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A taxa de matrículas na Educação de Jovens e Adultos (EJA) teve redução de 12% no Rio Grande do Norte nos últimos cinco anos, caindo de 75.709 estudantes, em 2015, para 66.648, em 2019. Os dados são do mais recente censo escolar, divulgado pelo Ministério da Educação e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Iva Dantas de Azevedo acompanha as aulas pelo rádio, enquanto filhos usam celular para estudar (crédito: arquivo pessoal)

Com o distanciamento social, o receio da Secretaria da Educação e da Cultura (Seec) era de que essa evasão se tornasse ainda mais crítica. No entanto, com ajuda do rádio, verificou-se outro cenário.

“Pessoas que estavam afastadas da escola se matricularam. A gente teve um aumento de 100 estudantes”, comemora a diretora da 10ª Regional de Ensino da região, com sede em Caicó (RN), e responsável por 19 escolas que oferecem a EJA.

De acordo com Suenyra Nóbrega, ouvida neste podcast, o êxito se dá pela parceria da Rádio Rural FM, que pertence à Fundação Educacional Santana e foi criada em 1963 justamente para transmitir aulas na região.

Suenyra Nóbrega no estúdio da Rádio Rural (crédito: print do vídeo “EJA em ação estreia programa de rádio na 102,7 fm”)

“Por que um programa de rádio? Porque atenderia a todos, independente de quem tivesse internet ou não. Então seria uma forma da gente conseguir interagir com os estudantes”, explica ela, contando que a interação acontece, além das redes sociais, também pela linha telefônica da rádio.

“A gente parte do tema gerador, que é de interesse dos estudantes, e cada área se mobiliza pra trazer uma discussão, um círculo de cultura virtual, que seja lúdico, interativo, dinâmico e acessível para esse público”, acrescenta.

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EJA: modalidade de ensino pode resgatar cidadania de brasileiros que estão à margem da sociedade

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Música instrumental, de Reynaldo Bessa, de fundo

Suenyra Nóbrega:
A gente já enfrenta no ensino presencial uma evasão para o público de educação de jovens e adultos e a gente não quer que aconteça isso nesse momento. Então, por isso que a gente está interagindo com eles, tentando da forma mais prática chegar até a casa de cada um. E o que está sendo utilizado como meio dessa intervenção são as ondas do rádio. E eles têm espaço de participar e de produzir.

Aqui é Suenyra, diretora da 10ª Diretoria Regional de Ensino, sediada em Caicó, estado do Rio Grande do Norte.

Vinheta “Instituto Claro – Cidadania”

Música instrumental, de Reynaldo Bessa, de fundo

Marcelo Abud:
Caicó está localizada na região do Seridó, no Rio Grande do Norte, e tem quase 68 mil habitantes. A cidade abriga a 10ª Diretoria Regional de Ensino, responsável por 32 escolas, distribuídas em 11 municípios. Dessas, 19 oferecem Educação de Jovens e Adultos.

Com as escolas fechadas por causa do distanciamento social, o desafio foi pensar em como interagir com esses estudantes. Suenyra Nóbrega revela porque o rádio foi escolhido para essa missão.

Suenyra Nóbrega:
Fabíola Dantas, assessora pedagógica da 10ª Direc sugeriu, para que a gente pudesse interagir com a Educação de Jovens e Adultos, com os estudantes, um programa de rádio. Por que ela pensou nesse programa de rádio? Porque atenderia a todos, independente de quem tivesse internet ou não. Quem não tivesse acesso à internet, a um celular ou a computador, mas tinha acesso ao rádio. Então seria uma forma da gente conseguir interagir com os estudantes.

Vinheta “Programa EJA em Ação”
(Locutor) Pela Rural 102,7 FM, o programa EJA em Ação, a educação nas ondas do rádio.

Suenyra Nóbrega:
Para que o projeto EJA em Ação fosse materializado, a gente buscou a parceria da Rádio Rural daqui de Caicó, uma emissora sempre voltada para o trabalho com a educação. Sua origem partiu desse trabalho voltado para a educação radiofônica. De imediato, a gente foi acolhido. Essa parceria entre a 10ª Direc e a emissora está sendo produtiva. Ter o apoio de uma emissora de grande abrangência é extremamente significativo.

Marcelo Abud:
Pelo rádio, as aulas continuam a ser transmitidas no mesmo horário em que jovens e adultos frequentavam as escolas.

