
Democratizar o uso das tecnologias educacionais exige melhores condições de trabalho aos professores. Essa é a opinião do pesquisador de exclusão digital e professor da Universidade Federal do ABC, Sérgio Amadeu da Silveira. Ele é um dos palestrantes do IX Seminário Internacional “As redes educativas e as tecnologias”, que acontece no Rio de Janeiro (RJ). “O professor da escola pública é obrigado a ter uma carga horária alta, o que o impede de se preparar para usar a tecnologia criativamente”, reforça.
O que dificulta a democratização das tecnologias educacionais na escola?
Sérgio Amadeu: A tecnologia não melhorará as escolas enquanto não houver condições salariais e de trabalho dignas ao professor, assim como a formação permanente desse docente. O professor da escola pública é obrigado a ter uma carga horária alta, o que o impede de se preparar para usar a tecnologia criativamente. Além disso, a escola ainda atende a uma lógica de reprodução e não de criação, o que também dificulta o uso das tecnologias.
Qual a diferença da lógica de reprodução para a lógica de criação?
Sérgio Amadeu: Como o professor não tem tempo de preparar aulas e se formar, ele acaba se apoiando na utilização de recursos com os slides em Power Point ou na transcrição de conteúdos na lousa. Isso não estimula os alunos a tentarem resolver os problemas e desafios sugeridos de modo diversificado, com olhares diversos. É ensinada uma única maneira de solucionar a questão. Para completar, há também a forma como a escola é estruturada, até arquitetonicamente, que também não estimula a criatividade. Os alunos ainda são dispostos em filas, por exemplo.
Como a tecnologia ajuda a estimular criativamente os alunos?
Sérgio Amadeu: A criatividade na escola passa pelo professor e pela sua aula. Mas também é preciso introduzir a programação em código aberto e incentivar os jovens a criar soluções para o cotidiano de suas comunidades e coletivos. O
código aberto é fundamental para a liberdade do conhecimento pois combate a ideia da tecnologia como um passe de mágica ou como caixa preta, que precisam ser desmistificadas.
Quais as vantagens dos recursos educacionais abertos (REA) para os professores?
Sérgio Amadeu: A educação escolar não é realizada igualmente em todos os bairros e cidades. Cada escola, cada aluno, possuem especificidades que devem fazer parte da compreensão necessária para articular estratégias de incentivo e uso das tecnologias, dos celulares, dos aplicativos e apps. Quando trabalha-se de forma distribuída e conectada a possibilidade de melhorar a escola aumenta. Pois um material didático originalmente produzido ou retrabalhado pelos educadores das várias regiões é muito mais rico que os materiais oferecidos pelos
sistemas de ensino. Permite soluções personalizadas, de acordo com a localidade e necessidade da escola.
Como os REA podem ser introduzidos nas escolas públicas?
Sérgio Amadeu: Para isso, sugiro reivindicar programas de Recursos Educacionais Abertos que envolvam os educadores das escolas com orientação das universidades. Mas sempre com a autonomia do professor.
Como deve ser a aprendizagem usando a tecnologia?
Sérgio Amadeu: Aprender também é diversão. Atividades inventivas são divertidas, com cartas-educativas [cards educativos que utilizam personagens, tramas e jogos para o processo de aprendizagem],
games presenciais e online. E quando não é possível ser divertido, o aluno precisa ser estimulado a se aproximar daquele conteúdo de outras formas. Mas é necessário ter cuidado com a passividade, pois muitas corporações fazem jogos educacionais para vincular as crianças e jovens a seus produtos.
Quais os desafios para o futuro em relação à tecnologia educacional?
Sérgio Amadeu: Penso que as escolas ainda precisam compreender e estar preparadas para o mundo autômato. Cada vez mais os algoritmos [na computação, trata-se de uma série de instruções logicamente encadeadas que define a execução de uma tarefa no meio digital] substituirão pessoas em uma série de atividades. Essa situação afetará toda a sociedade, assim como o aprendizado e o ensino formal. Os robôs, contudo, não devem ser encarados como algo distante ou como mágica. São máquinas com software e algoritmos programadas para uma determinada finalidade. A automoção já é uma realidade no mundo do trabalho. Os empregos do futuro serão mais sofisticados e, claro, exigirão uma educação mais sofisticada também.
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