O Império Romano é um conteúdo previsto para o sexto ano do ensino fundamental e, em geral, retomado no primeiro ano do ensino médio. “Nessa primeira etapa, o tema é estruturado principalmente dentro das unidades temáticas ‘a invenção do mundo clássico e o contraponto com outras sociedades’ e ‘lógicas de organização política’”, descreve o doutor em História Igor Barbosa Cardoso.

“São momentos em que os estudantes são instigados a pensar sobre o passado em diferentes contextos geográficos e em períodos históricos mais afastados. No caso da Roma Antiga, há diferentes idiomas, leis e religiosidades acontecendo simultaneamente. Porém, muitas pessoas têm contato apenas com os feitos dos imperadores, o que torna o entendimento restrito”, analisa a professora do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Renata Senna Garraffoni.

Filmes e séries sobre o Império Romano podem ajudar os professores a aprofundarem essa dimensão crítica sobre o período, como aponta a docente da Pós-Graduação em História da Universidade federal de Juiz de Fora (UFJF) Maria Claudia Bonadio.

“Por meio das produções audiovisuais, podem ser tratados conteúdos do próprio Império Romano, como religiosidades, política, economia, diversidade de povos com os quais os romanos tiveram contatos, mas também aquilo que chamamos de recepção da Antiguidade na posteridade: na arte, na literatura, no cinema, nas séries e nos quadrinhos”, acrescenta.

Cardoso cita como conteúdos a serem discutidos noções de autocracia, democracia e aristocracia; o processo de romanização e hibridização cultural ao longo do Mediterrâneo; o mundo do trabalho e suas diferentes tipologias como trabalho livre e escravidão; bem como as relações sociais, revoltas e violências.

“Compreender a Roma Antiga é fundamental porque ela está na base do pensamento, da linguagem e da política moderna, mobilizada até os dias de hoje. Entre os principais motivos para ensinar esse conteúdo contemporaneamente, destacam-se alguns conceitos fundamentais para a formulação de uma consciência histórica crítica, tais como liberdade, cidadania, globalização, multiculturalismo, subalternidade, resistência, colonialidade, dinâmicas de gênero e relações de poder”, complementa a professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenadora do Cineclube CiNEAM/UFMG, Maria Cecilia Coelho.

“No caso dos filmes, por exemplo, seria interessante pensar por que a maioria só retrata as elites e os homens, muitas vezes deixando camadas populares e as mulheres em segundo plano”, assinala Garraffoni.

Discutindo fontes históricas

Segundo os professores, o desafio para trabalhar filmes sobre Roma Antiga e Império Romano em sala de aula é que as próprias fontes históricas possuem muitos elementos ficcionais.

Assim, há alguns cuidados ao apresentar filmes sobre o Império Romano para os alunos.

“Muitos nascem de adaptações de romances históricos do século XIX ou XX e não necessariamente de textos diretamente da Antiguidade, por exemplo. Então, quase sempre vêm atravessados por leituras modernas da Antiguidade. Assim, o docente precisa discutir as adaptações com estudantes, para que possam refletir sobre como o Império Romano circula entre nós hoje”, orienta Bonadio.

“’Gladiador’, de 2000, foi realizado partir de pinturas do século XIX e romances. As vestimentas foram inspiradas em Alma Tadema, um pintor do século XIX que se destacou por pintar as ruinas romanas e recriar cenas cotidianas. Separar esses elementos desde uma perspectiva histórica é fundamental para entender como o filme é construído”, contextualiza Bonadio.

“Filmes como ‘A queda do Império Romano’ e ‘Gladiador’ reconstroem o perfil do imperador Cômodo a partir de fontes antigas, a exemplo de ‘História Augusta’. Assim, temos a caracterização de uma pessoa lasciva, cruel e soberba. No entanto, a historiografia contemporânea tem discutido sobre de que forma as fontes antigas também não eram neutras”, analisa Cardoso.

Para Garraffoni, o ideal é deixar de lado o que está certo ou errado na adaptação e compreendermos a época em que foi produzido, quem produziu e a partir de quais documentos os roteiros foram criados.

“As possíveis diferenças entre roteiro e fontes devem ser tratadas como escolhas estéticas e ideológicas reveladoras de uma época posterior”, ressalta Coelho.

