Cesar Callegari, secretário de Educação Básica

A escola do século 21 precisa estar preparada para ensinar aos alunos como buscar e trocar conhecimento, filtrar informação e, principalmente, desenvolver o pensamento crítico em um mundo conectado. As tecnologias digitais se fazem presentes nesse processo, pois estão no cotidiano da sociedade e por meio delas estudantes interagem intensamente com o mundo. Nesta entrevista, Antonio Cesar Russi Callegari, secretário de Educação Básica do MEC discorre sobre os projetos do governo federal em relação às TICs (tecnologias de informação e comunicação), defende a capacitação de professores e afirma que ainda é cedo para se falar em resultados.

O MEC tem investido na aplicação das TICs (tecnologias de informação e comunicação) visando a rede pública. Já existe o programa “Um Computador por Aluno” e recentemente foi anunciada a compra de tablets para professores da rede. Quais os benefícios que essa tecnologia pode trazer?

Antonio Cesar Russi Callegari – As novas tecnologias oferecem formas mais rápidas e mais fáceis de acessar informação, e também criam novas possibilidades para as pessoas se comunicarem e se expressarem. A escola precisa inserir em seu currículo o desenvolvimento das linguagens intrínsecas às diversas mídias, e assim promover novas formas de ensinar, aprender e interagir com o conhecimento, buscar e selecionar informação, desenvolver o pensamento crítico, solucionar problemas e trabalhar colaborativamente. Enfim, a implementação das TICs na rede pública, associada a um programa de formação dos professores, possibilita o desenvolvimento das dimensões necessárias para os cidadãos do século 21.

Quais os resultados destes projetos que já estão em andamento? Eles têm se mostrado positivos? 

Callegari – Ainda é cedo para falarmos de resultados. Equipar as escolas com computadores, laptops e tablets é necessário, mas não suficiente para garantir a aprendizagem. O UCA [Um Computador por Aluno] está sendo monitorado e avaliado, a maior parte dos professores ainda está passando por capacitação. É preciso entender que é necessário um tempo para que os professores compreendam a tecnologia com seus atributos, potencialidades e limites, para incorporá-las em suas práticas. Mas há inúmeros relatos de escolas e profissionais envolvidos no projeto que falam sobre o entusiasmo dos alunos e das famílias com a possibilidade de acesso a um computador e à internet.

Por enquanto, apenas os professores irão receber os tablets e outros acessórios. Os alunos também terão direito a estes equipamentos?

Callegari – A distribuição dos tablets para os professores do Ensino Médio está articulada à distribuição de outros equipamentos, como a lousa eletrônica e projetores. Usados de maneira integrada, oferecerão aos alunos oportunidades de aprender de forma mais interessante. Os tablets poderão ser utilizados pelo professor para sua formação pessoal, assim como instrumento de trabalho. Na medida em que esses profissionais passem a ser atendidos, a ideia é contemplar os professores do Ensino Fundamental. A ampliação desses equipamentos para os estudantes ainda dependerá dos resultados avaliativos do Projeto UCA. As escolas receberão Computadores Interativos (Lousas Eletrônicas), que certamente beneficiarão todos os alunos. Há que se lembrar, ainda, que quase todas as escolas públicas já possuem laboratório de informática, distribuídos pelo Programa ProInfo. Nesse momento, os alunos não receberão equipamentos de uso pessoal e individual.

Em alguns Estados, como São Paulo e Pernambuco, já está sendo discutida a implementação de tablets para os alunos. Qual a sua opinião sobre essas iniciativas? 

Callegari – Acho ótimo, desde que isso esteja relacionado ao uso pedagógico desses instrumentos. O potencial das TICs para facilitar a aprendizagem é senso comum. Os alunos de posse de tablets podem ter acesso a inúmeros conteúdos, em diversos formatos, podem compreender mais rapidamente conceitos complexos de ciências por meio das simulações, podem trabalhar colaborativamente em redes etc. Mas os professores das escolas precisam estar preparados para utilizar essas ferramentas de forma inovadora, diferente das práticas tradicionais. Também é preciso que a iniciativa de implantação de tablets venha com uma proposta sustentável de manutenção da infraestrutura necessária. O MEC tem muito interesse de acompanhar essas iniciativas dos Estados.

 

O filósofo Pierre Lévy defende que o importante quando falamos em aprendizagem virtual não é só o equipamento, mas também as condições estabelecidas para que as pessoas possam usá-los (conexão, acesso à internet em todos os lugares, capacitação das pessoas para usarem as ferramentas). O senhor concorda com a afirmação? Como o MEC pretende suprir essa lacuna?

Callegari – Concordo plenamente. Mais uma vez lembro que não basta instrumentalizar a escola ou os professores, é preciso criar condições para que os educadores possam utilizá-los, que favoreçam o uso pedagógico e permitam o funcionamento adequado da tecnologia. Em seus programas de implementação de TICs, o MEC condiciona o envio de equipamento à instalação adequada de infraestrutura e formação dos docentes. No caso dos tablets, as escolas selecionadas serão aquelas que atenderem aos seguintes pré-requisitos: devem ser escolas públicas urbanas, com banda larga na escola e laboratório ProInfo instalado. Tanto escolas quanto professores serão preparados em cursos oferecidos pelo MEC em conjunto com as universidades e secretarias estaduais e municipais parceiras do projeto.

Não podemos dissociar o uso dessas tecnologias de um plano pedagógico preestabelecido. Como estão estas questões na esfera federal?

Callegari – No MEC, acreditamos que o uso da tecnologia não pode ser um fim em si mesmo. Desde 2008 temos cursos desenvolvidos para atender o que estabelece o Decreto do Proinfo (são três: “Introdução à Educação Digital”, “Tecnologias na Educação: Ensinando e Aprendendo com as TIC” e “Elaboração de Projetos”). Um novo curso de formação para a Educação Digital será oferecido aos professores beneficiados com os tablets.

Ao mesmo tempo em que a internet oferece um grande auxílio na área educacional, ela representa um mundo de possibilidades positivas e negativas, dependendo do uso que se faça. Qual o papel do educador nessa busca? Como prepará-lo para ajudar os jovens? 

Callegari – O papel do educador é o de mediador entre o conhecimento construído socialmente e os alunos. Assim, deverá ajudar o aluno a construir e “re-significar” os conteúdos. Isso significa não apenas utilizar buscadores, como o Google ou Bing, mas também a selecionar informação corretamente: identificar fontes, entender as questões éticas, como a dos direitos autorais. O professor, com suas atividades de sala de aula, pode promover debates sobre comportamento na rede, a responsabilidade de cada um ao expressar e publicar conteúdo, as questões relacionadas a pirataria etc.

Como fazer com que a inclusão digital ultrapasse os muros do colégio e cheguem também à comunidade?

Callegari – De várias formas isso já está acontecendo, até pela própria dinâmica da sociedade. Especificamente pela via educacional. Tome-se, por exemplo, o Programa UCA: ao levarem seus laptops para casa, alunos e professores estão possibilitando que seus familiares tenham também acesso a essa tecnologia. O mesmo ocorrerá no caso dos tablets. Cada escola tem sua própria maneira de incluir a comunidade. Algumas escolas utilizam os laboratórios Proinfo no contra turno para oferecer cursos para a comunidade. As possibilidades são inúmeras, mas precisam ser conduzidas por professores preparados. A constatação desta demanda social, aliada à importância que a tecnologia vem assumindo na vida contemporânea e à necessidade da valorização do profissional em educação, exige uma resposta adequada dos responsáveis pelas políticas públicas educacionais. É neste contexto que estamos trabalhando.

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