Aula (Classroom). Para seu uso, alunos ou pais devem possuir uma conta de e-mail do Google. O professor, por sua vez, manda um link para que cada um deles acesse sua “sala de aula virtual”.

“A vantagem é que ele reúne as funções do Google Drive, Documents, permite chat, conferência com todos, postar e corrigir atividades, gravar uma aula ao vivo e deixar o conteúdo disponível depois”, lista Bataglia.

Para ela, a ferramenta é melhor para o professor da rede pública do que outro AVA gratuito e popular: o Moodle. “Este tem que estar instalado no computador, é pesado e de uso não tão intuitivo”, compara.

Preparando uma aula online

A preparação de uma aula online, por sua vez, é diferente da presencial. “A concentração do aluno será menor. Assim, ela deve ser mais direcionada e, se for em vídeo, mais curta. Exceção para as disciplinas de língua inglesa e espanhola, que podem requerer mais exemplos do uso do idioma e, com isso, mais tempo”, analisa.

Bataglia lembra que o interesse do estudante na aula deve ser gerado pelo professor. Para isso, indica o uso de metodologias ativas de aplicação online, principalmente a aprendizagem por projeto.

“Sugiro a criação colaborativa de um produto online, que pode ser um vídeo para o YouTube ou um blog colaborativo relacionado ao conteúdo estudado”, destaca. “Isso exigirá planejamento por parte do professor: em qual etapa o aluno trabalhará sozinho e em grupo? Como funcionarão as correções e feedback?”, apresenta.

Outra dica da especialista é que o produto sugerido gere orgulho no estudante e vontade de compartilhá-lo na internet com parentes e amigos ao final do processo. “Isso estimulará a sua pesquisa e elaboração em casa, em contato com docente e colegas”, finaliza.

Veja também:
9 links para usar pedagogicamente redes sociais e ambientes virtuais de aprendizagem
6 atividades pedagógicas que podem ser desenvolvidas a distância

Crédito da imagem: opolja – iStock

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