A metodologia de abordagem de problemas que visa encontrar uma solução coletiva satisfatória, cunhada design thinking, foi criada para ser utilizada principalmente por designers – e ainda não é comum ouvir esta expressão ligada a um contexto educacional. Mas não à toa, atualmente, profissionais da área de educação estão encontrando formas de aplicação do conceito em diferentes ambientes escolares, tendo em vista o incentivo à ação colaborativa e participação ativa dos alunos.

Segundo Liliana Vasconcellos, pesquisadora da área na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, as possibilidades para a educação ainda estão em desenvolvimento. “O que destaca o design thinking como método de aprendizagem são suas possibilidades de adaptação a diferentes ambientes e a importância que o indivíduo adquire dentro da coletividade”, explica.

Mais do que um método inovador, é uma nova proposta para pensar a educação, que coloca o aluno como ator do processo educacional, permitindo que este opine, revele suas dificuldades e proponha soluções em uma ação coletiva. Isso tudo é conseguido por meio de um processo que inclui cinco etapas.

Confira como funciona cada fase do design thinking

Descoberta – Na descoberta, os alunos definem em grupo quais são suas principais necessidades e chegam aos problemas para os quais é preciso buscar soluções.

Interpretação – Procura-se inspirações, unem-se ideias e insights até que um ponto de vista seja definido para o desenvolvimento da etapa de ideação.

Ideação – Está aberto o espaço para um brainstorming, buscando-se muitas e diferentes ideias. A ideação também inclui o preparo de um plano mais detalhado de ação, usando os conceitos levantados durante as fases anteriores.

Experimentação – Inclui a aplicação de iniciativas e testes que coloquem em prática ao menos parte das conclusões tiradas em fases anteriores.

Evolução – O objetivo é desenvolver o conceito inicial através dos testes realizados e do retorno conseguido por meio da solução criada. Essa etapa geralmente acontece com a observação da evolução da iniciativa com o passar do tempo.

O método na educação

Alunos tiveram a oportunidade de dar sugestões para a sala com nova disposição que está sendo planejada na FEA (USP) (crédito: divulgação)

O site Design Thinking for Educatorsreúne algumas iniciativas nos EUA que se destacam na aplicação do design thinking em ambientes educativos. Um exemplo é o caso da escola Ormondale Elementary, da Califórnia. Para criar uma experiência de aprendizagem conectada às novas tecnologias, a escola aplicou o método durante um ano com alunos e professores. Eles investiram no conceito de aprendizagem investigativa, no qual os alunos são vistos não como receptores de informação, mas como formuladores de conhecimento. Para colocar isso na prática, a escola desenvolveu ferramentas digitais de auxílio aos professores e estudantes, formas inovadoras de comunicação com os pais dos alunos e até mesmo uma renovação física da sala de aula, criando um ambiente mais amigável e aberto à colaboração e troca de ideias.

Essa mudança do espaço de aprendizagem também está acontecendo no Brasil. Mais especificamente, para os alunos da FEA, na USP. Silvia Casa Nova, integrante do projeto FEA Futuro, que busca inovações no campo da aprendizagem, conta que está sendo desenvolvida, dentro da biblioteca da faculdade, uma sala que favorece o uso do método entre alunos e professores. “Queremos que o espaço potencialize a principal característica do design thinking: a flexibilidade. Por isso, o ambiente vai contar com mesas, quadros brancos, pufes e até divisórias que poderão ser facilmente deslocadas”, conta Casa Nova. A ideia é usar a sala para aproximar professores e alunos na tomada de decisões e em dinâmicas em busca de soluções no campo didático.

Workshop de design thinking

No The Hub, participantes da oficina de design thinking aplicado à educação em dinâmica (crédito: Leonardo Neiva)

Hub São Paulo, espaço onde ideias e projetos são tratados de forma bastante colaborativa, também está atento à discussão. Em abril, o espaço organizou a oficina “Experimentando Design Thinking na Área Educacional”, com os designers Fabiano Pereira e Fabio Silveira. Os participantes tiveram que definir, por meio de experiências pessoais, quais os maiores problemas das dinâmicas educacionais existentes atualmente. Divididos em grupo, os integrantes desenvolveram as etapas do método, até que todos, além de enxergarem problemas coletivos, contribuíram para definir metas e soluções para esses obstáculos. E os resultados foram expressos visualmente de diversas formas, variando entre desenhos, colagens e até uma apresentação de telejornal ao vivo.George Stein, educador na Fundação Instituto de Administração (FIA) e participante do workshop, conta que o grande valor do design thinking, que foi explorado durante a atividade, é o foco que o método dá ao estudante e ao processo de aprendizagem. O professor já pensa, inclusive, em aplicar algumas das ideias levantadas durante a oficina em uma aula experimental com seus alunos.

Design for Change

Estudantes são incentivados a pensar o contexto coletivo em que estão inseridos por meio de atividades em grupo (crédito:
Carolina Pasquali)

A designer Lucia Farias também está empenhada em fazer uso desse novo “caminho” na prática educacional. Em parceria com as amigas Angélica Gonçalves e Carolina Pasquali, Lucia é responsável por trazer ao Brasil a iniciativa Design for Change, nascida em 2006 na Índia. Elas tiveram, inclusive, apoio da própria Kiran Bir Sethi, criadora do projeto que hoje já acontece em escala global.

No Brasil, o Design for Change foi lançado no início deste ano e ainda está em desenvolvimento. No momento, elas elaboram iniciativas em sala de aula, com crianças de 7 a 14 anos, que usam o método para definir seus problemas e encontrar soluções para eles. Os professores também participam das atividades, para entender melhor como o método pode ser aplicado. Lucia conta que as crianças costumam ter alguma dificuldade no início, mas logo se envolvem e passam a participar ativamente do processo. Para ela, a compreensão da importância do design thinking na educação veio com o entendimento de que, em um ambiente escolar, todos os elementos precisam estar “conectados”. “Esse processo é útil principalmente para que os jovens aprendam a situar as pessoas, coisas e porquês no mundo. Eles aprendem, na ação colaborativa, a entender suas próprias necessidades e a resolvê-las”, conta.

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Atualizada em 25/02/2021, às 17h03

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