O Brasil reduziu os números de estudantes do ensino fundamental em distorção idade série, ou seja, com dois ou mais anos de atraso escolar, de 19,7% (2018) para 13,3% (2023). Os dados são do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef-Brasil), tendo como fonte o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), e foram apresentados durante o Seminário Nacional Trajetórias de Sucesso Escolar, promovido pelo Unicef em parceria com o Instituto Claro, em São Paulo (SP) nessa terça-feira (4/06). A queda no mesmo período foi ainda de 12,9% para 8,2% nos anos iniciais do ensino fundamental; de 27,9% para 19,3% nos anos finais e de 31,1% para 21,6% no ensino médio.

Mesmo problema, diferentes perfis

Segundo a gerente de avaliação na Fundação Roberto Marinho, Rosalina Soares, informações sobre quem são os jovens levados a abandonarem os estudos e suas razões são importantes para a formulação de estratégias que previnam o atraso escolar.

De acordo com a pesquisa “Juventude Fora da Escola”, da Fundação Roberto Marinho (2024), a incidência de abandono escolar é maior nos grupos de alunos com deficiência – 35% contra 19% de pessoas sem deficiência –; pretos e pardos – 48% somados, contra 14% de brancos –; indígenas – 28% contra 20% de não-indígenas –; e moradores de áreas rurais – 33% versus 18% de zona urbana.

Outros dados mostram que a maioria é composta por homens (58%) e famílias com renda de até 1 salário mínimo (78%). Entre o gênero feminino, 8 em cada 10 estudantes que evadiram são mães.

Em termos de recorte de raça, a pesquisa dialoga com o levantamento “A permanência Escolar Importa, indicadores de trajetórias escolares”, do Itaú Social (2024). Segundo a gerente de desenvolvimento e soluções do Itaú Social, Sônia Dias, apenas 40% dos estudantes negros terminam o ensino fundamental nos nove anos previstos, contra 62% de brancos e 52% da média nacional. “O racismo estrutural e diferente desigualdades, como de moradia e saúde, acumulam-se e impactam na trajetória escolar desse jovem negro”, contextualiza.

Estratégias diversificadas

A pesquisa “Juventude Fora da Escola” também sinalizou que 84% dos alunos que evadem são trabalhadores, sendo 69% deles na informalidade, e que 15% iniciaram o trabalho antes dos 14 anos. Em termos de escolaridade, 43% possuem ensino fundamental incompleto, 22% ensino fundamental completo e 35% ensino médio incompleto. Além disso, 68% reprovaram. “Oito em cada dez estão fora da escola há mais de dois anos, sendo que a média é seis anos”, aponta Soares. Quando o assunto são alternativas para o problema, Soares aponta a necessidade de diversificar estratégias para atender diferentes perfis.

Na pesquisa da Fundação Roberto Marinhos, os jovens ouvidos apontaram como soluções: poder conciliar trabalho e estudo (41%); ter bolsa de estudos (35%); creche (32%); segurança na locomoção e dentro da escola (27%) e transporte gratuito (25%).

Um segundo ponto, de acordo com Soares, é um currículo adaptado e que dialogue com o projeto de vida. Os jovens ouvidos apontaram desejar um currículo que terminasse em menos tempo (43%), que preparasse para faculdade ou concurso (35%) e voltado à profissão (31%).

Uma terceira alternativa levantada foi ampliar a busca ativa escolar. “O foco hoje são os alunos até 17 anos, mas existe pelo menos 20% dos que evadiram na faixa de 18 a 19 anos, que está descoberta”, avalia Soares.

Ouvindo as redes

Secretárias de educação e educadoras de estados que compõem a estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar (TSE) – iniciativa do Unicef que apoia entes federativos na implementação de políticas de enfrentamento da cultura de fracasso escolar – também compartilharam experiências.

“Um único programa não dá conta do problema da evasão, e o desafio é a interlocução da secretaria de educação com outras, como a de bem-estar social, de direitos humanos, de saúde”, aponta a secretária de educação básica do Espírito Santo, Andréa Pereira.  “Na escuta com os alunos que estão no programa do TSE, o que nos marcou foi ouvir que eles se sentiam invisíveis”, acrescentou.

Secretária de educação do Rio Grande do Norte (RN), Socorro Batista destacou a importância de ouvir a diversidade dentro da escola e suas demandas. “Por exemplo, tivemos adolescentes LGBTQIAP+ pedindo transferência de escola por não aguentarem o bullying”, lamenta.

Gerente do programa de aceleração de estudos na Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Rosana Mendes criticou a descontinuidade de políticas públicas e a naturalização da reprovação. “Há uma cultura de que a avaliação é realizada apenas por uma prova única. Além disso, a alfabetização na idade certa é importante. Quando não ocorre, toda a trajetória do aluno fica comprometida”, acrescenta.

Diretor de políticas e diretrizes da educação integral básica do Ministério da Educação (SEB/MEC), Alexandro Santos lembrou que a sociedade autoriza a cultura do fracasso escolar. “Acredita-se que escola boa é que repete, que é exigente com os alunos, que eles sofram. É necessário outro pacto nacional para uma escola justa, que é aquela na qual todo mundo pode entrar, permanecer, sentir-se bem lá dentro, conseguir aprender e sair com perspectiva de futuro. Oferecemos isso apenas a uma parcela da população”, finalizou.

Veja mais:

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Curso online do Unicef traz orientações para enfrentar distorção idade-série e evasão escolar

Crédito da imagem: Divulgação

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