Um dos primeiros exemplos de sala de aula invertida, a peer instruction (ou aprendizagem entre pares) foi criada na década de 1990 pelo professor de física da Universidade de Harvard, Eric Mazur. Nesse método de aprendizagem ativa, os alunos leem o conteúdo antes de irem à aula, respondem a perguntas pré-selecionadas pelo docente e ajudam uns aos outros com as principais dúvidas.

Em entrevista exclusiva, Mazur explica como funciona a metodologia e dá dicas para educadores de todas as áreas de conhecimento sobre como aplicá-la em sala de aula.

O que é a peer instruction?

Eric Mazur: Peer instruction é uma técnica pedagógica e metodologia ativa de aprendizagem que eu desenvolvi na década de 1990. O objetivo é que os estudantes se ajudem para entender o conteúdo. O que eu percebi, há 30 anos, é que o educador geralmente tem dificuldades para abordar erros comuns dos alunos porque, como outros especialistas em ensino já disseram, sofre de uma espécie de “ponto cego”. Ou seja, o conteúdo que a gente ensina há tanto tempo parece tão claro para nós professores que não conseguimos entender como um estudante iniciante o aprende. Dessa forma, não conseguimos abordar os equívocos que os alunos têm.

Como a aprendizagem entre pares funciona?

Mazur: Os alunos leem o conteúdo antes da aula. Eu não espero que eles entendam tudo nesse momento, mas aprendam mais do que se ficassem tomando notas enquanto eu falo na sala. Na aula, ao invés de ensinar falando, eu faço, ao grupo,  perguntas que geralmente os estudantes me fazem após a leitura. Dou dois minutos para eles pensarem sobre ela em silêncio. Na sequência, eu trago respostas de múltipla escolha e peço para eles apontarem a que acham certa, ou uso algum aplicativo de smartphone para que eles respondam. Depois, eu solicito que eles procurem um vizinho que possui uma resposta diferente da sua e tente convencê-lo que ele está errado. Nesse momento, já vemos na sala alguns “ah, entendi”. Eu refaço a votação e, se houver dúvidas, repito o processo e explico. Se você começa com 30% a 70% de respostas certas, as chances de chegar a 100% na segunda rodada são grandes. Lembrando que, apesar de chamar aprendizagem em par, o processo pode ser realizado com grupos de três, quatro ou cinco alunos.

Quais as vantagens dessa metodologia de aprendizagem ativa?

Mazur: Imagine dois estudantes, José e Maria. Maria tem a resposta correta e José, não. Geralmente, Maria já teria maiores condições de explicar o conteúdo ao José porque ela entendeu. Mas não é isso que é importante. Ela aprendeu o conteúdo recentemente, então, ainda sabe as dificuldades que um aluno iniciante, como José, costuma ter e os erros que costuma cometer. Além disso, como instrutor, eu só conseguiria dar atenção para um estudante por vez.

Objetivo da metodologia peer instruction é que os estudantes se ajudem para entender o conteúdo, explica seu criador, Eric Mazur

 

A peer instruction pode ser usada em disciplinas de outras áreas, que não ciências e matemática?

Mazur: Se você me perguntasse isso há alguns anos, eu diria não sei, pois apenas ensino física e não ciências humanas. Mas hoje, se você for no Google Acadêmico e procurar por “peer instruction”, verá centenas de artigos científicos descrevendo experiências com o método nas mais diversas disciplinas, incluindo as de humanas. De arte a linguagens.

Quais as dicas para o professor aplicar o método da melhor forma?

Mazur: Penso que o principal é o professor não inventar perguntas “da sua cabeça”, mas trazer aqueles questionamentos que os alunos que estão aprendendo costumam fazer. O melhor é se conectar com todos os estudantes da sala, principalmente após a leitura prévia do conteúdo, e descobrir os tipos de dúvidas que costumam ter antes de lançar as perguntas para a classe discutir.

Veja mais:
Peer instruction: metodologia ativa ensina física por meio da troca de conhecimento entre alunos
7 livros sobre metodologias ativas de aprendizagem
6 links com atividades que incentivam o aprendizado por meio da interação
Design thinking na educação ambiental convida alunos a pensarem soluções para a comunidade

Crédito da imagem: monkeybusinessimages – iStock

Atualizado em 25/02/2021, às 16h58

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