Chernobyl é uma minissérie de cinco capítulos com classificação 16+ e disponibilizada no streaming da HBO Plus. A série de 2019 reconstrói, de forma fictícia, o maior acidente nuclear da história, em Chernobyl, na Ucrânia, durante a década de 1980. Professora de química licenciada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ana Caroline Ferrari indica a produção para ensinar radioatividade nas aulas de ciências da natureza do ensino médio. As potencialidades e riscos da radioatividade para a saúde, meio ambiente, indústria e geração de energia são assuntos previstos para esta etapa de ensino.

“Quando falamos de radioatividade, a química e a física se confundem, já que é um tema comum às duas disciplinas”, explica ela, que é autora da monografia “Radioatividade e a história da ciência: uma análise da série Chernobyl” (2021). A professora indica trechos de episódios que podem ser apresentados e debatidos com os alunos em aulas das duas disciplinas.

Radioatividade em exemplos

No primeiro episódio, ocorre a explosão do reator, apresentada por um brilho no céu. “Ele é provocado pela ionização do ar em decorrência da radiação liberada. Nesse caso, podemos falar sobre desintegração nuclear, ou seja, a emissão de partículas alfa, beta e radiação gama que são responsáveis pela ionização”, indica. No segundo episódio, o personagem Legasov, responsável pelo reator, explica didaticamente como ocorre a geração de energia elétrica em uma usina nuclear. “Ele se refere aos nêutrons como balas que irão atingir as pastilhas de combustível, promover a quebra dos átomos e liberar energia”, detalha a professora.

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Em outra cena, boro e areia são utilizados para conter o fogo. “O primeiro tem a função de capturar os nêutrons e, assim, impedir que eles se choquem com outros átomos e continuem a reação em cadeia”, descreve. A docente também explica que, quando se tem um desastre nuclear, há a liberação de isótopos do iodo, que podem provocar tumores, como o de tireoide. “Os primeiros minutos do episódio mostram a personagem Khomyuk ingerindo pastilhas de iodo para saturar seu organismo e evitar que ele absorva o iodo radioativo”, lembra.

Para completar, o terceiro capítulo da série traz cenas de trabalhadores sendo enterrados em caixões de chumbo. “Assim, demonstram como este minério consegue barrar a radioatividade”, pontua Ferrari.

História da ciência

A série também pode ser utilizada para debater com os alunos sobre história da ciência, esclarecendo mitos e deturpações. A produção, por exemplo, apresenta que a ciência sofre influência de agentes externos a ela, como no caso do Estado soviético e suas questões históricas e políticas. “Legasov nega o perigo do acidente e se recusa a expor as causas do ocorrido na Agência Internacional de Energia Atômica. Logo, temos um cientista que não é neutro nem imparcial, já que ele não está à margem da sociedade, mas participa dela também”, assinala Ferrari.

A série também contrapõe o mito de que o processo de desenvolvimento científico se dá de forma rápida e sem obstáculos. “Quando, na verdade, acontece lenta e gradativamente, fruto de debates”, acrescenta a professora.

O acidente nuclear de Chernobyl ajudou a fomentar uma visão negativa da radioatividade, ainda vista nos dias hoje. “Assim, vale destacar com os alunos que a ciência não é ‘boa’ ou ‘má’: há a finalidade que damos a ela”, sugere a química.“Nesse sentido, é fundamental mencionar os diferentes empregos positivos da química nuclear, como o tratamento e diagnóstico de doenças, geração de energia e preservação de alimentos”.

Interdisciplinaridade

Um diálogo com biologia é apresentado no quarto episódio, quando são relatados os efeitos adversos da dispersão dos radionuclídeos pela atmosfera e seu depósito na terra. “Há cenas em que a camada superficial da terra, plantações e florestas precisam ser retiradas, assim como ruas lavadas e animais sacrificados para evitar o risco de disseminação da contaminação”, aponta Ferrari.“No terceiro episódio, Legasov explica como a radioatividade age sobre o corpo humano, adoecendo as pessoas”, complementa.

No âmbito de história e geografia, a série trata, ainda, de um momento de tensão da Guerra Fria, em um mundo polarizado por uma potência capitalista (Estados Unidos) e outra socialista (União das Republicas Socialistas Soviética). “Pode-se lembrar do uso da bomba atômica em Hiroshima, na Segunda Guerra Mundial, para fins não pacíficos, e a diferença da utilização da energia nuclear para gerar energia, caso de Chernobyl”, indica o professor de geografia e youtuber Jean Grafia (@profjeangrafia).

Outros temas associados são o declínio da União Soviética e as tentativas de Mikhail Gorbatchev para acabar com a crise econômica e social da região, como a perestroika e glasnost. “Outro aspecto é que os Estados Unidos aproveitam este momento de fraqueza para tentar captar os países socialistas para o seu lado, alterando a geopolítica do mundo. Para explicar melhor este momento, indico o filme alemão ‘Adeus, Lenin’” (2003), assinala o docente.

Veja mais:

Plano de aula – Efeitos da radioatividade

Plano de aula – Decaimento radioativo

Plano de aula – Bomba atômica: fissão nuclear

Plano de aula – Da Guerra Fria ao Mundo Atual

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