Interdisciplinaridade

Em termos interdisciplinares, Garraffoni recomenda utilizar os filmes sobre em projetos que, além de história, também incluam literatura, artes, geografia e noções de arqueologia. Coelho recomenda a associação com filosofias. “Como, por exemplo, a relação entre Nero e Sêneca ou Alexandre e Aristóteles.  Temas como dilemas morais, utopias, distopias e debates sobre alienação social, fake news e estruturas de poder perpassam, por meio de filmes, diversas disciplinas”.

Como apoio, o professor pode consultar os artigos científicos “Quando os antigos romanos entram em cena: corpos, vestimentas e masculinidades no cinema”, de Bonadio e Garraffoni, e “Mitologia, história e cinema: um projeto de extensão sobre recepção do mundo greco-romano em curso”, de Coelho e Cardoso.

A seguir, confira sete filmes que ajudam a ensinar Império Romano e Roma Antiga nas aulas de história.

1) Asterix e Obelix contra César (1999)

O filme acompanha Asterix e Obelix, habitantes de uma aldeia gaulesa que resiste à ocupação romana graças a uma poção mágica que concede força sobre-humana. Quando o governador romano Tullius Detritus descobre o segredo da poção, ele planeja sequestrar o druida Panoramix para tomar o poder. “É interessante por ser do ponto de vista dos gauleses e não dos romanos”, analisa Garraffoni. Classificação indicativa: Livre.

2) Os últimos dias de Pompeia (1913)

Ambientado em Pompeia pouco antes da erupção do Monte Vesúvio, em 79 d.C., o filme acompanha o romance entre o nobre grego Glauco e Ione, marcado pelas intrigas do sumo sacerdote egípcio Arbaces. A obra é baseada no romance homônimo do escritor britânico Edward Bulwer-Lytton, do século XIX. “É, portanto, uma história fictícia que se passa pouco antes de o Vesúvio entrar em erupção”, aponta Bonadio. Classificação indicativa: Livre.

3) O primeiro rei (2019)

O filme é falado em latim antigo reconstruído e aborda a fundação de Roma, com uma narrativa que acompanha Rômulo e Remo “É uma experiência diferente, com bastante ação, e tem como pano de fundo uma discussão sobre poder: afinal o que fundamenta uma sociedade, a violência ou o direito?”, questiona Garraffoni. “Para estudantes de ensino médio, é um filme diferente, fora dos padrões de Hollywood, mas que pode suscitar várias discussões importantes sobre poder no passado e presente”, adiciona. Classificação indicativa: 12 anos.

4) Pompeia: sob as nuvens (2025)

Dirigido por Gianfranco Rosi, o documentário, inspirado no surrealismo de Jean Cocteau e filmado em preto e branco, cruza passado e presente na região do Vesúvio. A obra também aborda a relação entre a história das escavações de Pompeia e o cotidiano da região de Nápoles. Classificação indicativa: 12 anos.

5) A queda do Império Romano (1964)

O filme acompanha o imperador Marco Aurélio, que decide indicar o general Lívio como seu sucessor em vez de seu filho, Cômodo. Após a morte de Marco Aurélio, Cômodo assume o poder, desencadeando conflitos políticos, corrupção e guerras nas fronteiras que marcam o início do declínio do Império Romano. “Permite trabalhar os conceitos de pax romana (período de relativa paz entre os séculos I e II d.C.), o cosmopolitismo integrador e a derrocada dos valores humanistas”, indica Coelho. Classificação indicativa: 12 anos.

6) Spartacus (1960)

Dirigido por Stanley Kubrick, o filme acompanha Spartacus, um escravo vendido para ser treinado como gladiador. Após liderar uma rebelião, ele reúne um exército de escravizados fugitivos que desafia a autoridade da República Romana e enfrenta as forças do Senado. “Permite analisar as relações entre paganismo e cristianismo, escravidão e violência”, analisa Coelho. Classificação indicativa: 14 anos.

7) Gladiador (2000)

O filme acompanha o general romano Maximus, traído por Cômodo, filho do imperador Marco Aurélio, que assume o poder e ordena a morte de sua família. Transformado em escravo e gladiador, Maximus retorna a Roma e enfrenta Cômodo na arena do Coliseu em busca de vingança. “Permite analisar a espetacularização da violência na arena, as dinâmicas de poder e a demonização de Cômodo em contraste com as virtudes de Marco Aurélio”, afirma Cardoso. Classificação indicativa: 14 anos.

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Crédito da imagem: Nico De Pasquale Photography – Getty Images

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