Primavera árabe, conflitos na Síria e o retorno do grupo extremista Talibã ao Afeganistão são desdobramentos do atentado de 11 de setembro de 2001 contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. “A partir dele, inicia-se a guerra ao terror, com países contra organizações e um discurso de segurança que alimenta interesses geopolíticos por parte dos Estados Unidos, além de limitar liberdades individuais”, resume o doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo Teles. Em entrevista, o historiador explica as consequências do evento e traz formas de abordá-lo na educação básica.

Instituto Claro – Qual a importância histórica do 11 de setembro?

Paulo Teles: Ele inicia a era do terror e das guerras assimétricas. Práticas de terrorismo já existiam antes, inclusive na idade média. Elas objetivam mais impactos psicológicos do que danos materiais. É um ato politico, que usa o medo como arma. Nessa perspectiva, 11 de setembro reordena a geopolítica internacional. Não há mais guerras de alguns países contra outros, mas contra organizações. É um quadro que não nasce em 2001, mas se consolida naquele momento.

Qual o contexto do atentado de 11 de setembro?

Teles: O primeiro atentado da Al-Qaeda – grupo radical islâmico de Osama Bin Laden – ocorre nos Estados Unidos (EUA), em 1993, e serve como preparação. Esses grupos visam a implantação de uma civilização islâmica e são contra o imperialismo norte-americano, acolhendo jovens mulçumanos em condições de subemprego. Eles não representam a religião, o que é importante ser dito para evitar islamofobia.

Leia também: Dossiê 11 de Setembro : indicação de textos, livros, sites e filmes

Quais os desdobramentos do atentado de 2001?

Teles: Ele gerou ideias de guerras preventivas por parte dos EUA, que começam a mapear locais do mundo tidos como “santuários de terroristas”. Usa-se um discurso de segurança para promover interesses geopolíticos e alimentar políticas que limitam liberdades individuais. Cresce a islamofobia e há a crise de refugiados. Isso porque atos terroristas e intervenções ocidentais no Oriente Médio fazem governos já frágeis caírem — como na Primavera árabe (2010). A instabilidade é aproveitada por grupos radicais islâmicos em lugares como Síria e Iraque, que avançam e geram êxodo da população. O atentado ainda fortaleceu a extrema direita no mundo, com discursos islamofóbicos, xenófobos e anti-imigrantes. Isso aconteceu nos EUA, França, Polônia e Hungria.

Como ficou a geopolítica do Oriente Médio após o atentado?

Teles: Atentados posteriores da Al-Qaeda na Espanha (2004) e Reino Unido (2005) aumentam o interesse ocidental em intervenções no Oriente Médio. O Ocidente tem Israel como parceiro na região. Empoderado, ele impõe novas políticas contra o Estado Palestino que insufla o movimento de resistência Hamas, aumentando a instabilidade. Americanos invadem o Iraque e desmontam o governo militar de Saddam Hussein. Denúncias de violações de direitos humanos fazem parte do exército iraquiano. Ex-prisioneiros de guerra e grupos extremistas se juntaram contra o imperialismo na região, desestabilizando Iraque e Síria. Em 2010, a Primavera árabe começa bem vista pelo ocidente. É a chance de deporem governos pouco colaborativos, como na Líbia. Mas ao tentarem implantar um caráter ocidental no Oriente Médio, inflamam grupos nacionalistas e provocam crises de refugiados, como no norte da África.

Confira: Dossiê Primavera Árabe

Como a volta dos talibãs no Afeganistão se relaciona com esse fato?

Teles: O Afeganistão é chamado de cemitério dos impérios. É estratégico, pois faz fronteira com Irã, subcontinente indiano, Rússia e China. O Império Britânico foi expulso de lá (1919), sendo precedido pela monarquia (1973) e República (1978), quando sofre golpe de socialistas apoiados pela União Soviética (URSS). Iniciativas modernizantes instauradas desagradam a população conservadora. O governo socialista cai e assume o grupo Talibã, que significa “estudantes” (1996-2001). Esses são acusados de abrigarem o idealizador do 11 de setembro, Osama Bin Laden. Ao intervirem lá, em 2001, os EUA tentaram construir um governo aliado em uma região de rivais, como Irã, Rússia e China. Após 20 anos e 1 trilhão de dólares gastos, não estabilizaram a região e sua política externa fracassou.

Qual o impacto do retorno do Talibã na questão de gênero no Oriente Médio?

Teles: Ao governar o Afeganistão (1996-2001), o Talibã faz uma interpretação rigorosa da lei islâmica (xaria), perseguindo mulheres e violando direitos humanos. Derrubado, foge para Paquistão, país conservador conhecido pelo atentado contra a ativista pelo direito das meninas estudarem, Malala. Ao retornar ao Afeganistão (2021), espera-se que o Talibã revogue as conquistas de gênero promovidas pelo governo anterior, alinhado ao ocidente.

Você indica formas desse tema ser trabalhado na educação básica?

Teles: Esse é um tema que pode ser introduzido a partir do 9º ano do ensino fundamental, quando se inicia geopolítica, e retomado no 3º ano do médio. É interdisciplinar, abordado entre geografia e história. Recomendo filmes e documentários com visão não-ocidental. Caso de “Mosul”, sobre policiais iraquianos contra o estado islâmico.

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