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O ano de 2021 começa com um grande desafio para a educação, sobretudo diante dos impactos causados pela pandemia de covid-19. Com a oferta das atividades prioritariamente on-line este ano, já foi possível observar um aumento no número de crianças e jovens que não tiveram acesso à educação. “Há uma parcela que já está fora e os que, com a pandemia e a quarentena, perderam completamente o contato com a escola. Como a evasão escolar é essencialmente um processo de rompimento dos vínculos com a escola, isso pode ser uma coisa substantiva”, analisa o diretor de pesquisa e avaliação do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Romualdo Portela de Oliveira.

O professor coordena um grupo de estudo sobre os dados da Pnad Covid, que, em dezembro, indicam um cenário ainda mais preocupante para a evasão escolar no início do próximo ano. “Somando os que não estão tendo acesso às atividades e os que não estão frequentando nada, temos algo em torno de 40% da população que deveria estar na educação básica. Isso é muito alto se você considerar que a população fora da escola, na educação básica, é algo em torno de 12%”, destaca. Ele acredita que este aumento possa ser um efeito mais longo da pandemia: “Mesmo com políticas bem sucedidas, no curto prazo, nós vamos ter um aumento da evasão. A população fora da escola vai aumentar. Se tivermos políticas intensas de busca ativa, pode ser que a gente recupere isso em um ano ou dois”.

Perfil dos alunos

Para entender melhor os motivos que levam ao agravamento desse quadro e que medidas podem diminuir os impactos da pandemia na evasão escolar, o Instituto Claro conversa também com o pesquisador e doutor em educação Wander Augusto Silva e com a pedagoga Lisete Arelaro.

Para Silva, a evasão escolar atinge principalmente crianças e jovens que já têm menos acesso a outros direitos constitucionais.“A pessoa mais pobre, morador de periferia, com um nível cultural familiar mais baixo; na sua maioria homem. E a questão da busca do trabalho, do emprego, que retira muitos jovens e crianças da educação”, sintetiza o professor ao traçar o perfil dos mais impactados e responder sobre os motivos que levam à interrupção escolar.

Evasão forçada

A pedagoga e doutora em educação Lisete Arelaro vê no atual cenário uma evasão forçada, motivada pela falta de acesso à internet e indisponibilidade de aparelhos adequados para acompanhar as atividades escolares.“São poucas as famílias ainda que detêm computador em casa disponível para que um filho possa utilizar em tempo integral. Então isso vai dando um desinteresse”, explica.

No áudio, os especialistas apontam a aprovação automática e uma política de busca ativa escolar como formas de mitigar os impactos da falta de acesso aos conteúdos escolares e a possível desmotivação para a realização de matrículas no início do ano letivo.

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Transcrição do Áudio

Música “Jungle”, de Aakash Gandhi, fica de fundo

Romualdo Portela de Oliveira:
Você tem uma parcela que já está fora e os que com a pandemia e a quarentena perderam completamente o contato com a escola. Como a evasão é essencialmente um processo de rompimento dos vínculos com a escola, isso pode ser uma coisa substantiva.
Romualdo Portela de Oliveira, professor aposentado da Faculdade de Educação da USP e diretor de pesquisa e avaliação do Cenpec.

Vinheta: “Instituto Claro – Educação”

Música de Reynaldo Bessa, instrumental, fica de fundo

Marcelo Abud:
Se o cenário de evasão escolar já era desafiador para as redes públicas de ensino até 2019, com a pandemia vivida ao longo deste ano, especialistas alertam para um quadro ainda mais grave. O professor Romualdo Portela de Oliveira coordena um estudo que avalia os dados mais recentes de pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE.

Romualdo Portela de Oliveira:
Um dado mais seguro é o da Pnad Covid, que acabou de sair, que aponta o seguinte: somando os que não estão tendo acesso às atividades e os que não estão frequentando nada, nós temos algo em torno de 40% da população que deveria estar na educação básica. Isso é muito alto se você considerar que a população fora da escola, na educação básica, é algo em torno de 12%.

Marcelo Abud:
A pedagoga e doutora em educação, Lisete Arelaro, aponta um dos motivos do que denomina como sendo uma “evasão forçada”.

Lisete Arelaro:
Eu ouvi já – não é o primeiro nem o segundo governo – que fala que vão dar tablets para os alunos e efetivamente os tablets não chegaram. É uma situação, assim, de falta de planejamento. Nós estamos há dez meses da pandemia, teria dado pra comprar ou ter tomado outras providências que protegessem essas crianças e esses jovens de manter esse mínimo de contato com as escolas. Se não fossem os professores fazer isso por conta própria… As secretarias de educação ainda vivem buscando relatórios e outras coisas mais pra controlar se o professor está trabalhando do que preocupados exatamente na incorporação menos desigual dessas crianças e jovens no processo educacional.

Marcelo Abud:
O doutor em educação pela UFMG e pesquisador sobre evasão escolar, Wander Augusto Silva, identifica quem normalmente corre mais risco de não se matricular na escola, em 2021.

