A dislexia é um transtorno de aprendizagem que afeta a capacidade do aluno ler, escrever e entender a linguagem escrita. Isso traz desafios para as interações em sala de aula, como dificuldades em ler sem gaguejar, de interpretar textos, de se expressar pela escrita, de soletrar corretamente e também de copiar informações da lousa. Como resultado, há  frustração, ansiedade e exclusão, já que muitos professores e colegas confundem o transtorno com “preguiça” ou desmotivação.

Para os educadores, saber como os alunos com dislexia se sentem na escola ajuda a entender a forma que suas escolhas pedagógicas e julgamentos podem impactar não apenas na aprendizagem, mas também no bem-estar emocional desses estudantes, permitindo oferecer apoio e criar um ambiente acolhedor.

Além disso, auxilia no desenvolvimento de estratégias de ensino diferenciadas, a identificar o problema em alunos ainda não-diagnosticados e também a reduzir o estigma que o estudante disléxico costuma sofrer no ambiente escolar. 

“Professores não entendiam”

Aluno do ensino médio da rede estadual de São Paulo (SP), Pedro Oliveira, 15 anos, enfrentou dificuldades com a produção de textos em geral.

“Principalmente com troca de letras, interpretação de texto e pontuação. Escrevia muita coisa errada”, lembra. 

Por conta disso, sofreu bullying durante toda a vida escolar. “Eu lia muito devagar, gaguejava e acabei ficando cada vez mais tímido, não queria me mostrar”. 

Nesse contexto que afetava tanto sua aprendizagem quanto o bem-estar, Oliveira se deparou com professores que desconheciam a dislexia. 

“Os professores que tive não entendiam: reclamavam de mim, achavam que eu era mimado e relaxado. Mesmo os diretores e coordenadores pedagógicos não ajudaram: limitavam-se a dizer para ‘buscar um neuropsicólogo’. Porém, quando recebi um laudo, eles o ignoraram”, relata. 

A pandemia piorou o problema. “Foram os anos mais difíceis de estudar porque os professores mandavam uma grande quantidade de textos para ler, para copiar, o que me deixava ansioso e estressado”, destaca.

“Ninguém procurou saber o que se passava”

Recém-formada do ensino médio estadual na cidade de Itabira (MG), Mara Gabrini, 21 anos, não conseguiu o diagnóstico quando ainda estava na educação básica. O desconhecimento dos professores dificultou sua trajetória escolar e culminou em reprovações. 

“Eu realmente comecei a ler somente após os 14 anos. Quando pediam para eu ler em voz alta, toda a classe ria porque eu gaguejava e não conseguia entender o texto escrito. Precisava reler várias vezes”, pontua.

Para sobreviver na escola, ela começou a desenvolver estratégias. “Se o professor dividia um texto para a classe ler, eu contava as pessoas que estavam na minha frente e me concentrava em decorar a minha parte para não gaguejar. Com isso, não conseguia prestar atenção no conteúdo. Ainda assim, sempre que me pediam para ler, o coração acelerava”, relembra.

“Minha família achava que eu não lia por preguiça. Na escola, sentava sempre junto a pessoas inteligentes como uma forma de camuflar que eu não sabia.” 

As reprovações vieram ainda sim. “O desconhecimento dos professores foi ruim. Porque eles apenas chamavam meus pais, diziam que eu tirava notas péssimas, mas nunca procuraram saber o que se passava”. 

Aluno da rede estadual de São Paulo, Renan Santana, de 17 anos, também enfrenta dificuldade em realizar provas escritas.

“Tem muita coisa para ler e fica difícil”, relata. Tanto Santana quanto Oliveira recebem apoio da Associação Brasileira de Dislexia (ABD).

 “Não sabia o som das letras. Ainda hoje, sinto que meus colegas sabem ler e eu não. Porém, eles me ajudam quando preciso”, acrescenta Santana.  

Tempo de mudança

Para Oliveira, mudar esse panorama também passa por reiterar o direito dos disléxicos em gravar a aula, tirar fotos da lousa e ter uma pessoa para fazer a leitura durante as provas. Outro ponto de atenção é o barulho dentro e fora da sala de aula, que compromete o foco desses estudantes. 

“Tudo isso nos deixa com a cabeça sobrecarregada e é impossível memorizar e aprender o conteúdo”, justifica Oliveira.

“Para os professores, também é importante saber que existem diferentes tipos de dislexia, que cada aluno pode ser de um jeito”, recomenda.

Segundo Gabrini, ter uma pessoa para fazer a leitura de prova teria ajudado em seus anos na educação básica. “O pouco tempo para ler aquela quantidade enorme de texto causa ansiedade. Eu precisava reler até quatro vezes cada trecho, marcar as palavras-chave e, ainda assim, não conseguia”, finaliza. 

Veja mais: 

6 links para entender a dislexia e pensar em intervenções pedagógicas

Site capacita professores a trabalharem com alunos disléxicos

O que é psicopedagogia e qual seu papel nas escolas públicas? 

Como apoiar pedagogicamente o aluno com disgrafia? 

7 links para entender a discalculia e possíveis intervenções 

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Talvez Você Também Goste

3 jogos para ensinar cartografia

Atividades lúdicas ajudam alunos a interpretarem o espaço geográfico

7 filmes para ensinar Segunda Guerra Mundial

Obras abordam as batalhas, o Holocausto e a atuação dos pracinhas brasileiros no conflito

Gravidez na adolescência pode ser abordada nas aulas de geografia

Marcadores sociais das gestantes, como raça e classe social, ajudam no debate em sala

Receba NossasNovidades

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.