Suenyra Nóbrega:
A gente precisava de um horário que atendesse ao público de Educação de Jovens e Adultos.  O horário que os estudantes chegavam até as escolas era 19 horas. Já tinham preparado o jantar, organizado sua vida, chegado do trabalho, para poder ir até a instituição de ensino. De imediato a gente pediu um tempo de 40 minutos, só que, com a produção do programa, o planejamento, esse tempo ficou pequeno. O que a rádio pode fazer pra gente, porque vale salientar que é um espaço totalmente gratuito, uma parceria muito significativa. Então, eles nos deram mais 10 minutos, que seria começando a partir das 18h50 até às 19h40.

Marcelo Abud:
Uma das marcas da educação pelo rádio é o seu caráter regional.

Trecho da aula na Rádio Rural
Apresentadora:
“O balão não vai subir
Nem os fogos estourar
O xote, o xaxado, o forró
Além do arrasta-pé do baião
Esse ano vão acabar deixando
Na vontade o coração
De quem ama o balançado
Quem é muito apaixonado

Por essa nossa tradição”

Suenyra Nóbrega:
O programa foi construído com uma rotina: na segunda, são abordados os temas sociais. A gente tem a participação de psicólogos, assistentes sociais, professores universitários, professores pesquisadores, professores da rede estadual, municipal, gestores. Na terça-feira, há uma interação entre ciências humanas e sociais. Na quarta-feira, entre ciências da natureza e matemática; na quinta-feira, as linguagens; e, na sexta-feira, há uma produção do círculo de cultura virtual que faz uma retrospectiva do que foi discutido durante a semana e tem a participação direta dos estudantes. Eles se posicionam pelas redes sociais, mas o telefone também está disponível para que eles possam entrar em contato.

Participação de ouvinte no EJA em Ação:
Me chamo Jéssica, tenho 2 filhos e sou filha de mulher negra, portanto também sou mulher negra. Por meio de um projeto chamado “Um diálogo entre a história e a literatura: escritoras negras que os livros não mostram”, pude me ver, me senti representada e enxergar todo meu potencial de mulheres negras ao longo da história. Percebi que não fomos apenas escravizadas, mas participamos de lutas, escrevemos livros… isso pra mim foi muito importante.

Suenyra Nóbrega:
E eles nos surpreendem muito. É um momento de muito significado, porque é quando a gente vê que eles realmente estão atentos, que eles estão interagindo e o próprio depoimento deles faz a gente avaliar o que precisa ser modificado no programa.

Marcelo Abud:
O EJA em Ação é inspirado no método Paulo Freire, em que a construção do conhecimento se dá a partir o diálogo, da participação e de reflexões críticas.

Suenyra Nóbrega:
A gente parte do tema gerador, que é de interesse dos estudantes. Partindo dessa temática,   cada área se mobiliza pra trazer uma discussão, um círculo de cultura virtual, que seja lúdico, que seja interativo, que seja dinâmico e que seja acessível para esse público. Então, as discussões são realizadas com muita maestria, é uma educação interdisciplinar e intertranscultural, porque ela perpassa pelas áreas, partindo de uma problematização. Então, se busca uma solução para o que está sendo discutido. Tudo isso é feito para os estudantes, no sentido e com o objetivo de que esse estudante esteja interagindo conosco, que ele esteja motivado a dar continuidade a seus estudos.

Música: “FM Rebeldia” (Alceu Valença)
“Alguém falava / Eu entendia / Nós precisamos conviver em harmonia”

Suenyra Nóbrega:
Quanto ao contato dos estudantes de EJA com seus professores, a proposição era que esse círculo de cultura virtual fosse dado continuidade em cada escola, em cada realidade. Só que nesse momento de isolamento social seria através de como os professores pudessem interagir com esses estudantes ou através de grupos de WhatsApp… Então, os estudantes interagem também com os professores de acordo com cada disponibilidade, com cada escola. E temos também, não só os estudantes que estão matriculados, mas outras pessoas que estavam afastadas da escola e que, motivados pelo EJA em Ação, o que eles têm ouvido todo dia, houve um aumento do número de matriculados, depois da implantação do programa EJA em Ação em articulação com as escolas, a gente teve um aumento de 100 estudantes.

Música “Arraiada”, de Reynaldo Bessa, de fundo

Marcelo Abud:
Esse interesse de jovens e adultos da região de Seridó, no Rio Grande do Norte, não era comum nem em tempos de aulas presenciais. Com o sucesso da iniciativa, o EJA em Ação tem inspirado o uso do rádio em outras localidades e também auxiliado no ensino no sistema prisional da região.

Com o apoio de produção de Daniel Grecco, Marcelo Abud para o Instituto Claro.

Música: “Sintonia” (Moraes Moreira)
“Você me sintoniza / E a gente então se liga / Nessa estação”

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