Wander Augusto Silva
O perfil seria realmente a pessoa mais pobre, morador de periferia, com um nível cultural familiar mais baixo; na sua maioria homem; grande parte das mulheres, tanto no ensino fundamental quanto no médio, elas têm uma propensão maior a continuar no estudo. E a questão da busca do trabalho, do emprego, que retira muitos jovens e crianças da educação.

Lisete Arelaro:
Aí esse jovem, essa criança que não pode usar o celular, a mãe ou o pai precisam do celular… São poucas as famílias ainda que detêm computador em casa disponível para que um filho possa utilizar em tempo integral. Então isso vai dando um desinteresse, esse é um problema do retorno às aulas presenciais quando for o caso.

Romualdo Portela de Oliveira:
É muito importante essa questão do acesso à informática, o que implica em sinal e equipamento. Também é verdade que isso tem um sentido mais de longo prazo. Assim como está acontecendo em um conjunto de atividades, por exemplo, escritórios, uma série de atividades profissionais, que quando acabar a pandemia não voltará a ser a mesma coisa que era antes, a educação também não vai voltar a ser exatamente o que era antes; quer dizer, os mecanismos de ensino remoto eles vão ser incorporados às práticas cotidianas das escolas presenciais. É razoável a gente imaginar que o material escolar daqui pra frente vai incluir acesso à internet e equipamentos. Vamos ter que ter um programa nacional de inclusão digital como condição do acesso à educação básica. Por quê? Porque todo mundo percebeu que isso é um recurso que pode ser utilizado complementarmente às aulas presenciais e cria uma situação, de fato, que é irreversível.

Música: “Aceita o vento” (Glauco Ribeiro)
Aceita o vento
Sem nove horas
Pra tudo, um tempo
Não se apavora

Marcelo Abud:
Os especialistas concordam que a reprovação é um fator muito forte de evasão e deve ser evitada em momentos como o que estamos vivendo.

Romualdo Portela de Oliveira:
Probabilidade de evasão de alguém que já repetiu é muito maior porque, além de não ter aprendido, ele vai ser alocado em turmas com faixa etária menor, portanto a convivência fica mais difícil…

Wander Augusto Silva:
Quando houve a gripe espanhola lá no passado aqui no Brasil, na República Velha ainda, tivemos a situação um pouco semelhante. E à época, a escolha foi realmente a aprovação automática. Mas, a meu ver, não é uma coisa pra se ficar muito preocupado. ‘Ah, vai aprovar todo mundo, e a questão da qualidade?’. A qualidade, na educação, não é feita de um ano para o outro. Ela é feita através de décadas, através de um plano contínuo de ação, coisa que, no Brasil, devido a “ene” fatores – entra governo, sai governo com uma direção e um outro governo com outra direção – nós não temos essa seriedade. A questão da qualidade no Brasil, pública, ela é histórica, ela não é de agora.

Romualdo Portela de Oliveira:
Portanto eu acho louvável o que alguns sistemas de ensino têm definido que não haverá reprovação este ano, que o conteúdo que estava previsto nisso vai ter que ser, digamos assim, analisado no contexto de cada escola e distribuído num período de tempo mais amplo. Ou seja, o que é essencial é entender que o direito à educação é o direito à frequência e ao aprendizado, que dizer, se o aprendizado foi prejudicado, o retorno tem que levar isso em consideração e você tem que ter uma reorganização curricular que contemple a possibilidade dessas crianças e adolescentes aprenderem aquilo que, de alguma maneira, elas não tiveram acesso ou que tiveram acesso precário.

Música: “Aprendendo a jogar” (Guilherme Arantes), na voz de ????
Nem sempre ganhando,
Nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar…

Marcelo Abud:
Romualdo Portela de Oliveira faz um prognóstico sobre o caminho para começar a reverter o quadro de evasão escolar agravado com a pandemia.

Romualdo Portela de Oliveira:
Os sistemas de ensino vão ter que desenvolver atividades –que a gente tem chamado de políticas de busca ativa escolar – ir atrás dessas populações ou desses grupos que não estão frequentando a escola para que voltem a fazê-lo. Mesmo que você tenha políticas bem sucedidas, no curto prazo, nós vamos ter um aumento da evasão. População fora da escola vai aumentar. Se tivermos políticas intensas de busca ativa, pode ser que a gente recupere isso em um ano, dois. Mas de toda maneira isso passa a ser um problema.

Marcelo Abud:
Wander Augusto Silva resume o que acredita que deve ser feito a longo prazo para uma mudança significativa na manutenção de estudantes regularmente nas escolas.

Wander Augusto Silva:
Mais recursos, criação de um órgão federal específico para evasão, gerando dados e programas; liberdade e participação da família na vida escolar e bolsas. Bolsas em vários níveis educacionais, pra ter uma alimentação razoável, para evitar evasão.

Música de Reynaldo Bessa, instrumental, fica de fundo

Marcelo Abud:
Como direito de todos e dever do Estado, é preciso manter as condições para trazer de volta as pessoas excluídas, por exemplo, por falta de acesso à internet. Como acompanhamos, especialistas acreditam no combate à reprovação como uma ação importante para evitar um aumento ainda maior da evasão.
Com apoio de produção de Daniel Grecco, Marcelo Abud para o Instituto Claro.

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