O rap – cuja sigla em inglês significa “ritmo e poesia” – é um dos quatro elementos que compõem o movimento hip-hop, junto ao grafite, ao breakdance e ao DJ. Oriunda dos Estados Unidos na década de 70, essa manifestação cultural oferece informação, lazer e conscientização aos jovens de periferias. No Brasil, além de trazer mensagens de protestos e críticas sociais em linguagem acessível, o gênero musical pode ser utilizado para o ensino de ciências e tecnologia na educação básica.

O mestre em Educação Científica e Tecnológica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) João Paulo Ganhor sugere o uso de obras que dialogam com conteúdos curriculares específicos ou via composição de letras, batalhas de rimas, saraus, grafites etc. Segundo o docente, o rap elucida como elementos tecnocientíficos se relacionam com as dimensões da vida humana, sejam elas sociais, históricas, geopolíticas ou econômicas. “Ele é um elemento catalisador para as turmas em torno dos conteúdos abordados, gerando motivação e engajamento”, destaca.

Além disso, o gênero musical contribui para o enriquecimento cultural dos alunos e alunas, pois traz referências constantes a nomes de grande relevância social como os ativistas Malcolm X, Martin Luther King e Marcus Garvey, o psiquiatra e pensador Frantz Fanon, a cantora Clementina de Jesus, o escritor e dramaturgo Abdias do Nascimento, o líder quilombola Zumbi dos Palmares e o cangaceiro Lampião.

“É um arcabouço cultural que pode ser amplamente explorado pelo professor. E, para completar, colabora na construção de uma educação antirracista, antimachista e anti-homofóbica”, elenca o especialista.

Indicações de músicas

Segundo Ganhor, a associação do rap ao ensino de ciências e tecnologia pode ocorrer em todas as etapas da educação básica, com a adaptação da linguagem para cada faixa etária. Porém, é nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio que os alunos mais se beneficiam com a proposta.

Uma das obras recomendadas pelo docente na dissertação “Ciência, tecnologia e o rap: contribuições à educação científica e tecnológica em periferias urbanas” (2016), é o álbum “Tungstênio”, de Renan Inquérito, com destaque para as canções “Barras de Ouro” e “Artesanato Eletrônico”.

“Elas dialogam com química e física, em temas como tabela periódica e classificação dos elementos químicos, propriedades dos metais, ligações metálicas, aplicações tecnológicas e química no cotidiano”, conta.

“Matemática na Prática (partes 1 e 2)”, do rapper GOG, também têm potencial para uso em sala de aula. “A parte 1 trata de conjuntos numéricos, operações matemáticas, razão e proporção, funções, equações e inequações, porcentagem, matrizes e determinantes, ângulos, coordenadas, regra de três, radiciação… Já a parte 2 faz referências à fórmula de equivalência entre massa e energia, de Albert Einstein, e à unidade de distância ano-luz”, enumera o especialista.

Outra letra que pode ser explorada na atividade é “Chuva Ácida”, de Criolo, que apresenta temáticas relacionadas às questões ambientais e à ecologia.

Atividades possíveis

Na hora de elaborar uma sequência didática, Ganhor sugere iniciar com as canções antes de apresentar o conteúdo. “A força do elemento cultural tende a afetar os alunos e catalisar de maneira mais significativa a atenção e o envolvimento deles”, explica.

Uma primeira possibilidade de atividade é propor uma análise detalhada da obra junto à turma, relacionando-a ao conteúdo que será aprofundado posteriormente. Pode-se ainda reunir várias músicas que fazem referência a uma mesma temática e pedir para que cada grupo analise uma delas, estabelecendo conexões com os assuntos em estudo e compartilhando suas reflexões ao final.

“Uma terceira forma é o caminho inverso: trazer uma temática específica e solicitar que os estudantes pesquisem músicas que se relacionem aos conteúdos propostos”, sugere Ganhor.

Para todas essas opções, o site Rap Genius é de grande valia. “É uma plataforma wiki, em que os usuários podem contribuir incluindo possíveis interpretações para determinados trechos das músicas. É possível utilizar o que já existe e inserir com os alunos novas interpretações e significados, fomentando a construção coletiva”, comenta o docente.

Criando o seu rap

Uma quarta alternativa é criar com os próprios alunos letras de rap que abordem os conteúdos estudados. Essa foi a iniciativa utilizada pelo mestre profissional em ensino de biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Thiago Judice. Na dissertação “O rap como estratégia metodológica no ensino de biologia” (2019), ele elaborou um roteiro para a criação de músicas na especialidade, que também pode ser adaptado a outras áreas de conhecimento.

Segundo o docente, a principal vantagem do rap como recurso didático é a construção de uma música falada, porque isso facilita o encadeamento de ideias e a melhor compreensão dos assuntos trabalhados em aula.

“Quando os alunos compõem uma letra de rap, não precisam se prender a metáforas ou subjetividades, relatando suas investigações de maneira simples e objetiva. O rap também não necessita de refrão, não apresenta tempo de duração padrão e pode ser cantado acompanhado da mais simples batida, como palmas ou batuques. E o aluno que não gosta de cantar pode declamar suas letras como um poema”, opina.

No estudo específico da biologia, a atividade ajuda os alunos a memorizar e se familiarizar com termos complexos, como os do campo da botânica. “Muitas vezes, os versos de um rap terminam com uma palavra-chave, que servirá de referencial para as rimas dos próximos versos. Quando se trata de um termo novo que está sendo apresentado, percebo que há maior assimilação pelos alunos”, analisa.

Judice diz que prioriza na atividade a investigação científica. Para isso, orienta os alunos a, antes de começar a escrever, realizar algumas etapas do método científico, como a observação do fenômeno, a elaboração de perguntas e hipóteses, a testagem das hipóteses via experimentos ou revisão bibliográfica e, por fim, a confecção de um relatório de pesquisa. “Esse documento servirá de base para a construção da letra do rap”, explica.

A partir daí, os estudantes ficam livres para criarem suas músicas, mas são orientados a não utilizar palavrões ou termos de cunho criminoso – racistas ou homofóbicos, por exemplo. E as dificuldades em rimar são sanadas usando dicionários de rimas online.

Na hora de gravar as canções, os alunos utilizam bases instrumentais de uso livre ou criam as suas próprias em programas de computador. As produções são postadas nos canais do docente no YouTube (professor Thiago Judice) e no Instagram (@prof.thiagojudice). “Sigo como mediador em todo o processo, orientando fontes de pesquisa e sanando dúvidas”, conta.

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