A doutora em Educação Vanusa de Melo era professora do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, quando se deparou com uma classe difícil de 8º ano. “Substitui um professor querido da turma, que me rejeitou. Foi quando apareceu a Raísa, que me disse: ‘olha, não é pessoal’. Isso me aliviou”. Anos depois, elas cultivam uma amizade próxima.

Na escola, Raísa era tida como agitada e indisciplinada, mas também criativa, sincera e “de uma franqueza de arrepiar”, como descreve a professora. “Ela foi eleita representante da turma e, durante um conselho de classe, uma colega professora a destratou e questionou seu lugar. Lembro que ela disse que desistiria. Foi quando eu intervi: ‘a senhora foi eleita democraticamente pelos seus colegas, tem o direito de estar aqui e vamos lhe ouvir’”, relembra Melo.

Hoje analista de um instituto social, Raissa Martins diz que a professora transformou sua visão de mundo. “Ela contava do trabalho que fazia com literatura em prisões, levava letras de músicas com críticas sociais e nos apresentou jongo [dança de roda africana]”, conta. Anos depois de formada, a ex-aluna buscou a professora nas redes sociais e os laços se estreitaram.

A ex-aluna Raissa Martins e a professora Vanusa de Melo (crédito: acervo pessoal)

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“Encontramo-nos, conversamos sobre coisas pessoais, política e trocamos indicações de literatura, poesia e filmes”, diz Melo. Os caminhos também se cruzaram profissionalmente. “Convidei-a para participar de um evento que discutiu educação, arte e cárcere”, destaca Martins. Para ela, a escola pública foi o ambiente ideal para que o encontro acontecesse. “Na rede particular, uma regra socioeconômica que faz com que as experiências sejam próximas e os alunos não acessem outras realidades. A rede pública é um espaço democrático e aberto a opiniões e vivências diversas“, opina.

Reencontro pela música

Quando era aluno do ensino médio em Cubatão (SP), o produtor cultural Jefferson Fernandes conta que era bagunceiro, rebelde e agressivo. Foi quando conheceu a professora de história Lurdinha Christo, hoje aposentada. “Ela disse que eu era inteligente, prestava atenção no que eu dizia e me fez acreditar em mim. Isso me motivou e eu comecei a me interessar pelas aulas”, relata.

Christo se lembra do ex-aluno com carinho. “Eu não fiz mais que a minha obrigação, que era tratar todo estudante como um indivíduo que tem sua vida, suas alegrias e tristezas”, observa.

Morando na cidade de Santos (SP), a ex-professora foi a um evento na praia de música nordestina, coincidentemente, organizado por Fernandes. “Desde então, ficamos amigos e retomamos o contato. Reencontramo-nos pela música”, destaca. “Encontrar qualquer aluno com uma boa postura de vida e visão de mundo me orgulha e me deixa grata por, pelo menos, ter colaborado um pouquinho com isso”, revela Lurdinha Christo.

Física e bom humor

A pedagoga Milena Fiuza cursava o magistério quando teve aula de física com Jeferson Luiz Appel. “Era uma disciplina com carga horária baixa e com a qual muitas alunas não se identificavam. Além disso, a maioria já lecionava”, contextualiza.
“O Jeferson, que se dedicava ao máximo para explicar o conteúdo para aquelas professoras tinha como característica ser bem humorado, o que chamava a atenção da turma”, conta Fiuza.

Jeferson descreve a adolescente como participativa, coerente e questionadora. Anos mais tarde, Fiuza começou a trabalhar em uma editora de livros paradidáticos, na qual hoje é gerente executiva. Certo dia, encontrou Jeferson no local – ele havia prestado concurso e passaria a trabalhar com formação de professores. “A Milena tomou o lugar da pessoa que estava me mostrando o espaço e começou a me apresentar para todos. Qualquer professor fica contente quando encontra um ex-aluno e vê que ele se tornou uma pessoa competente, respeitável e com valores preservados”, comemora.

De aluno a professor

Fernando Flesch estudou a vida toda na Escola de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde conheceu o professor de língua portuguesa Francisco M. Júnior. “Ele era mais novo e puxava para uma coisa familiar de um irmão mais velho”, pontua. “Sempre vi professores como ídolos, então, eu e outros colegas gostávamos de passar o intervalo conversando com o Chico, que adorava carros antigos”, relembra. “O Fernando era interessado e não tinha medo de tirar dúvidas. Liderava entre seus pares e mantinha o respeito e o bom humor em qualquer situação. Mesmo jovem, soube aproveitar as oportunidades oferecidas pela escola pública”, opina o docente.

amizade professor aluno
Fernando Flesch, de blusa branca, ao lado do professor Francisco Júnior, de verde, em passeio da escola (crédito: acervo pessoal)

Após se se formar, o contato com o professor se aprofundou. “Como moramos no mesmo bairro, a minha família e a dele trocavam caronas. Minha irmã foi colega de universidade de um dos seus irmãos. Já se passaram 15 anos e nunca ficamos sem saber o que o outro estava fazendo”, diz Júnior, que também ensinou o ex-aluno a dirigir. Flesch hoje é professor de dança e busca aplicar o que aprendeu dentro e fora da escola. “Sempre me pergunto se as crianças também terão boas lembranças minhas no futuro”, reflete.

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